Estratégias
Um poeta meu conhecido, que organizava sessões em escolas secundárias com o intuito de interessar os jovens pela poesia, queixava-se há tempos de que a miudagem gosta cada vez menos do género. Calculo que as obras selecionadas (e, sobretudo, as não selecionadas) pelos programas de ensino tenham alguma coisa a ver com isso, mas é possível que, nestes tempos modernos, a forma de fazer chegar o texto aos alunos tenha de fazer uso de diferentes estratégias. Lembro-me dos filhos de uma amiga que estudaram no Liceu Francês e que, aos treze anos, já tinham «papado» Racine, Corneille e Molière sem dor; o professor distribuía os papéis aos alunos durante a aula – e a leitura transformava-se em representação teatral, substituindo-se os actores a cada nova lição. Os jovens divertiam-se e, sem esforço, liam os maiores dramaturgos franceses. Agora, no Reino Unido, o governo decidiu criar um concurso nacional de declamação de poesia, chamado Poetry by Heart, para alunos com mais de 10 anos. O «campeonato» pretende interessar os estudantes pelo texto poético, transformando a leitura e memorização de poesia numa espécie de desafio. Cada poema – de um total de 130 escritos maioritariamente a partir do fim da Primeira Guerra Mundial – vem acompanhado de uma biografia do respectivo autor e há um site de Internet que inclui uma longa lista de textos possíveis. Os alunos que conseguirem passar as eliminatórias regionais irão então a Londres, onde a final terá lugar, ganhando desde logo um fim-de-semana integralmente pago. Original, não?
Ora aqui está um tema em que me sinto à vontade para opinar... justamente porque não sou leitor de poesia, e nem apreciador do género!
ResponderEliminarGostei de ler a lírica de Camões, os sonetos e em particular d'os Lusíadas, porque tive um excelente professor no antigo 5º ano que me conseguiu transmitir (isto é maravilhoso, pá!) tudo o que ela continha.
Foi por isso que depois elegi a poesia de António Gedeão como uma paixão e me tem inspirado em tantos momentos e decisões da minha vida, como um guia. Creio que esta é o exemplo e exemplar!
António Gedeão não foi apenas um poeta... ele é um sábio, um iniciado nos mistérios (digo eu... terá sido um Rosa Cruz?), um cientista e químico que portanto domina a análise como a síntese, em qualquer vertente ou tema e nos transmite pela palavra esse saber e a sua observação das pessoas, das coisas, dos factos e das situações!
A sua poesia é feita do dia-a-dia das pessoas e a conseguimos ver e entender logo, pois nos surge a imagem do que ele está a põr em verso.
É uma poesia imediata e concreta, ao contrário da maioria! Penso assim que é o poeta ideal para iniciar alguém na leitura da poesia e para explicar o que ela pode ser, inclusive ensinar a gostar pois é fácil de interpretar e contém inúmeros exemplos:
- Lágrima é claríssimo na sua avaliação antiracista!
A Adolescente devia ser de leitura obrigatória...
O Poema da Malta das Naus é um manual da portugalidade intemporal!
Pedra Filosofal um manual da vida...
Calçada de Carriche um libelo à mulher e à vida das pessoas comuns...
Pequenos Deuses Tiranos uma lição actualíssima da política... enfim esgotava-me aqui com estas considerações, mas seu fosse professor e quisesse iniciar alunos à poesia, era por este autor que começava!!!! Até podendo apoiar-me nas belíssimas canções de Manuel Freire e da sua fantástica voz e interpretação.
Depois de Gedeão, surgem-nos então outras e novas capacidades para entender o iniciático Pessoa, ou o iniciado Shakespeare - sublimes mas mais herméticos, a pedir algum estofo - e digo-o desprovido de qualquer complexo de superioridade intelectual... logo eu a traça literária!
Saudações poéticas do Planalto Central!
