Rei morto, rei posto

Cada vez é mais difícil ficar vivo depois de morto. Não, não me enganei. Aqui há dias comentava com um colega que, nos tempos que correm, se o escritor não estiver aí de carne e osso, as vendas dos seus livros decaem imediatamente. Como diz Vargas Llosa, vivemos cada vez mais numa civilização do espectáculo – e, por isso, estar morto pode ter custos elevados. Embora se reeditem cada vez mais clássicos, a verdade é que muitos dos autores desaparecidos correm o risco de deixar de ser lidos a curto prazo. E digo isto porque me contaram uma história que vem confirmar como a morte pode matar não só o autor, mas também a importância da obra que legou. Duas escolas portuguesas foram recentemente fundidas, dando origem a um moderníssimo edifício, cheio de comodidades que as velhas não tinham e com capacidade para albergar a totalidade dos alunos que as frequentavam. Essa escola recebeu o nome de António Damásio, português de quem todos, naturalmente, nos orgulhamos e que, se não me engano, está hoje mesmo em Portugal para abrilhantar uma sessão nesse novo edifício que carrega o seu nome. Nada de estranho, se não soubéssemos que um dos estabelecimentos de ensino «evaporados» se chamava, não por acaso, Escola Vitorino Nemésio, escritor português que é autor de um dos mais belos romances de sempre – Mau Tempo no Canal – e que, além de poeta e ficcionista, foi um grande professor e comunicador (os mais velhos leitores deste blogue recordar-se-ão seguramente do programa de TV Se Bem Me Lembro). Ora, não tendo nada contra Damásio, aborrece-me mesmo assim que deixemos de ter o nome de Nemésio numa escola lisboeta – e pergunto-me se isto não quer dizer que, por um lado, quem tomou a decisão não tem noção da importância do autor açoriano na literatura portuguesa e, por outro, que já quase ninguém o lê...

Comentários

  1. a Rosário tem toda a razão.

    esta coisa de deitar quase tudo "pela janela fora", transtorna qualquer memória, então as dos distraídos...

    é por isso que dão muito jeito os centenários do nascimento ou falecimento de escritores (e ainda bem, é desta forma que muitas vezes descobrimos autores...).

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  2. Irritei-me agora! Mas não me espanto nada. Se os nossos decisores políticos têm uma incultura gritante. Se os nossos alunos do superior têm uma incultura gritante. Se muitos dos professores das novas gerações têm uma incultura gritante. Se só importa o Big Brother. Se os nossos "grandes" escritores do momento são os apresentadores dos talk shows da manhã e da tarde, vamo-nos admirar que matem os Nemésios deste país? (e ou muito me engano, ou os habitantes dessa nova escola também não sabem quem é esse tal de António Damásio que ora lhes empresta o nome...)

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  3. O que eu encontrei de mais peculiar a respeito desta tristíssima história é que o "site" da Escola António Damásio inclui um dossier (em "Memórias"), dir-se-ia feito para aliviar alguma má consciência, contendo duas entradas, encabeçadas pela afirmação "preservamos a memória do passado, que pode ser (re)visto aqui:
    Escola Secundária Professor Herculano de Carvalho
    Escola Secundária Vitorino Nemésio:
    Site mais recente
    Site mais antigo"
    Este "site mais antigo" (o único que abre) mostra-nos fotos várias da antiga Escola Secundária Vitorino Nemésio e dos seus frequentadores e apresenta-nos uma citação do próprio Vitorino Nemésio: "Eu me construo e ergo, peça a peça de saudade, vagar e reflexão."
    Sábio Vitorino, tão poucos hoje se constroem e erguem do mesmo modo !


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  4. Este efémero não sopesado, entristece. É que o afã de pressas e desvalor impede elimina a construção à Vitorino. Que é tão só a lição do tempo em nós, vagar, saudade, reflexão. E quem seremos quando recusamos fazer-nos, a abraçar o "tudo feito".

    Tristeza desalentada, a de haver parecença de homem.

    Verdade, muitos jovens não saberão quem é António Damásio. Esperemos que essa escola o diga aos alunos.
    Um dos poucos patronos vivos, foi um dia à escola onde é patrono; quando entrava, perguntou a um garoto de 7º ano, "sabes quem eu sou?" e ele "há uma fotografia sua na biblioteca".
    A escola foi-se cindindo em gavetinhas pequenas e, em muitos casos, se fez ninho. Não ampliou com boa lente.

    Porém, é de artista trabalhar em e com tal matéria prima.

    Sem pensarmos nisso, concordávamos com Camões ao falar dos nossos maiores, os que "da lei da morte se foram libertando". E menos pensámos que a eternidade/qualidade conquistada a golpes de vontade e esforço - mesmo que a gosto, é esforço - fosse substituída por outra em tudo mais fashion. Os nossos maiores não se substituem uns pelos outros, somam-se. Tal espírito de renovação prêt-à-porter, amarfanha.

