De pequenino se torce o pepino (ou não)

Não conheço nenhuma receita para fazer um leitor, embora suspeite de que há coisas que ajudam muito. Se, por exemplo, houver livros em casa – e os pais forem, eles próprios, leitores –, se as crianças tiverem quem lhes leia histórias desde pequeninas, interiorizarão a leitura como uma actividade natural e não resistirão a tentar. Mas creio ser necessária uma espécie de clique desencadeado por um livro particular (que nunca se sabe qual é) para existir paixão – e é essa paixão que determinará o hábito, a repetição do gesto e a capacidade de se enfrentar o fiasco que se pode tornar a leitura de um título e, ainda assim, não desistir de procurar outro. De todo o modo, fico muitas vezes a pensar se não haverá qualquer coisa de inato no gosto pela leitura, qualquer coisa não transmissível pelo outro nem passível de ser aprendido. Lembro-me por exemplo da minha afilhada que, em pequena, detestava tudo o que fosse actividade física e estava constantemente a ler, a ponto de, quando não tinha nenhum livro novo, reler os antigos e dizer que descobria neles sempre coisas em que não tinha reparado da primeira vez. A mãe contava que, se lhe dessem um papel para a mão, ela o lia obsessivamente até ao fim, tratasse-se de um folheto publicitário, de uma receita médica ou da lista de compras do supermercado. E nem se pode dizer que fosse uma menina típica de letras, pois, chegada a hora de escolher a área de ensino, até se viu obrigada a mudar de escola e deixar os colegas por ter optado por Artes, pensando seguir Design ou Arquitectura. Por outro lado, sei de pessoas que foram parar à edição por amor aos livros, oriundas de famílias que não liam nada. Talvez o bichinho dos livros morda alguns mesmo antes de saberem ler e a nossa insistência com outros para que experimentem não dê em nada por não terem dentro o veneno necessário.

Comentários

  1. Penso que as hipóteses que avançou são válidas.
    Infelizmente, no meu caso, descobri tarde a literatura, aos 32, porque precisei de me ocupar numa viagem de comboio. Concordo que tem de haver um livro, "o tal", que nos desperta para o vício, pelo menos quando esse hábito não vem de pequenino. Comigo foram dois, "os tais". O Que Diz Molero, de Dinis Machado e Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes. Ambos despertaram-me para o carácter plástico e expressivo da linguagem; a forma como o que se diz/escreve pode ser moldado; o desdobramento de planos de Lobo Antunes; o imaginário misturado com a realidade quotidiana de Dinis Machado... e por aí adiante.
    Um vício.

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  2. É um mistério, sem dúvida. Embora partilhe da opinião que o gosto pela leitura é inato, reconheço que um meio estimulante pode potenciar esse gosto.
    Revejo-me muito nessa sua afilhada: sempre li obsessivamente tudo o que me aparecia à frente. Embora os meus pais não lessem regularmente, sempre houve um ou dois jornais diários, revistas, enciclopédias, alguma ficção (pouca), e...o Circulo de Leitores que, teve um papel fundamental em muitas casas do nosso país. Na minha teve, seguramente. No entanto nenhuma das minhas irmãs partilha dessa minha paixão. Apesar do acesso aos livros ter sido o mesmo e até de serem ambas de letras, e eu de ciências. Por isso, estou convicta que há muito de inato.
    Acho muito curioso o que diz sobre a existência de um livro responsável pelo tal clique. Confesso que nunca tinha pensado nisso, mas faz-me muito sentido. Se bem que não consiga identificar tal livro e desconfio que, a existir, terá exercido o seu fascínio através das gravuras pois conta a minha mãe que , ainda nem eu sabia ler, adorava ir para o quintal, sentar-me a "ler" em voz alta e que até virava as páginas exactamente quando devia:). Acho que fui mordida mesmo antes de saber ler:)
    Pelo contrário, a minha filha, que nasceu e vive rodeada por livros e que sempre me viu ler, não o faz tanto quanto seria expectável. Se calhar ainda não encontrou o tal livro. Ou ainda não tenha sido mordida. Quem sabe?

