Como tornar-se espião

Quando comecei a ler o livro de que hoje falarei, senti, não por acaso, reminiscências de outro título do autor, O Inocente, cuja acção decorre em Berlim e envolve os preparativos, num subterrâneo, da construção do Muro entre as duas Alemanhas que, felizmente, veríamos ser desmantelado em 1989. Mel, de Ian McEwan, tem o mesmo mistério e o mesmo tom de secretismo, mas passa-se nos anos 70 do século passado numa Inglaterra que anda seriamente irritada com os primeiros avanços do IRA e a força da União Soviética. A protagonista do romance chama-se Serena Frome (não, Mel é o nome de uma operação secreta, não de uma pessoa ou dessa substância que as abelhas produzem) e é uma rapariga bonita, filha de um bispo de uma cidade pequena, que acaba por tirar o curso de Matemática na Universidade de Cambridge, embora goste sobretudo de literatura. Longe da alçada da família, depois de vários relacionamentos curtos e falhados e de muitos livros lidos, Serena envolve-se com o tutor de um ex-namorado, com quem aprende quase tudo e de quem se separa em circunstâncias bastante inesperadas. Mas é, no fundo, ainda com a sua «ajuda» que ingressa nos Serviços Secretos britânicos no fim da licenciatura, nos quais, afinal, as suas leituras lhe vão dar um jeitão. O resto – lamento muito – não se pode contar, porque, em matéria de espionagem, as surpresas são muitas a cada novo capítulo – e às vezes bastante desarmantes, diga-se de passagem. Embora prefira outros títulos deste autor, este Mel é tudo menos doce, mas deixa-nos a pensar na forma como são recrutados os espiões e no cinismo e na frieza com que determinadas operações são levadas a cabo pelos Serviços Secretos.

Comentários

  1. Estou com muita vontade de ler este livro. Tenho acompanhado a carreira deste escritor. Para mim, Sábado é dos melhores livros escritos nos últimos anos.

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  2. O final do texto fez-me lembrar o filme Munique do Steven Spielberg, que apesar de muitas pessoas não terem gostado eu achei fantástico.

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  3. Este autor não me arrebata, confesso. Nem sei bem porquê. Já li três ou quatro livros dele, entre os quais, o "Expiação", o "Amesterdão" e o "Fardo do Amor". Gostei de os ler, claro, senão não os teria continuado a ler. Mas não foi uma leitura com a alma. Não me agarraram. Não me arrebataram.
    Tenho ainda o "Solar" por ler. Não me parece que vá ao "Mel". Se fosse há uns tempos atrás, muito provavelmente comprá-lo-ia;agora já só compro livros que me interessam verdadeiramente.

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    Respostas
    1. ana b.,

      Estou de coração consigo no que respeita aos títulos que refere. Fiquei curioso se sentiria o mesmo com o livro de contos "Primeiro amor, últimos ritos". É o primeiro livro deste autor, um livro de contos publicado em 1975 quando ele tinha apenas 28 anos. Para mim, Ian McEwan, 64 anos, nunca mais se aproximou da excelência desta sua primeira obra. Se algum dia pensar duas vezes em relê-lo, vá por mim: tente este, que até existe nalgumas bibliotecas. :)

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    2. Não conheço esse livro que refere; fiquei curiosa e vou procurá-lo. Obrigada pela sugestão.

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