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    Respostas
    1. Muito bem escrito, Beatriz Santos.

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    2. Mas haverá alguém na escola capaz de explicar aos alunos que foi Vitorino Nemésio...saberá algum dos professores quem foi Vitorino Nemésio?
      Oh meus amigos relembro-vos que estamos no país da CASA DOS SEGREDOS com a escritora MISTER ED (o cavalo que fala)...

      Mas atenção que esta CASA DOS SEGREDOS não existe só em Portugal é certamente algo à escala universal, portanto, estamos conversados...

      Se houvesse alguém com tomates neste país não teria já posto uma bomba na casa citada??? então não é o MISTER ED uma figura "brilhante" da incultura portuguesa? Quando falo nesta casa e neste cavalo que fala tenho de ir a correr prá casa de banha a vomitar (é verdade, não estou a "mangar")!!!



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    3. Acredito que haja (alguém na escola que...). Não ajudemos também nós a apequenar os professores que tão desconsiderados são (não sou professor) todos os dias. Estou certo que não foi esse o seu propósito e que apenas se deixou ir com a "tristeza desalentada", mas bem escrita, que por aqui correu hoje. As coisas vão mal, é um facto, mas não sei se adiantará estarmos sempre a coçar na ferida.

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    4. Concordo com o que dizes, em absoluto, com esse "fenómeno paranormal" não será antes paraanormais " que dá pelo nome de casa dos segredos. Repelente!!!!

      Mas atenção, com o devido respeito pelo Vitorino Nemésio e pelo seu programa, também é verdade que aos domingos quando chegava a hora do "Se bem me lembro" os cafés (na altura eram poucas as pessoas que tinham Tv ) ficavam vazios, raspeja-te que aí vem ele. Pareciam ratos a abandonar o navio.

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  5. Existe uma escola Vitorino Nemésio na ilha Terceira, nos Açores. Percebo o que estará por trás da escolha de um novo nome: a necessidade de não ferir sucetibilidades ao escolher um dos antigos.

    E não será de enaltercer a coragem de homenagear um vivo, quando parece que as honras se guardam para os dias a seguir à morte?

    Há «reis» mortos que continuam a reinar e muito. Temos o Camões e o Pessoa que, não estando entre nós, permanecem.

    E depois há um fenómeno conhecido: o do aumento das vendas logo após a morte e creio que também junto às comemorações de aniversários de nascimento e morte.

    O Mau Tempo no Canal faz parte do Plano Nacional de Leitura, para o secundário (leitura autónoma).
    Se os professores o conhecem e o aconselham já é outra história.

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  6. Com saudade recupero, das muitas saborosas palavras de Vitorino Nemésio, este seu auto-retrato:

    «Sou como a macieira carregada:
    De palavras a mais cobri o chão.»

    (são dois versos do seu poema “Já um pouco de vento se demora”)

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  7. Isto não interessa para nada. Não vejo qual o interesse de chamar ás escolas Saramago, Miguéis, Nemésio. É como as ruas. Um absurdo. Quem sabe das pessoas de que escrevo o nome do meu domicilio fiscal. Números, tudo números, flores, árvores, natureza. Pessoas, ná Sejamos práticos e realistas. Nada fica. Tudo muda. Avenida Cavaco Silva, Mário Soares, Octávio Pato. Firmino Miguel. Esqueçam.

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  8. Obrigada, Sandra. Mas o post da Rosário, il m'a touché :).

    Desalento é um sentimento como outro, que nos assola um lado. Mas somos em alma o que as moscas são em olhos: multifacetados :) Não existe em Portugal um professor de seu nome que não sinta hoje esse assolar de desânimo. E, se ele o for, que há muitos e bons - conheço alguns - não lhe fará baixar braços. O professor trabalha com uma matéria tão plástica e rara que só quem o não é pode imaginar que tal sentimento o acompanhe para dentro de uma sala. Não é assim. António Gedeão dizia que ser professor é uma paixão fria, mas uma paixão. E eu que não sou poeta mas lhes admiro a clarividência, digo que ali tudo se esquece. Até a vida que se vive lá fora. Aulas são rituais. E os rituais existem sempre que se inscreve um tempo dentro do outro. Com tamanha força que, por comparação, ao primeiro falta densidade.
    É mais ou menos assim. Julgo.

    E concordo. São demasiado aviltados. E talvez a paixão fria fique comprometida quando muitos não possam vivê-la. Que do nada não se faz coisa nenhuma.

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  9. Há cerca de ano e meio, por ocasião do dia mundial do livro infantil, salvo erro, entrevistei a Luísa Ducla Soares. Disse-me uma coisa muito interessante a propósito de vivos-mortos no campo da literatura. Disse-me que não raro ia a escolas onde os miúdos pensavam que os escritores eram todos pessoas já desaparecidas. Portanto, assim uma coisa de museu. E agora, face ao cenário que se adivinha, como será? Pensarão as crianças de amanhã que os escritores eram uma espécie de dinossauros?

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