Consciente e inconsciente

Dedico-me a ler – e ler é, grosso modo, a minha profissão. Porém, não lemos hoje todos e a toda a hora? Num artigo que o jornal espanhol El País publicou há algumas semanas na secção de Cultura, a autora, Virginia Collera, fala de leitura consciente e inconsciente e refere que nunca lemos tanto como actualmente, pois o nosso cérebro está permanentemente a ser convocado pelo texto, seja de uma factura de electricidade, dos ingredientes da caixa de cereais do pequeno-almoço, das tabuletas que nos indicam direcções nas auto-estradas ou dos cartazes publicitários com que nos cruzamos a caminho do emprego: leitura, quase sempre, inconsciente. A consciente pode estar presente quando pegamos no jornal ou num romance, quando fazemos uma pesquisa no Google ou quando queremos saber o que publicaram no nosso mural do Facebook. Mas o verbo, «ler», é o mesmo, embora a atitude seja completamente distinta. Também quanto ao livro, as coisas já não são todas iguais. Se até há pouco tempo o vocábulo significava «um conjunto de folhas de papel encadernadas constituindo um único volume», a verdade é que o digital veio mudar essa acepção e há já quem  proponha uma definição que se preocupa apenas com o conteúdo e ignora a forma. O problema é que, segundo estudos realizados sobre os hábitos de leitura, parece que as pessoas estão a perder a paciência para a leitura pausada, porque a leitura inconsciente, sobretudo na Internet, as desmotivou para o que é profundo e requer esforço e lentidão. Sei que não é o caso dos leitores deste blogue, mas será que a leitura como eu a sinto estará ameaçada?

Comentários

  1. Talvez não. Dependerá, em grande medida, do texto. Como agora se diz: da «narrativa». Ou seja, e à antiga portuguesa: da história que o texto contar. E de como a história for defendida e promovida.

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  2. penso que sim.

    os nossos filhos não irão ler os livros que lemos com a mesma atenção, com o mesmo tempo.

    esta vida (em que tudo se passa apenas num minuto...) obriga-os a usarem "velocidades" diferentes na forma de gerir e utilizar os sentidos.

    talvez as histórias curtas sejam o futuro.

    talvez os livros de setecentas páginas só tenham leitores na prisão.

    enfim, "travessas do talvez" que nunca mais acabam.

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  3. Bem...os leitores, na verdadeira acepção da palavra, serão sempre uma minoria da população. Mas creio que jamais deixarão de existir. Até porque os hábitos de leitura vão passando de pais para filhos sendo transmitidos entre gerações tal como outros hábitos relevantes.

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  4. É realmente incrível o papel que a leitura (e a escrita) adquiriu para nós, seres humanos, quando, ainda há quatro ou cinco séculos, 90% da população nem sequer sonhava aprender a ler e a escrever, nem fazia ideia da sua importância (a propósito, refiro esse aspeto - utilidade da escrita e da leitura - no meu novo romance, situado no século XII, e para o qual ainda não consegui encontrar editora, desde que resolvi não mais publicar com a minha habitual).

    A leitura que requer "esforço e lentidão" pode estar ameaçada durante uns tempos. Mas não para sempre. Acredito que a História se compõe de ciclos, que se repetem. Ou seja (e para usar a sua expressão), "grosso modo": a um ciclo de cultura superficial, segue-se outro mais profundo; a um ciclo de "viver a correr", segue-se outro em que se redescobre a calma e a reflexão. A velocidade não pode aumentar indefinidamente, penso que o ser humano não o aguenta.
    Tendemos a pensar ao nível de meia dúzia de gerações e não ao nível da História da Humanidade. O que é legítimo, porque tudo, afinal, é relativo.

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  5. Já agora, desculpem esta intromissão, mas não resisto em transcrever um passo do meu novo original. É que combina tão bem com o tema de hoje... ;-)

    «A moça surpreendia-se com o poder da escrita e da leitura, cuja utilidade nunca lhe passara pela cabeça. Tudo aquilo que não se conseguisse fixar, podia ser anotado. Mais uma vez se lembrou da bruxa do Serro do Cão, a quem a Bíblia dava tanta sabedoria. E a quem ela tinha dito que gostaria de aprender a ler, a fim de saber quando os padres mentiam…
    Passou a cismar dia e noite naquele desejo de aprender a ler e a escrever. O ensino de tais artes, porém, destinava-se apenas a algumas noviças e ela receava um raspanete, quiçá até um castigo, caso revelasse à irmã Hildegarda a sua ambição. Apesar de a "física" ser carinhosa com ela, poderia indignar-se, ao constatar que ela arvorava algo que não correspondia ao seu estatuto. Ela não passava, afinal, de uma pecadora, sobrecarregada de penitências ditadas pelo abade Formosinho, aceite naquele mosteiro apenas por gozar da proteção da irmã gémea».