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  3. Conheço grandes e bons leitores nados e criados em famílias analfabetas. No entanto, aos pais analfabetos o que lhes faltava era a "técnica", porque tinham em si a "fome" de imaginário que se mata na leitura. Mostrar, dar tempo e espaço a esta "coisa", a este gosto e interesse por sermos nós capazes e necessários para "ver, sentir e inventar" a partir das palavras é fazer leitores. Enquanto crescemos. E, às vezes, nem se começa com livros, mas sempre, sim, com o poder misterioso das palavras.

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  4. Não sei, onde começa o sorriso
    e termina o paraíso!
    Não sei, se ler é juízo...

    Mas, da causa o pequenino
    dá-nos asas
    voam-se anos, abrasa-nos
    é cor, é core.
    Dá sua forma
    são as letras, asas que brasas!
    Ler é amor.

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    1. "dá-nos asas / voam-se anos, abrasa-nos": gosto disto!

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  5. Sim e não, não e sim. Nasci numa casa abastada em livros, mas só comecei a ler seriamente já adulto e sempre em crescendo, tendo desperdiçado a juventude em cervejolas e noites mal dormidas. Da descendência, aquela a quem mais atenção dediquei desse ponto de vista (a primeira, é bom de imaginar: o Bolinhas, a Anita,... lidos e relidos até à náusea) tornou-se leitora furiosa, mas a seguinte nem tanto, porque foi mais deixada ao Deus dará. Mas os livros estão aí, à disposição.

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    1. António Luiz Pacheco12 de janeiro de 2012 às 04:28

      Interessante este tema. Creio que todas as hipóteses são válidas sim... e a leitura é como tudo o mais em nós, uma paixão que pode despertar a qualquer momento ou nunca...
      Há pessoas que não lêem ou desenvolvem determinados gostos e actividades por pura falta de oportunidade... e nem o sabem se calhar!
      Conheço casos assim e alguns bem tardios... sei da mãe de uma amigo que começou a pintar (e bem) depois de enviuvar e com quase 70 anos!
      E pessoas que depois de reformadas se dedicaram a estudos como história da arte, antropologia , astronomia... para que nunca tinham tido tempo nem oportunidade.

      Sobre a questão do começar a ler tarde... tenho a idéia de que acontece quando tem de acontecer! E não deve ser visto como tempo perdido o que se dedicou a outras coisas, pois quem sabe as noitadas e cervejolas até ajudaram a criar a sensibilidade e necessidade da leitura...
      É que há ler (jornais, revistas, livros) e LER (jornais, revistas, livros)... ou seja os que lêem para ocupar tempo e por acaso e os que lêem para LER portanto com a finalidade espiritual e mística da leitura.

      Creio que aí está a diferença. E esta mística pode surgir em qualquer idade ou ocasião, ou fazer parte de nós, ter até sido inculcada pelo ambiente familiar, social, laboral, político..

      A leitura é como a religião, assim para o dogmático... parece-me. Sente-se, pratica-se e não se explica.

      Saudações do campo

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    2. Como podem imaginar , dada a similitude do nome, fui inundada, na minha infância, com os livros da Anita. Que adorava, confesso! Li-os até à exaustão. Tanto que, ainda hoje, sei de cor partes de alguns livros. Juro:)))
      Mais tarde devorei os livros da Enyd Blyton , particularmente as coleções dos colégios internos. O meu maior sonho era que os meus pais me pusessem num colégio interno. Felizmente nunca me deram ouvidos...Achava que eram mesmo como os de Stª Clara (Gémeas) e o das Quatro Torres ( Diana).:))). Claro que , mal soube da reedição da coleção das Gémeas, corri a comprá-los para a minha filha. Não imaginam o prazer que tive em lê-los para ela. E recordava-me de imensos pormenores.
      Por isso partilho da opinião do nosso amigo António Luís Pacheco: é muito bom recordar!

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    3. Ana, estava a ler o seu texto e parecia que tinha sido escrito por mim... poucos livros ( e o que eu li, hoje menos, ai a Net) exerceram em mim tanto fascínio como os da Enid Blyton.