Entendo, perfeitamente, a perspectiva do amigo António Luiz , todavia, há momentos e circunstâncias emocionais que só a poesia nos surge como expressão de sentidos e de sensibilidades. Não é trabalho fácil, mas árduo e prenhe de escolhos. Não sou poeta, porém gostaria de ser. Escreve-nos do Planalto (Angola). Foi aí que senti o clamor da poética de Viriato da Cruz, António Jacinto e Agostinho Neto. Eu sei que o António Luiz não embarcaria nessa epopeia (independência/MPLA), mas não faz mal, não tem importância: os grandes poetas estão acima destas coisinhas das politiquices - Tenho muitas saudades do Planalto, de Benguela. Lubango, Ngage , mas não daqueles tempos em que só a poesia daqueles poetas dava, então, sentido à vida. Abraço
EliminarBolas, António! Ficava cativado com a bonita explicação, se ela não fosse contraditada pela declaração inicial: "não sou leitor de poesia, e nem apreciador do género!". Ok, está no seu direito, mas como assim?!... O excelente professor do 5º ficava bem baralhado se o lesse agora :-).
EliminarMeu Caro e Extraordinário Paulo Oliveira: Aceito e assumo inteiramente ser uma deficiência minha, o não ser apreciador nem leitor de poesia!
EliminarJá sabe que não me presumo coisa nenhuma... e dizê-lo num site de literatura é tão pior quanto bater as palmas a um toiro a campo!
O meu professor conseguiu deveras fazer-me perceber, e logo gostar, de Camões... mas não teve tempo para mais. Gedeão descobri-o eu mesmo logo a seguir (e graças a Manuel Freire e ao Zip Zip). Depois com o tempo descobri Alberto Caeiro e Shakespeare... e foi um grande esforço, mas não tenho capacidade para mais!
Um abraço cá deste Planalto onde também se desenham poemas como ocorreu a Torga no episódio da perdiz, que aqui contei há dias.
Caríssimo Luis Peixeira, concordo com o que diz, e até sobre sobre a independência... eu também não gostaria de ser colonizado por ninguém!
Um abraço igualmente planáltico e africano, especial, para si!
são mesmo necessárias estratégias, para a poesia e para o teatro, que até poderão funcionar em comunhão.
ResponderEliminarmas serão sempre difíceis neste tempo.
a velocidade com que gira o mundo é inimiga das artes de contemplação e de silêncios.
pode é acontecer um fenómeno curioso, os jovens começaram a fugir desta "velocidade" e refugiarem-se em artes mais calmas, que cultivem o olhar, o pensar, o falar...
não é por acaso que cada vez falamos menos uns com os outros nas ruas.
Quando o Luís diz que a velocidade a que o mundo gira é inimiga de contemplações e silêncios -naturalmente referindo-se aos tempos que correm - vem a seguir afirmar que falamos menos uns com os outrros nas ruas. Logo, pelo silogismo implícito, o mundo (actual) não é inimigo dos silêncios.
EliminarÉ, é (inimigo dos silêncios) e o Luis Eme tem razão. Mesmo com todos calados há um ruído de fundo que sufoca.
Eliminara rua tem muito mais vozes que as nossas.
Eliminaros carros então oferecem-nos grandes sinfonias de sonoridades. :)
o jocamartinho sabe que o silêncio da poesia é outra coisa...)
Certo, certíssimo, Luís. O silêncio da poesia é interior e só nós (cada um de nós) o podemos sentir, porque a única voz é a própria poesia. Benditos os poetas que nos conseguem elevar a este estádio.
EliminarPor que será que tenho a desagradável sensação de que a arte da poesia e do teatro precisa ser "impingida" , "paga" e "premiada" para ser aceite?
ResponderEliminarSe a miudagem gosta cada vez menos dos géneros, não acredito que algumas proipostas circunstanciais e superficiais consigam os objectivos
pretendidos. Os jovens têm as suas escolhas, os seus gostos e os seus paladares, como nós (os que já foram jovens) tivemos.
Não sou fatalista, mas o tempo é propício a ser "composto de mudanças" e os autores ou as acompanham ou escrevem para a família e os amigos e, se tiverem algum anjo custódio numa editora, para um canto do armazém onde repousam as sobras à espera da reciclagem.
