O miolo e a côdea
Há pouco tempo, descobri que os livros juvenis que mais sucesso faziam na LeYa eram, estranhamente, livros do meu tempo de miúda. A verdadeiramente prolixa Enid Blyton não fora, pelos vistos, ultrapassada pelos autores mais recentes, e a sua colecção As Gémeas continuava (e continua) imbatível. Achei curioso, porque já quase ninguém anda em colégios internos como as gémeas e o mais provável seria os leitores actuais não se identificarem com as suas histórias; mas, ao que parece, ainda são as partidas inocentes (como pôr aranhas na cama das colegas) a cativarem meninos e meninas, uma forma de poder fazer maldades sem ser mau (já chega de violência a sério nas escolas, com tanto bullying e cenas de pancadaria). Há também quem diga que o sucesso das Cinquenta Sombras não é, ao contrário do que eu pensava, a suposta pornografia, mas o facto de a história ser entre um trintão rico e uma rapariga pobre, receita que, pelos vistos, nunca se gasta e funciona sempre (e isso explica, até certo ponto, por que razão as obras do mesmo tipo publicadas no rasto da trilogia de E. L. James se vendem muito menos). Haverá então, por parte dos leitores de todas as idades, uma maior predilecção por um miolo antigo, familiar, confortável e desejável, sendo a côdea mais ou menos indiferente? Quereremos, no fundo, as coisas inocentes ou bonitinhas de sempre, e o resto é mero revestimento?
Ora aí está uma boa questão! E até explica, em parte, o facto de, frequentemente, encontrarmos pessoas a ler o 50 sombras em locais públicos , com a maior das naturalidades e descontrações... ehehehe
ResponderEliminarAh, e adoro as Gémeas! E a Diana no Colégio das Quatro Torres, também! À conta destes livros, acalentei, durante muito tempo, o sonho de ir para um colégio interno. :)
Cinquenta Sombras - Será literatura ou uma oportunidade de estar à la page (na moda) para quem não lê?
ResponderEliminartambém vou por aí, Severino.
EliminarÉ também a minha opinião.
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EliminarMais vale ler a Gaiola Aberta do Vilhena...
Também adorei "as gémeas" quando era pequena. Em parte porque eu própria tenho uma irmã gémea, e portanto já havia uma "predisposição" para gostar "delas".
ResponderEliminarTambém sonhei andar num colégio interno à conta desses livros! Fantasias!!! É o que é!!!
Mas hoje quero desejar à nossa anfitriã que a "Quinta das leituras" seja um sucesso! É hoje!!!
Isabel
há coisas que não se explicam muito bem.
ResponderEliminaro que posso dizer em relação aos livros antigos, é que os meus filhos nunca lhes acharam muita piada (anita, cinco, sete, etc).
em relação às 50 Sombras, o seu sucesso é ditado sobretudo por gente que normalmente não lê livros.
parece que tem quase todos os ingredientes que prendem o leitor pouco exigente, especialmente o sexo, essa coisa que continua a cheirar a proibido. :)
Não fazia ideia de que "As Gémeas" se lessem tanto... Eu devorei "Os Cinco" e "O Mistério", da Enid Blyton, talvez por ser rapaz...
ResponderEliminarTambém tentei a colecção portuguesa "Uma Aventura" e não gostei: quando oiço tanta gente a dizer que cresceu com essa colecção, digo de mim para mim que é uma questão de publicidade e que essa pessoa não teve oportunidade de se embrenhar nas aventuras muito mais interessantes (e, pasme-se, mais bem escritas) d'Os Cinco :).
Ehehe comigo foi exactamente o contrário :) A minha mãe deu-me Os Cinco e eu lembro-me de ter 7 anos e achar que aquelas histórias não faziam sentido nenhum, que os acontecimentos eram quase espontâneos, não tinha lógica, e que eles passavam os dias a comer e a passear de bicicleta.
EliminarDepois encontrei a série Uma Aventura, que me entusiasmou durante bastante tempo - até descobrir os contos de fadas, as Mil e Uma Noites e os livros da Sophia (incluindo uma antologia maravilhosa de poesia para crianças). Mas nessa altura já tinha uns 10 ou 11 anos.
Manuel
Eliminarnão me lembro de ter sido rapaz e também li os cinco de Enid Blyton. De fio a pavio. Quase sempre a horas mortas, debaixo dos lençois e com uma lanterna :), não dava jeito nenhum. E agradeço à bbiblioteca itinerante da Gulbenkian ir ao lugar onde vivia, aos funcionários que não recordo - só me lembram as prateleiras cheias de livros - o aturarem-me do princípio ao fim, deixarem-me escolher indiscriminada e fecharem os olhos a mais um volume ou dois que o permitido.
E creio que, em certos momentos, a leitura tem de ser confortável, prazenteira e o mais. Parece-me mais um tipo de leitura para principiantes e jovens. Que à medida que se avança (se se avança) o apetite decresce.
Como são diversas as memórias das pessoas que têm vidas diversas. Nos livros dos cinco entusiasmavam-me os lanches tão calorosos. De quem os esperava com gosto. Depois, mesmo nas maiores aflições, presos numa masmorra, fechados num castelo, o Tim lambia as mãos da Zé e isso descansava-me e havia sempre uma tablete num bolso, um cordel, uma lanterna...