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  6. haverá mais que uma circunstância para nos tornarmos leitores.

    a existência de livros em casa e as histórias que contamos (aos filhos), não é um factor só por si determinante.

    digo isto porque noto que a minha de sete anos gosta mais de livros que o meu filho de treze (e faz uma coisa que o meu filho nunca fez, levanta livros para ler da biblioteca da escola...) e além de termos muitos livros em casa, lemos muitas histórias para "acordar"...

    achei curioso o primeiro comentário, porque também foi o comboio que me devolveu aos livros. dava aulas em Vila Franca de Xira e as viagens de comboio (mais de 45 minutos, com paragens em todas as estações e apeadeiros, fez com que voltasse a ler muito (cheguei a ler mais quarenta livros por mês...) e fosse o maior cliente da biblioteca da escola (lembro-me que devorei tudo o que havia de Camilo, Aquilino, Hemingway e Steinbeck)

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    1. queria dizer por ano, e não por mês (leitura de livros). :)

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    2. Bolas! A primeira coisa que pensei, ao ler 40 livros por mês, foi: "este gajo deve ser funcionário do Estado: está desempregado." E fiquei com inveja pela disponibilidade.

      (Só não coloco uns smiles porque parece-me que são um factor que torna o leitor preguiçoso na captação do tom do texto.)

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    3. pois, Vitor, não teria tempo para fazer mais nada, a não ser que lesse só livros com menos de cinquenta páginas. :))

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  7. Eu também queria ir para um colégio interno pelo mesmo motivo da leitora anterior!!!
    Um pouco mais tarde, talvez aos 10 ou 11 anos li "Anne Franck" e "Rosinha, minha canoa" de José Mauro de Vasconcelos que ficaram gravados na minha memória. Ficou o vício, por isso, esperava pela visita da biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian que passava ali por terras do Ribatejo (saudações ao Amigo Pacheco), era uma alegria! Ainda hoje se não tiver um livro para ler, sinto uma "falta", posso até nem o folhear nesse dia, mas tenho de saber que está lá .

    Isabel

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  8. Obviamente que não existe "bichinho" inato para literatura, quanto muito existe um predisposição genética que confere uma maior atenção e capacidade de concentração. Admito que os hábitos de pais e amigos possam ter um papel de alguma relevância, mas, acima de tudo, acredito (e por acredito quero dizer que tenho a certeza, como aliás é meu apanágio) que é o livro o principal responsável. Se forem pessoas de tacto e lerem todos os meus posts no blog, já com certeza se depararam com a noção de livro de "desbrave", aquele livro que abriu a porta a todos os outros. Os primeiros livros podem fazer ou desfazer o futuro leitor. Apresentassem-me o Gargântua com catorze anos e talvez nunca chegasse a apaixonar-me por literatura (hoje adoro o Gargântua). É fundamental misturar uma qualquer paixão exterior com os conteúdos dos primeiros livros, é dessa fusão que nasce o desvelo. Peguem nas mais belas histórias infantis e concluam por vocês próprios, ou melhor, ouçam-me discorrer e concluam por mim: o herói é quase sempre uma criança ou um animal (ser amiúde listado entre os predilectos da criançada i.e. cão, gato, dinossauro, etc...), as acções são coloridas, animadas, enérgicas, próprias dos momentos que lhes conferem as maiores alegrias, os maus são velhos, nunca outras crianças. O menino identifica-se, como o jovem se identifica com o Harry Potter ou com aquele vampiro do Twilight. Eu, através de Steinbeck, vi o meu mundo descrito por um génio, na sua linguagem própria, com o seu cunho inconfundível. Fosse eu mineiro e ficaria encantado com Zola, adepto de genealogias e amaria De Vigny, fã de tempos idos em que imperavam conceitos de honra e perigavam donzelas, e não passaria sem Walter Scott.

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  9. Segundo Steven Levitt no seu "Freakonomics" tem mais gosto pela leitura quem tem mais livros em casa. Pormenor bizarro: basta ter, não é preciso ter lido. Já se sabe que este autor gosta de provar estatistcamente factos contra intuitivos.