Já aprendi a escrever só para mim, depois da tentativa do armazém e das sobras, mas sem anjos custódios. E reparo - com alguma mágoa - que há editoras que resistem com meia dúza de títulos extraordinários (e muito ordinários no sentido abjecto do termo) de grandes vendas, para suportarem outras obras de qualidade, que penam nos escaparates implorando a sua compra, à guisa das viatiuras que estacionam nas ruas com o letreiro : procuro um novo dono.
Aproveito o ensejo para dizer o seguinte:
li, reli e já tinha lido antes parte da poesia reunida da Maria do Rosário e faço tenção de voltar a fazê-lo. É um deleite e prazer que não abdico e recomendo a jovens e menos jovens.
Julgo que, em vez de se propor "à força" obras de poesia aos jovens, devem ser editadas obras de qualidade - como a referida e outras que também há - para que elas sejam o incentivo, antes da distribuição a granel dos tais prémios (que incentivam osapenas os ganhadores e desiludem os restantes), pormenores curriculares de liceus (que poderão entendiar e obter efeitos contrários ao pretendido), iniciativas de cordel ou choradinhos.
Estou aqui corada com o seu elogio. Obrigada!
EliminarQue bela sugestão para as Escolas Portuguesas !
ResponderEliminarO triste é que as gerações mais velhas tinham essa tradição que foi entretanto perdida.
Para dar um exemplo: o senhor Pinto da Costa (homem que está longe de ser por mim apreciado), de quando em vez, extasia as suas audiências mais esmeradas com a declamação de poesias que aprendeu no colégio interno (à inglesa) onde fez a sua formação juvenil.
E todos se impressionam com a memória imensa que ele alardeia quando nada de extraordinário devia ser: sabe-se que a poesia que se decora na juventude fica gravada para sempre e é, na adolescência, um belíssimo exercício de melhoria das capacidades gerais de memorização.
O meu avô, homem que nasceu no século dezanove e combateu na Flandres e que só tinha a instrução primária, declamava em alguns jantares de família várias poesias, entre as quais "A Cabra, o Carneiro e o Cevado" do João de Deus que abaixo transcrevo.
Uma vez
Uma cabra, um carneiro e um cevado
Iam numa carroça todos três,
Caminho do mercado...
Não iam passear, é manifesto;
Mas vamos nós ao resto.
Ia o cevado numa gritaria,
Que a cabra e o carneiro
Não podendo na sua boa fé
Acertar com a causa do berreiro,
Diziam lá consigo:
Que mania!
Cá este nosso amigo
E companheiro
Por força gosta mais de andar a pé!...
o caso é
que o cevado gritou tanto
ou tão pouco
que o carroceiro
perde a cabeça
vai como louco
saca o foeiro
e diz:
homessa !
eu inferneiras tais não as aturo
ouvir berrar há tanto tempo é duro
o senhor não vê que esta não chora
nem ao menos
as lágrimas lhe saltam
o que é tão natural
numa senhora
goelas não lhe faltam
e de ferro
o ponto é que ela as abra
mas é cabra;
teve outra criação
não dá alguma sem alguma razão
e julga que este cavalheiro é mudo?
tem propósito é sério é sisudo!
às vezes, dá um berro que estremece tudo
mas é só quando é preciso
tem juízo
miolo!
miolo... exclama o outro!
pobre tolo!
ele supõe que o levam à tosquia
e por isso nem pia!
e esta, pensa que vai de carro ao tarro
vazar a teta
pobre pateta
mas porcos não se ordenham
cevados não se ordenham
nem tosquiam
demais sei eu
demais sei eu
o fim com que se criam
por isso grito e gritarei
do fundo da minha alma
até à morte
aqui d'el-rei aqui d'el-rei
gritava como um homem muita gente
não discorre com tanta discrição
infelizmente
quando o mal é fatal
a lamuria que vale
que vale a prevenção
mais vale ser insensato
que prudente
o insensato
ao menos
menos sente
não vê um palmo adiante do nariz
vê o presente!
está contente!
é mais feliz!!
Então e cá o que é que se faz para interessar os jovens pela poesia??
ResponderEliminarParece-me que muito, muito pouco...
Cláudia Moreira
O que se faz? Tentar convencê-los... como a comer espinafres e agrião... não resulta!
