De viva voz

Por razões que não são para aqui chamadas, ando a ler muita coisa sobre Amália e o fado. Não sou uma leitora voraz de biografias, confesso – estou sempre mais inclinada para a leitura de ficção e tenho um defeito estrutural que se chama falta de curiosidade, sobretudo no que toca a vidas de pessoas reais. E, porém, gosto muito de ouvir uma pessoa a falar de si própria e de descortinar quanto de ficção e de verdade existe na construção do seu discurso. Talvez por isso não tenha conseguido saltar páginas no livro de Vítor Pavão dos Santos, Amália – Uma Biografia, que reproduz na primeira pessoa um relato da vida da fadista a partir de vinte e cinco conversas com o autor que, deliberadamente, excluiu do texto todas as suas perguntas e intervenções. Temos, assim, Amália a falar de si desde que nasceu como se fôssemos visitas privilegiadas de sua casa ou um psicoterapeuta atento aos dramas e traumas da sua existência num consultório da capital. E, ao lê-la deste modo – como se de ouvido colado às suas palavras –, podemos entender melhor a rapariga que foi e a mulher que se tornou, com todas as suas fragilidades, complexos e até vaidades, que, já se sabe, não há grande estrela que as não tenha. Eu, que admirava a grande senhora sem simpatizar com ela, senti-me por vezes psicanalista a detectar sinais que justificam alguns seus comportamentos e acabei por render-me ao lugar-comum de que a infância determina realmente muito do que somos e, no caso de Amália, isso é gritante. Com o fado a festejar a sua «entrada» no Património Imaterial da Humanidade, uma sugestão de leitura a ter em conta.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2012 às 06:03

    É uma sugestão a ter em conta, porque goste-se ou não, o fado é algo de profundamente nosso e um elemento cultural muito forte, com ligações profundas a outros elementos culturais e outras artes, também muito nossas.

    Felizmente, creio que está na moda como nunca e digo felizmente porque isso lhe permitiu evoluir e até adaptar-se à actualidade o que contribui para a sua sobrevivência, e a dinamização de outras artes.

    Tenho visto alguns bons programas dedicados ao fado nas TV.

    Saudações do campo.

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  2. Não tenho um gosto especial pelo fado, ainda que alguns fados me comovam muito (entre os quais "povo que lavas no rio"). Descobri recentemente, andava certamente distraída, a voz da Cristina Branco e demorei-me a ouvi-la. Gostei muito.
    ...Foi só um desabafo!

    Isabel

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    1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2012 às 07:15

      Isabel, se sente assim o "Povo que lavas..." e me permite uma sugestão, oiça então "Foi Deus" (poema de Carlos Alberto Janes) cantado por Amália... creio que é o mais bonito fado que há!

      Não se envergonhe, é uma questão de ter alma.

      Desejo-lhe um bom dia.

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    2. Não é vergonha, é desconhecimento mesmo. E não se trata de não gostar de fado, apenas o consigo apreciar verdadeiramente no seu "ambiente natural" com caldo verde e chouriço e palmas e velas na mesa...Mas fico feliz por dizer-lhe que já conhecia o "Foi Deus" e de facto é também um dos meus preferidos, há outra sugestão?

      Saudações citadinas
      Isabel

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    3. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2012 às 12:43

      Compreendo!
      Cá no meu bestunto, há fado e fado... o Nuno Câmara Pereira é para ouvir depois de uma corrida! A Kátia Guerreiro numa tertúlia de copos! O João Peitaça depois da caça, com a malta... A Mariza é para ver ao vivo!!! O fado espectáculo, que é um espectáculo! E por aí fora...
      O Camané não é dos meus preferidos, mas acho que é um fadista de fusão (percebem?) e que faz falta ao fado... tem um tema gravado com os Xutos que é fantástico (Sopram ventos adversos -em acústico).
      Mas há muitos fados que são perfeitos para nos acompanharem ao serão, pela noite fora quando se lê, estuda, trabalha ou escreve... e ajudam a concentrar! É uma questão de escolher, tal como acontece com a Lizz Wright ... Outros não, como não dá jeito ouvir então... Deep Purple !
      É uma questão de ir ouvindo e escolhendo...

      Saudações musicais!!!

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  3. Oh’ fado
    és Amália
    iluminas meu silencio

    é silencio o pensamento
    é rio que navega a partida
    irrigada voz ativa
    consagra vosso saber

    És fado por vivente
    e vive-se luzente
    batizado farol erguendo vivas
    de águas imortais és fado, fada.

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  4. saudade Amália!

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  5. Vicente Lopes Saudade5 de janeiro de 2012 às 10:03

    Viva!
    No fado aprecio sobretudo vozes masculinas, desde Marceneiro, Farinha a Carlos do Carmo, Camané, Zambujo,...
    Mas nas mulheres há uma que se destaca: Amália, como não poderia deixar de ser.
    Fez um trabalho brilhante pelo fado...isso é inegável!
    Querem mais? Temos a Cristina Branco, a Aldina, a Ana Moura, a Mariza, etc

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    1. Também gosto muito do Zambujo.
      Isabel

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    2. Camané? Na minha modestíssima opinião e, ainda mais, no meu total desconhecimento de música, acho que ao Camané falta-lhe TUDO para ser um fadista. Falta-lhe alma, compreendem o que digo? Não basta ter uma voz jeitosa, há que se ter a voz que vêm do coração, para se ser fadista. Do Camané realmente não gosto nada. É oco.

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  6. Tia, por pouco que não tinha um livro sobre o Eusébio, para começar bem 2012!

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  7. É um lugar-comum dizer que a infância determina muito do que somos? É a mais pura verdade!
    Só não aceita isso quem quer viver na ilusão de que a sua infância foi boa, quando, de facto, a passou triste, a sentir-se sozinho e incompreendido...

    Mas é duro reconhecer que os pais erraram. Se é!

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    1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2012 às 12:17

      Minha cara Cristina... quem não foi infeliz e até miserável ou incompreendido nalguma fase da sua infância ou adolescência? Só que de um modo geral, depois crescemos e nos fizémos adultos, acho eu... aprendendo a distinguir entre o que foi infelicidade ou mera cachopice própria da idade e que nem era assim tão grave. Alguns nunca crescem, é verdade e então há desajustes psico-sociais !
      Evidentemente que houve e há infâncias que são verdadeiramente infelizes e traumatizantes, até porque nem todos somos iguais e reagimos do mesmo modo, mas convenhamos que há muito exagero!
      Olhe sabe o que costumo dizer? Que o que vale a pena em ser criança é ter sonhos e o que vale a pena em ser adulto é realizá-los!
      (Esta é da minha autoria! Podem passar a citar-me, eheheh!)
      E é que já realizei uma boa parte deles! O que se calhar me trás felicidade, e também porque ainda os há por realizar, ou seja ainda faz sentido viver! Mas se dantes só temia que não houvessem terra e mar que chegassem, já começo a sentir uma outra angústia... agora tenho receio que não me chegue o tempo!

      Saudações felizes!!! Eheheh!

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    2. Sim, claro que há muito exagero. Mas não se devem subestimar certas atitudes e métodos dos pais, com a crença de que, quando forem adultas, as crianças superam tudo e vivem a sua vida. Alguns não conseguem, como o António Luiz diz, "alguns nunca crescem". Fica por apurar se o defeito será sempre deles...

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