Dupla alegria
É já neste fim-de-semana que a maioria das livrarias começarão a expor e vender o primeiro romance que lanço este ano. Para dizer a verdade, começo bem – não só porque o faço com um dos meus autores mais fiéis (publiquei toda a obra de João Tordo desde que se estreou), mas porque O Ano Sabático, assim se chama o livro, é – tenho a certeza – um dos melhores do escritor. E, por se tratar de uma história de gémeos, a alegria é, ainda por cima, dupla! Por um lado, teremos Hugo, um contrabaixista alcoolizado que abandona o Canadá para fugir às dívidas, regressando a uma pátria onde deixou a família e reside agora a esperança de se poder tornar alguém, antes que seja tarde de mais. Por outro, Luís, um pianista de sucesso que, depois de um encontro perturbador, trocará Lisboa por Montreal em busca de uma vida que não é a sua. Pelo meio, um tema musical que existe apenas na cabeça de ambos, nunca escrito na pauta, e bem assim um sonho de um que é concretizado no outro, uma rapariga que sara as feridas dos instrumentos musicais e conhece ambos, uma mãe implacável, uma irmã conciliadora, uma criança com muita graça. E grandes surpresas, página a página, multiplicadas por dois. Ou três. Identidade e Fraternidade. Não vai dar para não ler.
Boa! Alegre-se então porque este vai já para a minha lista dos que hei-de trazer lá para o Verão!
ResponderEliminarPelo que conta... há-de ser coisa a meu gosto!
Ontem à noite em cavaqueira aqui com o nosso africanamente malandro e ajudante de mecânico "mano" Jamba, e o veterano dr. Sampaio, um veterinário à antiga, quando se aprendem coisas, soube que ele tem um irmão gémeo. Quando nascem gémeos, um chama-se Jamba (elefante) e o outro Gueve ou Ungueve (hipopótamo)...
O Jamba por ser muito baixote (cambuta) eu digo que é antes "Cambulú" (elefante pequeno), sendo um valentíssimo mariola eu chamo-lhe bandido, e ele diz logo: "Nada! Eu, sou da Igreja!").
As suas histórias dariam para escrever um livro com uma largueza impublicável... mas melhor seria filmá-lo a contá-las, pois a forma como se exprime e interpreta o que está a contar são dignos de Kusturica...
Felicidades para o novo livro de João Tordo!
Sou uma pessoa contemplativa e muito sensível à palavra. Confesso, por isso, que gosto mais do que costumo chamar de escrita verdadeiramente literária, assente na palavra (o que os americanos chamam de word-driven mas que, muitas vezes, também privilegia o enredo) do que a escrita que vive quase apenas do enredo (plot-driven), onde encaixo as obras de João Tordo.
ResponderEliminarExemplos da primeira, de mais velhos para mais novos: Marguerite Yourcenar, Virgílio Ferreira, Gabriel García Márquez, Milan Kundera, Mário de Carvalho, Mia Couto, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Luís Caminha, etc., etc., etc.
E da segunda? A maior parte dos escritores actuais, influenciados pelo grosso da ficção americana e pelos cursos de escrita criativa, que são todos iguais e que rebentam como cogumelos. Também que se podia esperar? Tanta quantidade não podia ser sempre acompanhada de qualidade.
Bom dia e grato pelo excelente comentário que me ensinou algo que não sabia, e já me fez ganhar o dia (passe a cacofonia)!
EliminarTodavia, (caramba! tanto ia...) devo dizer que tanto gosto de obras "pelo enredo", como delas pela palavra escrita... uma obra só de floreados parece-me algo vã, e uma só de enredo afigura-se-me assim como uma coisa seca...
Saudações Apícolas do Palnalto Central
Concordo e subscrevo.
Eliminargosto muito da escrita do João.
ResponderEliminarpara mim é quem escreve melhor da nova geração de escritores.
embora na minha opinião a temática escolhida deixe sempre muito a desejar. ainda não escreveu o que eu chamo uma grande história.
assim como não percebo que escreva quase sempre histórias passadas noutros países.
talvez ele pescreva a pensar na internacionalizão...
(escreva a pensar na internacionalização... esta pressa)
EliminarLapalisse diria que só se é escritor, escrevendo. No meu mundo de escalas, não há lugar para o absoluto. Tudo é demasiado relativo, o absoluto mora num lugar improvável que possivelmente só conheceremos em morte. Dificilmente digo que «não gosto», facilmente extraio alguma beleza da fealdade de que dizem existir e de tudo o resto que nos rodeia. Li quase todos os livros do João por ordem temporal: a sua maturação não passou despercebida. Noto, de obra em obra publicada, uma ligeireza e harmonia cada vez maior. É essa harmonia que faz o escritor. Uma harmonia conquistada, aprendida e apreendida todos os dias. Só se é escritor, escrevendo; e escrevendo muito, seja-se publicado ou não publicado, animal de raça ou rafeiro. O nosso olhar vai-se tornando cada vez mais arguto, as palavras jorram cada vez mais escorreitas, a trama é um lugar cada vez mais sólido e coeso. Na nossa cabeça a consolidação do processo vai-se harmonizando, o objectivo final, totalmente não alcançável, infinito, funciona por incremento, por aproximação infinitesimal – nada de muito original, aliás, como em toda a aprendizagem. João Tordo, na minha relativa avaliação, é mais enredo e menos poesia; é mais «estória» e menos espontâneo; é mais escrita de ardil, ardilosa no sentido de um escritor de arrumação de conteúdos, com um padrão visível de escola. João é um profissional, um operário em construção, que constrói a casa não pelo topo, mas pela base. E seja pelo topo, ou pela base, a construção de uma «estória bela» só tem de resistir como na história das três casas, «como poderia ter sido nas três vidas», ao sopro do «lobo»: seja ela de palha, de adube ou de tijolo, o que interessa é a sua beleza harmónica interior e exterior.
