Coisas do coração
A palavra de ordem deste governo é poupar, sobretudo nos bolsos dos outros... Tenho a certeza de que existem muitas fundações que se aproveitaram das regalias e pouco fizeram de relevante em prol do público durante os últimos anos; mas é escandaloso que se sugira a extinção de outras e se acabe com os apoios concedidos a organismos que contribuem decisivamente para o desenvolvimento cultural dos Portugueses. Fiquei zangada com a notícia, porque ainda temos demasiados analfabetos em Portugal para podermos prescindir de uma educação fora da escola (escola que também estará a poupar em tudo e, por isso, preparará cada vez pior os nossos jovens). Os exemplos são muitos, mas o meu coração bateu quando li, entre os nomes alinhados, o da Fundação Ciência e Desenvolvimento (FCD) – que gere, por exemplo, o Teatro do Campo Alegre, no Porto, onde decorrem todos os meses as Quintas de Leitura, um fenómeno em termos de divulgação de poesia, cujos espectáculos estão sempre a abarrotar de gente que paga voluntariamente o seu bilhete. Daqui do blogue mando um abraço solidário a João Gesta e a toda a sua equipa e desejo que nada de mal lhes aconteça. Tenho a certeza de que as Quintas se pagam a si próprias e seria uma tragédia que a proposta extinção da FCD obrigasse ao seu fim. Poderia citar outros casos, porque são muitos, mas este acertou-me em cheio no coração.
2 corações ...
ResponderEliminarJunto-me à indignação da Rosário com uma outra indignação de que muitas vezes sou vítima quando passo «entre - os - campos» da minha cidade:
ResponderEliminarJá até aquele espaço
Nos impediram de possuir.
Transformaram-no por arrasto
Uma dessa mentes esquecidas
Da memória dos seus pais
Na maior das impunidades
Que é um mal larvar
Que impende sob as nossas espinhas.
Já até aquele espaço
Nos proibiram de desfrutar.
Era tão belo e lindo
Com os seus comboios da selva,
E os fantasminhas
Que nos arrepiavam
Por entre os trilhos,
Afagando os cabelos,
E beliscando
Nos seus trilhos,
A espinha.
Já até aquele espaço
Nos sonegaram,
Sem nada em troca nos darem,
Por entre os negócios mesquinhos
Como numa feira de vaidades,
De que tão cobarde
E impopularmente
Se apropriaram,
Sem uma palavra,
Uma desculpa,
Um gesto,
Uma beliscadura,
Um afago,
Um carinho.
Fiquei sempre sem saber, dividido, entre lhe chamar «Alarvidade» ou «Feira Popular»:
para ir afagando a tristeza de um país que retalha a alma e, agora, as «Quintas».
Vai-me valendo as «Terças» do Victor Moura - Pinto e o seu «Jardim de Notícias».
Pode ser que estas «beliscaduras», para afastar as trevas destes novos tempos de «Idade Mínima», nos ponham a todos a cantar em uníssono o: «Acordai!»
Seria bonito e acertaria nos nossos corações, não para os ferir, mas para os fazer sarar!
Apenas lamento o Planetário do Porto, aí integrado. Há quem lamente o prémio literário para jovens autores, mas isso é uma insignificância que uma das duas entidades emparceiradas no FCD pode assegurar.
ResponderEliminarPois bem, a cultura não pode "viver" apenas dos impostos dos contribuintes; tem de se autosustentar, principalmente porque assim não corre o risco de subjugação aos poderes instalados.
A Câmara está na Fundação, certo? A Universidade está na Fundação, certo? Não é uma entidade privada sem fins lucrativos? Não cobra pelo que oferece? Ou, mesmo oferecendo, não tem quem utilize?
