O livro do Lopes

Lopes foi, curiosamente, um dos apelidos usados por Ricardo Araújo Pereira para uma das suas figuras (o Lopes da Silva, lembram-se?), e é de novo um humorista, Luís Afonso (o autor de Bartoon), quem o vai buscar para nomear um "escritor pós-moderno" que, antes mesmo de publicar o livro que escreveu, chama um realizador para o adaptar ao cinema, esperando, afinal, que o filme acabe por fazer vender o livro e ambos lucrem com isso. O objecto é singular: chama-se O Comboio das Cinco e tem na sobrecapa um círculo recortado que deixa ver um relógio marcando as 12:10, o mesmo que, na capa, pertence à fotografia de uma estação ferroviária na qual um passageiro (o actor e diseur Pedro Lamares) aguarda, entediado, um comboio. Lá dentro está a história escrita pelo tal Lopes, propositadamente desconexa e desengraçada (o escritor pós-moderno não é especialmente dotado), entremeada com cartoons que reproduzem a conversa sobre a adaptação cinematográfica entre Lopes e o realizador, este bastante mais lúcido e naturalmente desconfiado em relação ao sucesso do empreendimento. O enredo envolve um casal desavindo, sempre às turras, que espera um comboio que talvez não venha (ele professor universitário, ela jornalista), mas o mais original é que Lopes assinala várias passagens do texto, identificando-as como de qualidade literária, de crítica social, de profundidade, de superioridade intelectual do narrador ou simplesmente como lugares-comuns. Não nego que prefiro o Luís Afonso das tiras diárias no jornal Público, mas vale a pena espreitar este livrinho que se lê em duas horas, nem que seja para reflectir no papel do escritor nos dias que correm.

Comentários

  1. Não tenho numa revista "Grande Reportagem" aqui à mão, mas julgo que o personagem Lopes "escritor pós-moderno" é bem anterior ao Ricardo Araújo Pereira (este ainda devia andar na escola). O Luís Afonso tinha esse cartoon na "Grande Reprtagem" desde os inícios dos anos 90. Acho.

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    1. Ai, claro, mas eu não estava a falar de precedências, acredite. Foi só pela coincidência que referi o assunto - e tenho uma grande admiração por Luís Afonso há muito tempo.

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    2. Ok, compreendo, mas podia dar-se o caso de algum leitor mais novo, ou mais distraído, pensar o contrário. E agora passo a palavra ao Luís Afonso:
      "Esta personagem foi criada no final dos anos 80, para uma tira que iria sair no “Jornal de Letras” e por isso é que ele é um escritor pós-moderno. Mas essa tira acabou por nunca sair no “Jornal de Letras” e ficou na gaveta. Depois, em 1991, acabou por sair na “Grande Reportagem”, na altura trimestral, ainda escritor pós-moderno."
      Daqui: http://da.ambaal.pt/noticias/?id=2511

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  2. Importante, importante, é reconhecer-se que o escritor possui uma função da máxima importância na sociedade em que se move. A do seu tempo. A que lhe é contemporânea. Uma vez esta verdade assumida, a escrita assume uma dimensão de relevância social que, caso esteja ausente de quanto se publica, empobrece e desampara o nível cultural de toda uma geração.

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  3. Se eu fosse o Luís Afonso, em vez do Lopes tinha escolhido o Lemos para meu ficcionado escritor pós-moderno. Teria maior ressonância...

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  4. O último livro que li que metia um comboio (ou melhor uma viagem de comboio) chamava-se Nachtzug nach Lissabon (Comboio nocturno para Lisboa, acho) e, não sei porquê, há qualquer coisa que me irrita nos livros com títulos que metem comboios. Puro preconceito, lá está. Ou isso ou porque os comboios me enfadam. É tão triste quando julgamos um livro pela capa...

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    1. Blonde, permita-me uma recomendação com comboios no título: "O homem que via passar os comboios", Georges Simenon. Acho que vai gostar.

      (eu hoje estou muito comentadeiro, não sei o que se passa)

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    2. grande sugestão, caro MCS!

      PLFF

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    3. Ou os do Paul Theroux. Sem grandes ideias, nada de muito complexo, mas muito bem escritos. São puro prazer.

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