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    1. Isso não é um bocado como o ovo e a galinha?

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  10. Muito há a dizer sobre a receita para se ser Leitor. Tentarei não me alongar.
    Se a leitura pode ser um vício, viciemos as crianças desde o berço. Um dos comentadores falou em religião: não é fácil mudar de religião a meio da vida, assim como não é fácil mudar comportamentos a meio da vida. Agora, se os ganharmos desde cedo, a conversa é outra. Mas a origem do problema não reside em quem não lê e sim em quem não garante as condições para a leitura. Quando não se dá peixe a um garoto porque ele diz que não gosta, a nossa insistência tem que ser maior que a dele, caso contrário, será um adulto que não come peixe.
    Trabalhei anos em colégios e infantários e, posteriormente, em Bibliotecas Públicas e tive o prazer de inaugurar uma Bebeteca em 1998, integrada numa Biblioteca Municipal. O executivo da Câmara chamava-me doida com todas as letras perante a ideia. Fizemos uma prospecção em Inglaterra, à volta de 2006, se bem me lembro e quando constataram que as Bebetecas existiam, como os cafés aqui em Portugal, com parques de estacionamento para carrinhos de bebés e tudo, lá aceitaram e a coisa fez-se. Foi, e continua a ser um sucesso e existem várias em Portugal.
    Porém, da experiência com a gaiatada, com um filho, e vários sobrinhos, verifico resultados diferentes, ainda que os ‘casos de sucesso’ tenham resultado de condições iguais, a saber:
    Acredito piamente que para criar um leitor há que lhe mostrar primeiro que os sonhos podem ser sólidos, podem materializar-se. O que dá muito trabalho…
    Sim, têm que existir livros à sua volta.
    Tem que se ler em voz alta, desde bebés, (com vozes diferentes pois uma árvore não fala da mesma forma que um garoto!) e tem que se fazer acreditar que aquelas vozes, aquelas figuras e personagens, vivem dentro dos livros e só estão à espera que nós saibamos ler para os podermos tirar de lá e, atrevo-me a dizer, sermos amigos.
    Temos que ter a capacidade de mostrar os mundos que se guardam na estante por cima da cama, ali ao alcance da mão. Temos que viciar os miúdos, dar-lhes a fome e matá-la.
    É claro que 99% das pessoas chega a casa e dá mais atenção ao jantar que não está feito e, para despachar, pede aos miúdos que se entretenham a ver televisão ou a jogar no computador: e que tal pedir a leitura duma história enquanto estão de volta do fogão? Se a criança não sabe ler não faz mal, o livro terá imagens e a construção da história será ao sabor da imaginação da criança. Isto é só um exemplo duma longa lista, longa lista essa que dá trabalho, sim, e esse é que ninguém parece querer agarrar.

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    1. António Luiz Pacheco13 de janeiro de 2012 às 03:46

      Excelente análise a sua minha cara Areia, e se me permite, interessantíssima a sua experiência.

      No meu caso, se bem que nunca pensasse nisso, sou sem dúvida um leitor-genético , tive desde sempre contactos com as letras e pessoas das letras! Lia-se, escrevia-se, declamava-se e havia muitos livros cá em casa... sobretudo daqueles grandes com gravuras e imagens que me faziam passar horas de volta deles... e a desejar poder ler aquelas coisas... não quis nunca andar em colégios, mas em compensação imaginava e fazia listas de provisões e equipamento para expedições... coisa que mais tarde se veio de facto a concretizar...
      O meu filho, pese embora ter pai e mãe que lêem perde mais as noites nas cervejolas... por enquanto, mas espero que se revele... já anda a ler alguma coisa - agora descobriu o D. Camilo.
      É pelo lado do humor que lá vai chegar, depois de se rebolar com Tom Sharpe ...
      Tenho uma sobrinha de 12 anos, que vive em casa de pais que não lêem nem têm livros... o meu cunhado que é engenheiro mecânico só lê no avião e relatórios, a minha irmã é estilo Paulo Coelho porque é moda... os garotos têm vivido uma vida de mudanças, Bruxelas-Londres-Parede-Miami , mas entre estas alterações da sua vida e escola, a Terezinha , que fala pelos cotovelos à boa moda do nosso ramo materno Abreu, aos 10 anos já escreveu um livro e tudo!
      Aliás está encadernado e guardado na estante dos livros infantis... confesso que é a minha maior esperança!