ResponderEliminarEu, ultimamente, vou-me limitando a subscrever comentários. Concordo, Pedro. Muito bem. :-) Claro que, na medida em que se mostra possível compatibilizar e harmonizar as duas vertentes...teremos um escritor mais completo.
EliminarCaro Pedro. Muito bem esgalhado, como dizia o outro :). Mas acho que há autores, aliás como refere logo no princípio, que escapam a esta dicotomia. Todas as obras de Gabriel García Márquez, por exemplo, são puro enredo e pura poesia. Creio que se passa o mesmo com alguns livros dos autores citados pela Bruna. Por exemplo o "A Decadência dos Olfactos", de Luís Caminha, também privilegia as duas facetas e vê-se que foi construído do topo, apesar da escrita extremamente poética. E o que dizer de "As Memórias de Adriano" de Yourcenar? Construído do topo, também: aliás, ela carpinteirou o livro ao longo de 17 anos! E a escrita é maravilhosa.
EliminarEstou em crer que os maiores escritores são os que aliam as duas facetas.
onde pus 'topo' leia-se 'base', para ser congruente com o comentário do Pedro.
EliminarTunga! Outro... e vão dois!
EliminarVale mesmo a pena vir aqui e ler gente desta!
Saudações Extraordinárias desde o Planalto Central!
Caro Manuel e Sandra
EliminarConcordo em absoluto. O homem tem aliás essa capacidade inata de dizer as mesmas coisas por formas diferentes, muitas vezes encontrando dissemelhanças, onde só há regularidades. Repare como, em menos tempo que o diabo esfrega um olho, mesmo quem disfarça relativizando o absoluto, se apercebe como somos animais contraditórios. Assim tenho de me reparar: concordo, em relativo! «Sem dúvida» ou deveria dizer peremptoriamente «com dúvida?»
O grande escritor é uma espécie de aprendiz de cálculo combinatório que combina o enredo - e que melhor enredo do que a nossa vida? - com a poesia, como fruto da harmonia. Toda a vida, aliás, parece jogar nessa combinação: não há vida sem enredo e não à vida – alegria -, só há tristeza, onde não há «poesia».
E, para tornar mais complexa a equação, há muitos tipos de escrita: a formal, a informal, a criativa, mesmo que no fim só haja um tipo de escrita: a que nos encanta, a que alguns chamam para si de boa; a que encanta pessoas, como a nossa hospedeira, que pela sua carga extraordinária de leituras – tem uma sensibilidade particular para a sua leveza e beleza melódica associada! Mesmo com a relatividade – menos acentuada do que o comum dos mortais na percepção das notas. Afinal, a literatura parece aproximar-se da música.
É, curiosamente, quando a extraímos da grande pauta que sempre foram os livros, de que nos apercebemos serem as letras decifradas alfabetizadas, na nossa boca, belas peças de notas melódicas. É talvez por tudo isto, que cada vez seja mais difícil a afirmação de um escritor. A música inunda o espectro físico por todo o lado. À combinação de notas já parece faltar a dissemelhança. Pelo menos a sua componente narrativa, à medida que somos inundados de narrativas de vida. E sem dissemelhança soçobra a alegria da descoberta e do novo. Restará a poesia? Uma resposta à medida das «três vidas» do Tordo, do equilibrismo que temos de colocar na corda, e de um milhão de combinações de notas. Façam, por favor, o vosso jogo!
«caros»... e «não há vida!»
EliminarPedro: os ses comentários são pura poesia. E poesia substancial, ainda por cima! Continue! Bom fim de semana a todos. :-)
Eliminarseus
EliminarMas sou um bocadinho ao contrário da Bruna: prefiro uma escrita com conteúdo e menos preocupações de forma, do que uma escrita muito poetizada...e pouco significante! :-)
ResponderEliminarAcho que a Bruna não diz isso, Sandra... Ela dá a entender que as duas facetas são importantes. Basta olhar para os autores que ela refere.
EliminarBom, pareceu-me que a Bruna, ao contrário de todos os outros, não disse que as duas facetas eram importantes. É a primeira até a catalogar os autores segundo uma dicotomia marcada: por um lado estão os que privilegiam a "palavra" e por outro os outros para os quais o enredo é o mais importante. A Bruna confessa que é do primeiro grupo que mais aprecia.