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  6. António Luiz Pacheco4 de outubro de 2012 às 04:53

    Obrigado por tão interessante naco de prosa, Extraordinária Cristina!

    E, concordo inteiramente com a sua opinião.
    Não sou um homem da história (como você) mas tenho essa sensibilidade também, para os ciclos sejam eles o dos produtos ou os da Natureza...
    Tudo funciona em ciclos...

    Suponho que atingimos - no ciclo literário - o clímax! Logo é de prever a entrada no contra-ciclo , como natural... e não nos deve amedrontar, tal como quando a Lua entra em minguante não vai desaparecer...

    Interessantíssima idéia a da saturação pela fortíssima leitura inconsciente a que somos sujeitos... nunca havia pensado nisso, e é por isso que eu traça literária gosto de pro aqui esvoaçar!

    Saudações do Planalto Central num dia Africano, quente e húmido, daqueles em que céu parece chumbo!

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    1. Olá António Luiz! Isto é que é uma coincidência! Comecei ontem a ler o 2º volume do "Largueza". À parte as nossas diferenças de opinião sobre certos aspetos, estou interessada nas aventuras de um português pela América do Norte, no século XIX. Aprendi muito com o 1º volume e tenho a certeza de que vou aprender mais com este.

      Tome conta de si, aí por África!

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  7. Maria do Rosário

    Este seu blogue não é apenas de leitura consciente, tenha isso em atenção. É, também, um espaço que, todas as manhãs, abre para debatermos o que nos propõe e o que nós, de forma colateral, resolvemos propor e comentar.
    A Maria do Rosário abre esta salinha de debate, lança para a mesa o que lhe vai no espírito e nós, sentados à sua volta (é assim que eu imagino), dialogamos consigo e com os outros. Há aqui um imediatismo extraordinário, tanto mais activo quanto se pode transformar em imediatismo ao retardador, o que significa que podemos entrar quando queremos e pronunciarmos sobre os assuntos mais ou menos recentes. Aí, sim, esta nossa leitura comunicativa, precisa deste meio rápido, acessível e barato. A palavra "diálogo", tal como "ler", têm de se adaptar aos novos tempos.
    Tal como nas reuniões importantes, estas possuem característica própria (daí serem extraordinárias), pois duram dia e noite, até fins de semana, com entradas e saídas da sala sem arrastar de cadeiras.
    A Maria do Rosário sente a leitura em papel ameaçada; eu não. O cheiro do papel impresso, o afagar da capa nos dedos, o levar a leitura debaixo do braço para a areia da praia, para a relva do jardim ou para a caruma dos pinheiros, tal como se leva para cima dos lençóis da cama, ainda a busca dos títulos na biblioteca ou nas prateleiras dos livreiros - ó Maria do Rosário -, haverá alguma coisa que substitua estes prazeres?

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    1. António Luiz Pacheco4 de outubro de 2012 às 08:22

      Não posso deixar de comentar:
      - Ai a inveja que tenho de não ter sido eu a dizer isto, caríssimo e Extra. Jocamaratinho!

      Aplaudo de pé... concedo-lhe música e volta à praça, em ombros!

      Um abraço e claro, as homenagens devidas à anfitriã deste espaço!

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    2. Inveja por inveja, demonstro-a agora do Extraordinário António Luís Pacheco, nesse Planalto Central, a uma altitude relevante e cerca do Huambo ou do Cuíto.
      Com o céu cor de chumbo, a precipitação por esses sítios não é de estranhar e cai que se farta! Por isso, antevejo o Amigo Pacheco, na varanda de uma casa africana ou numa palhota de andar, coberta de colmo a pingar, em cadeira de baloiço e pés na balaustrada, a ler um bom livro.
      A espingarda e os binóculos, que repousam ao lado, devidamente recolhidos. Se calha, uma garrafita das que foram na bagagem, para molhar "o bico" de vez em quando - direi, como aqui se fala - "que lhe preste".
      O portátil, que eu não julgo servir para ler e-books, tem o link direccionado a este pedaço de Ocidente e a esta Casa Extraordinária.
      O ALP é, por agora, o nosso correspondente em África. Colherá, decerto, elementos para um novo livro que nos levará a lê-lo. Só não o invejaria se ele não tivesse levado consigo uma mala cheia de livros (em papel, porque este nome só o aplico a esta forma de publicação, sem "e-").
      Um abraço... de longe.

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    3. Obrigada, caro Jocamartinho & companhia, gosto muito de os receber nestas tertúlias.

