História de família

Prometi voltar quando tivesse o livro lido e cá estou eu. Os Malaquias – assim se chama o romance vencedor do último Prémio Literário José Saramago – ainda não está disponível em livraria, mas, se por acaso é sócio do Círculo de Leitores, não hesite, pois, além de uma leitura de qualidade, terá um objecto bem bonito nas mãos. Partindo de um episódio real que aconteceu na família da autora, Andréa del Fuego – a história de três irmãos que ficam órfãos na noite em que um raio fulmina os seus pais num casebre da Serra Morena –, a obra mistura a vida difícil de três miúdos que acabam por separar-se (e cujo futuro se adivinha penoso e triste) com um toque de realismo mágico que, entre outras coisas, faz viajar no corpo de um deles gente que morreu e acabou por transformar-se em partículas de pó, gás, suor, o que for. Escrita de forma muito especial, poética, ternurenta, mas também cruel quando é preciso, esta saga – autobiográfica ou não – convence e é mais parecida no tom com o Jorge Amado dos Capitães da Areia do que com a literatura brasileira contemporânea, mais desprendida e desconcertante. Mesmo achando que o fim precisava de um jeitinho, recomendo.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco23 de janeiro de 2012 às 05:12

    Gosto muito de Jorge Amado, e gosto dele sobretudo pela sua capacidade fantástica e inesgotável de criar personagens, que são quem mais me atrai na sua obra! Cada personagem é um Mundo, ainda que só exista uma página.
    Aliás é o que me agrada em geral nos escritores Sul-Americanos, as personagens!!!

    Curiosamente Capitães de Areia, sinto que é livro algo diferente daquilo que para mim caracteriza Jorge Amado, se bem que um grande livro, evidentemente! Já não é um contador de histórias que nos relata o Brazil da pequena cidade o Brazil rural e popular... neste sente-se um outro sentimento urbano e com um fundo social diferente, até politizado como que havendo uma nova direcção tomada pelo escritor... enfim é o que sinto.

    Em que é que se assemelham então os Malaquias e os Capitães de Areia?
    Na marginalidade juvenil dos protagonistas? Ou na forma de escrever? Na parte sociológica?
    É que para mim Capitães não é o livro que melhor representa Jorge Amado!

    Saudações do campo (novamente...)

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    1. "amigo extraordinário" Pacheco
      Comecei as minhas buscas. No monumental(Saldanha) não encontrei o seu livro. Mas vou continuar a procurá-lo, sou persistente.
      Curiosamente "capitães da areia" foi o primeiríssimo livro que li de Jorge Amado, andava eu no 8º ano. Um livro que me foi emprestado por um excelente professor de português da escola secundária de Rio Maior! Foi para mim uma descoberta incrível. Claro acabei mais tarde por ler quase toda a sua obra. Gosto muito.
      Isabel

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    2. Falei de Capitães da Areia sobretudo por serem crianças os protagonistas...

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    3. António Luiz Pacheco23 de janeiro de 2012 às 10:48

      Hum compreendo... e não compreendo, livros protagonizados por crianças há bastantes e os Capitães da Areia vão muito além disso, aliás já "O Deus das Moscas" deixa muito para trás
      "Dois anos de férias" (J. Verne)
      E "A História de Edgar Sawtelle" (David Wroblewski )?
      também explora essa vertente e até essa idéia da ligação... genética? A parentes mortos.
      O que me agrada menos é a idéia do realismo mágico, agora parece ser moda haver um toque de magia ou sobrenatural em tudo...


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  2. Vicente Lopes Saudade23 de janeiro de 2012 às 13:12

    Posto novamente: Quem quiser pode ler dois capítulos do romance de Andréa del Fuego. Aqui: http://www.linguageral.com.br/site/downloads/titulos/98.pdf

    É na versão brasileira e tem total autorização da autora (afinal serve como aperitivo para o leitor)

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  3. "Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido a alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias. O coração do casal fazia a sístole , momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo."

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  4. Estou muito curiosa em conhecer esse livro.
    E o facto de fazer recordar a escrita de Jorge Amado deixa-me entusiasmada, não nego. Jorge Amado foi, talvez, o meu primeiro escritor a sério. Era adolescente quando, a propósito da novela Gabriela, comecei a ler este escritor. E nunca mais parei. Li-os todos! Magnífico escritor, sem dúvida! E sempre muito crítico e contundente . Li todos os seus livros com enorme prazer e emoção.
    Para além do seu enorme e indiscutível talento tem, para mim, uma enorme carga afetiva . Terá sido esse o escritor, que fez de mim uma leitora obsessiva? O tal, responsável pelo tal clique, que falamos há dias? Se calhar foi...:)

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