EliminarMas é precisamente porque marcou bem essa diferença de "estilos", colocando o João Tordo no segundo grupo, que discordo inteiramente dela. Na minha opinão, a palavra e o enredo estão presentes na sua obra, e é por isso que gosto dele.
Também percebi assim. E, apesar de entender que os grandes escritores são aqueles que possuem as duas facetas (e não é fácil dispor de ambas), continuo a preferir, tendencialmente, os que conseguem transmitir, através da palavra, conteúdos ou matérias relevantes.
EliminarSim, mas convenhamos, poesia na escrita de João Tordo? Não. Os que a Bruna citou, sim, têm conteúdo na poesia. Isto não é uma crítica, há muitos, se calhar a maioria, leitores que detestam poesia e que se revêem mais em João Tordo do que nos autores elencados pela Bruna. Mas o seu a seu dono, em João Tordo não há um trabalho da palavra como naqueles autores.
EliminarE a Bruna não foi dicotómica, basta ler os seus parênteses e os seus exemplos.
Além do mais, ela nunca fala de CONTEÚDO, fala de ENREDO. Milan Kundera é um grande escritor, para mim o maior de todos na medida em que me faz vibrar como nenhum outro, e não previligia o ENREDO. E se tem CONTEÚDO, meu Deus (este meu Deus deve ser apenas entendido como interjeição, que sou agnóstico) :)
Manuel: decerto, a Bruna poderá indicar com maior precisão a intencionalidade do seu comentário. Mas a mim pareceu-me ter sido claramente dicotómica. No sentido de exemplificar autores que privilegiam mais este ou aquele segmento da literatura. Os que plenamente cumprem os dois são génios. E os génios são raros. Infelizmente.
EliminarMas, mesmo de entre aqueles que ela indica como focando-se num maior tratamento da linguagem há autores perfeitamente distintos entre si e com abordagens quase díspares da escrita.
Vergílio Ferreira, Garcia Márquez e Mário de Carvalho são dos meus autores favoritos. Até por estarem próximos dessa genialidade que logra alcançar a perfeição da palavra e dar-lhe, em simultâneo, um conteúdo perfeitamente perceptível a uma primeira leitura. (Primeira. E não segunda ou terceira)
Já tenho grande dificuldade em incluir nesse estilo José Luís Peixoto, bastante mais próximo do que é comum. Já Gonçalo M. Tavares recorre profusamente a arcaísmos num complexo linguístico difícil de desvendar...o que a meu ver não é positivo nem de louvar.
Quanto à distinção entre enredo e conteúdo...É difícil engendrar um bom enredo. E mais custoso se torna ter conteúdo quando este não está presente. E conteúdo RELEVANTE para a sociedade na qual o livro é divulgado. E porquê? Porque a coragem de criticar o presente no espaço em que nos movimentamos implica capacidade crítica. Implica afrontar interesses instalados. Implica não agradar a todos. Implica ruptura. E nem toda a gente está disposta a isso...
Os conteúdos abstractos e divagantes serão mais pacíficos...mas muito menos meritórios.
Dupla alegria: por acompanhar este blogue e por acompanhar estes comentários.
ResponderEliminarNuma blogosfera que permeia generalidades desinteressantes, sabe bem parar aqui. E porquê? Porque os temas interessam e porque por aqui se escreve bem. Tal como nos livros...
Isso inclui-me a mim? Hein?
EliminarAhahah... estou a brincar claro!
Mas partilho dessa sua alegria e satisfação em ler estes Extraordinários comentadores e lições. Ao contrário de si mão tenho termos de comparação, confesso, e nem preciso!
Saudações fim de semanescas do Planalto Central!
Mas olhe que inclui...
EliminarBoa tarde Sra. Maria do Rosario Pedreira
ResponderEliminarAntes de mais peço-lhe imensa desculpa por estar a usar o seu blog pessoal, para tentar dissipar as minhas dúvidas.
Sou uma jovem escritora de 22 anos e após ter finalizado o meu original, enviei-o para a Editora Leya.
No entanto, ainda não obtive nenhuma resposta e como tal, confesso que isso me entristece.
Na sua opinião, sendo eu uma jovem de nome "desconhecido", terei alguma hipotese de publicar o que quer que seja numa editora como a Leya?
Mais uma vez, peço-lhe imensa desculpa por estar a invadir o seu espaço, para trazer-lhe tal questão.
Aproveito para lhe desejar o maior sucesso pessoal e profissional.
Cumprimentos,
Patrícia
São dezenas de livros que chegam todas as semanas, provavelmente há-de receber resposta, mas muitas vezes demora meses. A quem enviou o seu livro? Peça a essa pessoa que lhe diga como estão as coisas e lhe dê uma previsão.
EliminarBoa noite,
EliminarEnviei o meu original através do site da Leya, que contem uma pagina especifica para o envio das obras. O email que aparece na pagina é cfelix@leya.com. e não me dá a informação se pertence a um editor em especifico ou se é apenas mais um email da editora.
Por esse mesmo motivo, tenho receio de estar a "chatear" em busca de uma resposta.
Muito obrigada por o seu esclarecimento e disponibilidade em responder-me.
Atenciosamente,
Patrícia