EliminarPrémios? Pior... é comprar e não adquirir...
Volto a falar daquilo que conheço - eu - o que é preciso é mostrar-lhes a poesia, e para que serve!
Para deleite? É discutível e não é por aí... acho eu.
Mas se a perceberem e fizerem as ligações ao seu dia-a-dia e à realidade, ao Mundo... ganharemos não poetas (não é o que interessa) mas leitores!
concordo com o extraordinário Pacheco.
EliminarHá tantas coisas bonitas para partilhar...para ler...para dizer em forma de poesia...
EliminarHá tanto por fazer... nas escolas, em casa, nas redes sociais... tanto que se poderia aproveitar para dar a conhecer poetas e poesias:)
Bem verdade...o que será que se faz para interessar os jovens pela poesia?!
ResponderEliminarTalvez começar por ser um professor, um pai, um amigo que goste dela. Com AMOR. Sem imposição, portanto. A poesia vive da sugestão e por ela tem de começar. O resto há-de surgir, quase por geração espontânea. Mesmo que, na escola, sejam concursos, textos, e até testes. Se fores um bom amigo e emprestares poesia, o teu amigo lê nem que seja por amor a ti, ficará assim a saber-te melhor. Como pai ou mãe começas talvez por seres apoiante de outros, que em casa quase nunca os milagres são teus :) Mais tarde sim, podes partilhar e sugerir poemas, livros, filmes.
Não a ensinemos. Poemas são de dar a ver. Que eles têm olhos atentos e selectivos. Não serão todos. Mas são ainda bastantes. Eles mesmos, por vezes, incandescentes poetas...e, na sua maioria, passam por nós a arder sem que lhes vislumbremos a chama. Tanto deixamos escapar dos outros. Tanto.
Aos professores basta talvez uma frase escolhida e escrita no quadro para início de conversa. Ou, como acima, uma canção ouvida em respeito. Depois, a estratégia da raposa com o principezinho: uma vez, diz-se qualquer coisa do poeta, mais tarde, o poema de onde se tirou o verso...e assim é a sedução :). Temporal. E é tão mas tão bonita que se os professores soubessem, a escolhiam sempre. Que os conteúdos se cumprem melhor com bocadinhos de poesia a misturar.
A escola pode matar o poema se o cinge a exercício disciplinar. É preciso não lhe vestir o espartilho, para que continue respirando. O amor só existe quando o outro deixa de o ser para nós. Igual na poesia. Para ser desejada é preciso senti-la como parte nossa, sem essa identidade, é-nos asséptica. Pessoa tinha e não tinha razão "sentir sinta quem lê".
E depois, o que eles trazem da poesia deles e de poetas e poemas que não conhecias...acrescenta.
Tenho pena de quem vive a vida sem ela. Muita pena. É que não sei como aguentam.
Que lindo, Beatriz!
EliminarBelíssimo texto, tanta de razão quanto de coração!
EliminarPermita-me citá-la:
" Aos professores basta talvez uma frase escolhida e escrita no quadro para início de conversa. "
Acredito que aí estará a diferença e o princípio... foi justamente assim que consegui descobrir e apaixonar-me pela muitíssimo pouca poesia de que gosto. E, frases ou pensamentos desses, em A. Gedão há tantas e para tantas conversas...
Beatriz
EliminarDisse tudo.
Isabel
Tenho um filho de nove anos no 4.º ano de escolaridade, que adora inventar rimas, e sei que foi na escola que o descobriu. Já o mais novo, de quase cinco, ainda não percebeu muito bem como é que a «coisa» funciona, pois quase todos os dias me pergunta se isto rima com aquilo e nem sempre bate certo. Já lemos uns versos juntos. Até já fizemos uns versos juntos. Mas há um não sei quê que a escola tem (quando tem) que os desperta de outro modo para aspetos que eles até já conheciam. Terá a ver com o efeito de grupo, com o ser «oficial»? Com as estratégias pedagógicas?
ResponderEliminarAcredito que estes concursos têm um efeito positivo, sim, mas não chega, claro.