É evidente que eu, numa perspectiva economicista, considero que o Estado (nós, os que pagamos, principalmente), temos o direito de ser ressarcidos através do fundamental, relegando o acessório para segundo plano. É a óptica do utilizador pagador que está em causa. Quem passa na Ponte 25 de Abril, paga; quem utiliza as vias portajadas, paga; quem recorre aos cuidados de saúde, paga; quem vê televisão, mesmo em sinal aberto, paga; quem tem número de contribuinte, paga; quem é indigente, até no IVA dos bens essenciais à vida, paga. Ainda há a contribuição generalizada dos impostos sobre o trabalho, porque se trabalha. Ainda há os pagamentos para a Segurança Social para pagar aos que já descontaram e para aqueles que nunca trabalharam.
Se é assim, à falta de mecenas, quem beneficia da cultura, deve pagar.
É isto a teoria neoliberal? Pois, seja. Não estou a defender este Governo, que tenho combatido quando, onde e como posso. Estou a defender que o erário público não deve sustentar fundações privadas, que à partida deviam sustentar-se a si próprias.
Está a Câmara do Porto associada ao projecto e, a esta, cabe-lhe a cultura, uma vez que é pelouro da sua esfera. Ainda que seja com dinheiro dos contribuintes, é saído da fatia que compete ao poder local, gerida com capacidade política (quando a há, pois escasseia) e sufragada por executivo e assembleia próprios. As fundações privadas, subsistam com o privado, com os seus associados, com os seus prejuízos e os seus lucros. E, se foram erectas por mecenas e doadores, substituam os seus fins não lucrativos pelor réditos desses mecenas e doadores.
Pois bem, vai cair-me em cima o Carmo e a Trindade; o mais certo, sem passarem cartão ao que admito. Se isso for, aumenta a indignação na caixa de comentários; caso ontrário, os que já são castigados pelo calabre à guisa de cinto para segurar as calças, responderão com o seu imperial silêncio.
O livro também é cultura; quando vou a uma livraria, pago. Não vejo por que não se há-de pagar pelas outras vertentes culturais do País, mesmo o Teatro.
Esta é a minha opinião pessoal. Nada tenho contra esta ou outra instituição. Suponho que é universal a perplexidade por se saber o número de fundações que contribuem para afundar tão pequeno território.
Não leve a mal, a Rosário, este meu desabafo. Tal como o Bocage, faço-o em dia que me sinto mais pachorrento.
Caro Jocamartinho
Eliminar"O livro também é cultura, quando vou a uma livraria, pago", é certo, mas se não quisesse pagar poderia sempre ler, bastava para tanto ir às bibliotecas... Mas como fazer com o teatro?
Lembrei-me de repente daquela lógica de fechar
cursos quando os alunos são muito poucos, compreendo a lógica que está por detrás desta ideia, mas digam-me, o que aconteceria ao latim se deixássemos de o lecionar na universidade por ter apenas um aluno? deixamo-lo ainda mais morto??
Isabel
Um abraço
Caríssima e Extraordinária Isabel
EliminarAs bibliotecas, o planetário, porventura até os cine-teatros, são da área e da competência dos municípios, se os queremos graciosos e ao dispor do público. Se o âmbito ultrapassar essa área, que sejam nacionais.
A propósito das bibliotecas - que a Isabel trouxe à colação, e bem, pois toca-nos particularmente - lembro-me que as minhas primeiras leituras foram feitas graças à disponibilidade de uma Fundação - a Calouste Gulbenkian - a quel não precisava de apoios estatais para promover esses serviços, sendo um canal de recepção dos livros editados.
Fui, até há pouco tempo, presidente do conselho de administração de uma empresa (EEM) ligada à cultura, gerindo três bibliotecas principais (entre outas valências, como dois centros culturais, teatro e cinemas) e digo-lhe que, ao receber a carrinha e os livros da Gulbenkian, que os disponibilizou gratuitamente, preparei uma distribuição dos mesmos pelas escolas e bibliotecas locais das juntas de freguesia. Foi um serviço que aquela Fundação deixou de prestar (talvez porque esse espaço cabia aos municípios e empresas congregadas) e que verdadeiramente, enquanto durou, foi independente do dinheiros dos contribuintes.