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  8. Após ler tão pertinentes e literariamente interessantes pensamentos sobre a questão levantada pela Maria do Rosário -- o que é a leitura hoje, como ela se está a alterar -- caio na tentação de confessar o meu agradecimento às reflexões "radicais" de Jonathan Franzen (uma paixão literária minha que vem desde este Verão quando comecei a ler o "Freedom") sobre esta matéria: este homem faz uma profunda, erudita e muito bela análise à ultra-fragmentação em que a vida humana está transformada nos nossos dias. O marketing, a publicidade, os "sound-bites", o email, o Google, tudo contribui para que a nossa mente se torne saltitante, viciada em estar sempre a desviar o seu foco, em ser fascinada pelo entretenimento (o "entertainment" americano que é um pouco mais do que diz a palavra protuguesa a qual até nos soa um pouco mal). Para ele, até os ebooks contribuem para a decadência dos valores culturais do ocidente. O Franzen tem um ensaio prodigioso na revista Harper´s ("Perchance to Dream: In the Age of Images, a Reason to Write Novels"; pode-se obter o ensaio sem custos na internet) sobre o papel da literatura de qualidade que é hoje criada quase como uma atividade marginal a contracorrente da cultura dominante. As intrevistas dele disponíveis no YouTube são também interessantes como um primeiro contacto com as suas convições. E, já agora, o "Freedom" é um retrato -- incrível, pelo detalhe, humor e credibilidade que transmite ao leitor -- de uma família americana de classe média-alta na época de Bush filho, em que o personagem principal luta por alguns dos mesmos ideais radicais que são caros ao próprio autor. Porque vivi alguns anos nos USA, tive o previlégio de puder ler o livro na sua versão original e, entusiasmado, ofereci a sua tradução à minha mulher que, para minha surpresa, me disse não gostar do estilo de Franzen, ela que é grande leitora de autores americanos, como Auster e Roth. Será que o humor e a ironia do autor soam melhor em inglês? Estranho...
    Ainda não encontrei ninguém que tenha lido o "Liberdade" do Franzen. Será que algum dos leitores deste blog o fez? Gostava de ouvir uma opinião portuguesa sobre este livro.

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    1. Ainda não. Já li outro do Franzen este ano, de que falei aqui, mas essa maravilha era muito gorda e foi ficando em stand-by. Ver se consigo pegar-lhe em breve, porque nem tenho de o comprar, ele existe lá em casa...

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    2. Ainda não li o "Liberdade" embora o tenha. Mas apenas por falta de tempo. Li o "Correcções" e o " Zona de Desconforto" e gostei muito de ambos. Este último foi, até, um dos meus preferidos do corrente ano. Apesar disso, percebo a sua mulher: não se compara à excelência do Roth ! Nem ele nem mais ninguém:) Brinco, é claro, mas também prefiro o Roth . Já o Auster ... acho que prefiro o J. Franzen : envolve-me mais.

      Quanto ao post , propriamente dito, acho que a leitura não está, nem nunca estará ameaçada: haverá sempre a necessidade de escrever e, consequentemente, de ler o que se escreve. Acho que é uma atividade inerente ao ser humano. Os meios e os suportes poderão variar certamente que sim mas a sua essência, a sua génese permanecerá por muitos séculos e milénios. Acho que faz parte da natureza intrínseca da espécie humana.

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  9. Lembrei-me do «Horas Extraordinárias» a ler
    Henrique Augusto Chaudon

    Fidelidade
    p/ um amante dos livros
    Amoroso
    pleno de prazer
    visitas os teus velhos livros.
    De dorso em dorso passeias
    e relembras.
    Teus longos dedos
    trêmulos de pudor e de desejo
    mal roçam as suas peles crespas.
    Se entreabertos
    eles te trazem o universo
    o cheiro
    das entranhas do universo.
    Ansioso, terno
    as páginas penetras
    cuidando serem virgens.
    E elas
    em sua calma complacência
    uma vez mais
    te acolhem.

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  10. Os livros não correm perigo. A minha filha, que tem agora 18 anos, aos 12 poupava a semanada, deixava de comprar chocolates - ela que é uma comilona - para comprar livros. Foi para a Faculdade para longe de casa e levou os seus livros preferidos, sem os quais, afirmou, não consegue viver. Ainda há esperança!

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    1. Assim parece!
      E é pena!
      O frenesi dos tempos e a compulsão para o imediato a imporem-se à temperança das actividades saboreadas.

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  11. Espero que não.
    Está nas nossas mãos não deixar que isso aconteça. Todos os dias, um bocadinho e por todos os cantos.
    A todos os que nos rodeia, cabe a nós e à nossa insistência o papel de incutir a experiência e a sabedoria que alguns livros (e digo alguns, porque não são todos) em quem encontramos.

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