Até vai havendo qualquer coisa nesse sentido:
http://pnlblogue.blogspot.pt/p/poema-da-semana-jovens-poetas.html
Não resisto a partilhar o que me veio logo à cabeça quando li o que era o prémio: se fosse em Portugal, não acredito que o prémio pudesse ser uma viagem a Lisboa, pois parece que Portugal é cada vez mais Lisboa e o resto paisagem (não é esta a minha opinião, note-se).
Enganei-me no link: http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/Concursos/index.php?s=concursos&tipo=1&concurso=45
EliminarAcho uma ideia genial .. foi a escola que me trouxe a poesia , ate comecei a escrever na adolescência mas não tinha amigos da minha idade que gostassem então precisei de encontrar as pessoas certas já adulta pra que a poesia voltasse com força pra minha vida. Hoje digo poesia sempre que posso e tento com as sessões que organizo que a poesia chegue a pessoas as quais doutra forma não chegaria ..é importante.
ResponderEliminarUma proposta: libertar os professores de Português de planos e relatórios e discutir nas reuniões de grupo o Diário de Sebastião da Gama, poeta e professor de Português.
ResponderEliminarImpossível, infelizmente.
Obrigada, Anabela. Enquanto leitores, e é essa a minha perspectiva, a poesia acontece-nos. Nem sempre cedo. Só aos 24 ou 25 a descobri.Apesar de todos os textos que estudei em verso. Aquilo que se vive e mostra num poema depende do encontro com a base emocional de quem lê. Que a poesia escolhe-nos, faz-nos seus leitores. Há nela um interior simples e fácil que encontras. Ou não. E não é dela que depende. Creio na verdade poética. Com muita força.
ResponderEliminarJá vi crescer miúdos dentro da poesia. Começaram em rimas singelas e aos dezoito eram espectaculares... quem sabe o que tens em casa :). E depois há os que apenas gostam. Ajudá-los a vivê-la é dever nosso. Não podemos nem queremos ser todos poetas
A quem diz que a arte do teatro precisa ser impingida nas escolas, garanto que não. A educação pela arte, seja teatro ou música, ou, é uma necessidade incompreendida. E assim vai permanecer. Porque se recusa o que tanto nos falta?!
ResponderEliminarPorque temos medo de nos mostrar. porque é mais fácil ser de papeis e livros apenas - é um bom refúgio - porque os exames, porque os governos, porque as escolas. Porque.
Mas se estiveres disposto e entrares a sério. Podes até não saber nada do assunto. Mesmo que a escola contra ti, mesmo que os conteúdos, mesmo que as explicações e a falta de tempo, os alunos não só vão como levam tudo à frente.
E nada é tanto tempo como esse breve de existirmos todos juntos.
a vida foi boa comigo :)
Dizes que a poesia não existe;
ResponderEliminarQue é um espécime moribundo
Extinguido em vida,
Uma heresia,
Um cartapácio de palavras,
Sem cheiro, nem paladar,
Um animal no deserto,
Um dromedário sem bossas,
Uma ilusão fingida,
Uma miragem.
Dizes que a poesia não te toca!
Que só a vida
Te belisca e apalpa,
Que só a dureza das pedras,
A alegria dos amigos
E as lágrimas
Palpáveis e líquidas
Te importam.
Dizes isso,
Porque ainda não sabes
Que a tua vida
Há-de mudar um dia
Para um outro patamar,
Mais Gasoso,
Mas muito mais sólido,
Por certo.
Pelos momentos extraordinários que todos vós me proporcionam, deixo-vos, com apreço, estes meus rabiscos:
ResponderEliminarPoeta
Vens de longe, poeta,
passeias sobre areias transparentes
e sem rumo e sem meta
maldizes e não consentes
o viver senão p’ra amar
a vida-arte de poderes fazer
da imerecida dor que em ti quer ficar
o contorno da mulher-palavra a resplandecer;
vens de longe, menestrel,
das noites inquietas junto ao mar,
onde esculpiste com imaginário cinzel
teus sonhos ainda por sonhar;
cantas o oceano de rebeldia que te invade
e dá-te forma de onda alta e resistente
que se espraia clamando a liberdade
da palavra-gesto mordaz e irreverente;
é teu pranto silencioso e incolor
em fio de lágrimas magoado e triste
se sentes que à criança lhe quer fugir o amor
e a esperança de tê-lo também não mais existe.