EliminarE andarem de bicicleta era-me bonito demais. Bicicletas que só serviam para passear, nunca eu tinha pensado que existissem.
Beatriz,
Eliminarpelos comentários seus que aqui tenho visto, nunca, mas nunca pode ter sido rapaz. Por isso, não se lembra de o ter sido :). Sempre foi menina, e bem menina.
Provavelmente fui preconceituoso, imaginando que Gémeas, etc., eram para meninas e que os Cinco eram para rapazes. Na verdade, agora me lembro de uma amiga minha que lia os Cinco e O Mistério (também da Enid Blyton) e que adorava :).
Como corolário do continuado sucesso de vendas dos livros da Enid Blyton, se eu o fosse à Leya, e tendo em conta o muito merecido crescendo de perfil literário e mediático [e isso vende!, imagino o administrador da Leya a exclamar] de uma autora da casa, faria uma campanha de reedição e promoção especial dos livros do Detetive Maravilhas !
ResponderEliminarE é que vendia mesmo !
Ora e quem não gostava da Zé, do "tim", das piquenicadas, ou da cacatua "didi" e das brigas entre a Dina e o Filipe? Falando do miúdo vulgar que terei sido, claro...
ResponderEliminarNão conheço ninguém... e acho que o segredo destas aventuras é a simplicidade e pureza das histórias, sem moralismos chatos nem heroísmos idiotas, sem recados políticos e ecológicos...
Tal como papei também o Verne e o Salgari que foi um regalo!!!!! Estes então... têm muitíssimo a ver com o que sou e por onde andei... e ando.
Passei grandes períodos da minha infância e juventude, numa quinta, mais ou menos sózinho e isolado. Estas leituras me ocupavam, preencheram e ajudaram a formar pela curiosidade despertada em ir saber coisas sobre aquelas coisas, e na época era aos livros que se ia! Tive a felicidade de ter à disposição um biblioteca completa e muito bem apetrechada!
Não há nada como uma boa leitura juvenil, e sem dúvida que a tia Enid sabe falar ao pessoal, se bem que o faça de uma forma adulta, e saberá sempre... já deve ir aí na 5ª geração? É que o meu sobrinho neto tem 12 e gosta... Porque ler os "5" aos 7 de idade, acho prematuro. Não é infantil é juvenil pré-adolescente.... digo eu!
Saudações do Planalto, a caminho do plateau costeiro para onde sairei amanhã muito cedo, para 4 dias de uma aventura salgariana... eheheh!
Nada tem a ver com o tema, mas acabei finalmente de comprar a Decadência do Caminha numa dessas livrarias generalistas. Estava bem escondida, por trás das estonteantes novidades. Deve ter sido o meu olfato, sem c, que lá me levou. Começa bem, com uma dedicatória aos que traiu. Ainda há esperança!
ResponderEliminarAdorei o "A Decadência dos Olfactos", embora não tivesse tido facilidade em encontrar: tive mesmo de mandar vir pela internet no site da wook.
EliminarConfesso que no início custou-me um pouco a entrar. A linguagem do autor é muito característica, como aliás já se tinha percebido no seu primeiro romance, e ainda por cima uma boa parte do livro está escrito na segunda pessoa (o que se acaba por perceber que faz todo o sentido mas não é nada comum). Mas sensivelmente a partir do quarto capítulo já estava completamente embrenhada e não consegui parar de ler. E ainda aqui moram a Vilna, a Kaina, o Viktor...
Espero que também goste, caro co-leitor Paulo Oliveira! :)
Vamos ver, as referências são boas. No entanto, tenho de acabar primeiro As Vinhas da Ira, que apontam para o tema de há dois dias: desfrutar do sofrimento alheio. Bem sei, já devia ter lido há muito, mas infelizmente despertei tarde para a leitura.
EliminarEsse é o problema: Não sabemos , propriamente, o que queremos hoje...
ResponderEliminarSão as maiorias que criam mercados, os restantes agarram-se, como podem, a pequenos nichos que surgem ocasionalmente.
ResponderEliminarNeste caso, será de imaginar que o complexo de Cinderela ainda povoa muitas psiques contemporâneas, mais não seja enquanto tendência romanesca.
Já o outro lado, e puxando o tema de "Cinquenta Sombras", admira-me não vir à baila. Fala-se e escreve-se muito sobre mulheres - em cargos de elevado prestigio - e a empatia que, supostamente, criam no (fraco) enredo de E. L. James, mas pouco ou nada tenho visto sobre a igualmente inata empatia masculina para com o domino físico sobre o outro género; seria de supor também haver mercado masculino nesse sentido. Talvez, no entanto, seja a perspectiva através de uma mulher que afasta os homens desse tema/livro/género.
Devo admitir que eu próprio sinto mais conforto intelectual lendo algo onde o homem é o narrador presente ou a personagem principal.
"As Gémeas"... sempre adorei.
ResponderEliminarOlhe que as gémeas da Leya nao foram todas escritas pela enid blyton, mas ninguém reparou nisso, por quererem comer tanta lebre.
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