Fundação implica fundador, patrono, mecenas. Sei lá...
O teatro tem de ir de encontro à apetência do público e não correr pelo marfim dos autores e encenadores; ou seja, tem de ser sustentável, como é o cinema. Financiar um peça que se leva à cena para, no todo das exibições ter o número de espectadores correspondentes a sala plena, é pouco. Se se tratar de teatro experimental ou escola de teatro, lá entramos no saco municipal, ainda que, indirectamente, saia do bolso do contribuinte. Aqui, tudo bem; agora teatro de bilheteira que não cubra os custos da electricidade...
Quanto ao latim, ao pobre latim que eu conheci pela primeira vez através da Initia Latina, tem sido renegado pela Educação, independentemente de haver muitos ou poucos alunos. Nem há fundação que lhe valha. Talvez, por isso, a Escrita ande tão mal tratada e corra o risco de ser aviltada através das interferências ocorridas com algum acordo, dito ortográfico.
Caro Jocamartinho
EliminarÉ por isso que gosto deste blogue, gosto sinceramente de ouvir pontos de vista alheios, principalmente quando expostos de forma tão clara e convicta, aprendo sempre alguma coisa ; é óbvio que desconheço muitas realidades, mas a de esperar a carrinha da gulbenkian que passava pela minha aldeia (terra de Ruy Belo) excitadíssima e feliz, essa conheço, e é com muita ternura que recordo o som da sua buzina.
Isabel
Decerto, Isabel, era um encanto ver a carrinha e entrar nela, no seu corredor estreito ladeado de livros. O encanto que era escolher, querendo levar uma barrica deles e só poder levar três, no máximo; preencher aqueles papéis verdes, amarelos e cor de rosa, lendo o código na contracapa. Talvez aí, no meu caso, tenha sido mordido pelo "bicho" do livro.
EliminarPara não fugir ao tema, considero este um dos maiores serviços culturais do século XX e um extraordinário serviço prestado por aquela Fundação.
Fiquei a saber que é de uma terra muito bonita, que tem uma torre ou almenara muito curiosa.
E fiquei a saber que é da terra de um talentoso e já felecido poeta. Citando-o:
"É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro."
Este verso é magistral.
Caro Jocamartinho
EliminarFiquei muito sensibilizada pela sua mensagem tão bonita! Não sendo "filha da terra", passei aí 10 anos da minha vida, foi lá que cresci, vivi e sonhei muito (sabe, naquela idade em que ainda tudo é possível?). E o nosso Ruy Belo aí está sepultado junto à igreja com a sua torre (a que se atribui origem mourisca). Este ano foi inaugurado o centro escolar Ruy Belo. Uma homenagem merecida.
Isabel
Há no rol das Fundações tantas que são absurdas e quantas vezes apenas fruto da vaidade e majestadismo (existe?) dos mentores que só querem perpetuar o nome, outras para fugirem a impostos, outras para sacarem dinheiro público... diria a maioria! E nem poupo a fundação da Casa de Bragança a despeito da minha costela Talaça, pois que tem meios para prover à sua subistência.
ResponderEliminarE depois aquelas que sabemos precisarem mesmo de subvenção e que sem produzirem no entanto servem e promovem!
Mas vai pagar essa que refere e outras, por causa das outras... algumas das quais vêem reduzida a comparticipação (como a Fundação Mário Soares) enquanto essas se vêem extintas...
Saudações cá do Planalto Central e do Chá de Caxinde...
http://www.publico.pt/Local/porto-extincao-de-fundacao-pode-obrigar-teatro-do-campo-alegre-a-encerrar--1565701
ResponderEliminarE ainda:
ResponderEliminarhttp://www.publico.pt/Cultura/camara-do-porto-nao-garante-funcionamento-do-teatro-do-campo-alegre_1565707
Não parecem, de facto, boas notícias...