Vai, escreve o teu caminho e diz
que a tua palavra-alma é leve e não desiste
de cantar que ser poeta é ser livre e ser feliz.
(30julho2003)
gb
Hum… meu caro vate anónimo, vai-me perdoar a ousadia a alguma maldade inconsciente, pois que não pretendo castrá-lo e muito menos atingir-lhe a sensibilidade e a veia, mas este seu verso traduz justamente aquilo porque não gosto de poesia de modo geral!
EliminarReafirmo uma vez mais a minha absoluta desqualificação e a mais negra das ignorâncias, mas todavia penso e sinto… e se até me parece um poema (a mim que não sou leitor de poesia), permita-me tentar esclarecer consigo aquilo que de menos compreensível lhe encontro:
passeias sobre areias transparentes – que imagem é esta? Areia transparente? Por muito que a poesia permita devaneios, este parece-me algo excessivo… É para rimar com consentes? Então e que tal usar a palavra “quentes”, o que serve ao desconforto que parece ser o que exprime!
a vida-arte de poderes fazer - vida-arte o que significa?
o contorno da mulher-palavra a resplandecer; - mulher-palavra? Não percebo onde se encaixa…
e dá-te forma de onda alta e resistente – “Dás-lhe” , não fazia mais sentido…
é teu pranto silencioso e incolor - “pranto incolor” ? Porque não antes “pranto de dor”?
se sentes que à criança lhe quer fugir o amor – Porquê à criança? Não seria melhor em vez de à “criança lhe”, dizer apenas “te”
Claro qu enão sou poeta, nem homem de letras, mas espero ter sido constructivo na minha análise e na crítica.
Perdoe-me e não me entenda mal. Está até autorizada a zurzir-me e chamar coisas más!
(Presumo seja a mulher-palavra)
Caríssimo,
EliminarNão o achei ousado e, portanto, não cabe aqui pedido de desculpa nem perdão a ser concedido. Ousado seria - já que diz que não tem competência para tanto - se se pusesse aqui a dissecar e a analisar obra ou poema de alguém que poeta é, ou foi. Não é o caso, obviamente. Teria, por acaso, o prezado habitante do Planalto Central, levado em consideração a palavra "rabiscos" por mim usada no início da mensagem? Pois, então, rabiscos são rabiscos e de rabiscos não passam, nem passarão.
Mil perdões se feri a sua sensibilidade ao ler tão medíocres letras. As coisas más já as disse, ou escrevi, mesmo sem prévia autorização (lol).
Meus sinceros agradecimentos por seu comentário.
Obrigado pela bondade da sua resposta e não me levar a mal!
EliminarAcredite que (e passe a rudeza de dizer que é por isso que não sou apreciador de poesia, por falta de capacidade de a entender) as observações que faço, são sinceramente bem intencionadas, pois entendi perfeitamente o que referiu como sendo
"rabiscos", daí o atrevimento em a interpelar e
até dar opinião.
Tenho muitos e enormes defeitos, mas esforço-me por não ser hipócrita...
Saudações do Planalto Central
E por quem é... continue a rabiscar, sim... rabisque e exprima-se como entender e lhe der prazer!
EliminarAfinal o meu gosto será que continue a rabiscar!
Não ligue ao que digo...
Todas as coisas são legítimas para não deixar morrer a poesia e ela não viverá se não a lermos e dermos a ler. Também não sou grande adpeta de concursos mas também não vejo qual é o mal se produzir resultados. Lembro-me que uma vez a minha filha teve que me perguntar por indicação da professora qual era o meu livro preferido e eu indiquei um de poesia, fui mesmo a única dos pais a fazê-lo. Uns dias depois encontrei-o não na minha mesa de cabeceira mas na dela.
ResponderEliminar~CC~
Isto não tem nada a ver com o post... muitos parabéns, MRP, pelo Prémio Literário Inês de Castro.
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