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    2. António, o seu comentário fez-me visitar memórias... a minha avó contava-nos histórias e, por norma, algures na narrativa ela dizia: 'e ele lá foi correr mundo'. E eu perguntava porque eram sempre os homens que iam correr mundo? Eu estava muito mais preparada para o fazer que qualquer dos meus primos: primeiro, queria fazê-lo!, segundo, tinha bússolas, mapas, mochilas, tudo, e terceiro... sabia que havia um mundo para correr. Comecei a viajar tarde, embora agora não me possa queixar muito, mas sempre o fiz através dos livros, que é isso que são em primeiro lugar, bilhetes de primeira classe para viajar.

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  11. Gostei muito de ler estes comentários, mas há um aspecto que não focaram: o desprezo que alguns adultos têm/mostram por livros infantis. Aconteceu isso comigo, infelizmente! Principalmente, o meu pai sempre desprezou livros infantis e não nos comprava nenhum. Achava que devíamos ler livros "a sério", mas é claro que uma criança dos 6 aos 10 anos, pelo menos, não compreende os livros dos adultos. Foi pena os meus pais não nos estimularem na leitura, nem sequer aproveitaram o facto de terem uma filha que começou a ler antes de fazer 5 anos!

    Claro que acabávamos (eu e o meu irmão) por ter alguns livros infantis, que familiares nos ofereciam, nos aniversários, ou no Natal. E também adorávamos ler a banda desenhada do Mickey e do Tio Patinhas. Mas o que nós ouvíamos do meu pai, quando líamos essas histórias: que não serviam para nada, que não ensinavam nada! Sinceramente! Em vez de nos elogiar... E era ele professor do ensino primário!

    Por isso, demorei a adquirir hábitos de leitura. Valeu-me casar com quem casei. O meu marido sempre teve livros para dar e vender. E o mundo dos livros tanto me agradou, que já escrevi e publiquei três :)

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  12. Vicente Lopes Saudade13 de janeiro de 2012 às 08:27

    Concordo com alguém que disse que se começa com "o poder misterioso das palavras". Comigo foi assim. Mas foi também pelo medo. Eu explico.
    A minha avó, uma senhora já muito idosa, que mal podia caminhar, sentava-se todas as tardes na mesma pedra da eira, a aproveitar alguns minutos de sol. Eu também por lá andava mas, como é óbvio, não tinha paciência para estar ali majestosamente a respirar o ar puro da serra. Era um traquinas e nunca parava quieto. E como, no principio da minha meninice, não tinha ninguém com quem brincar passava os dias sozinho com brinquedos ou, ora com a mãezita ora com a avó.
    E essa avó, sagaz como poucas, tinha uma táctica para manter a minha rédea curta: contava que andava lobo por perto. Ora, eu olhava em volta e só via a casa, os campos, o riacho e os montes. O que saltava à vista eram as árvores esguias dos montes, com os seus perfis e sombreados muito assustadores para uma criança inocente. E eu sabia que algures por lá, andava o lobo que, a qualquer momento, poderia chegar-se até mim...por isso ficava sempre por perto. São as minhas primeiras recordações de vida.

    Mais tarde, depois de aprender a ler, devora banda desenhada que o meu padrinho me oferecia. Era isso e os legos (sim, eu já sou do tempo dos legos). Mickey, Tio Patinhas, Tintim, etc. Creio que foi por aí que tudo começou.

    Vejam o caso do Lobo Antunes:

    http://www.youtube.com/watch?v=1x5sDCEOG6A

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  13. Tão interessante este tema, e estas memórias! Eu tinha livros em casa e a minha mãe (sobretudo) sempre leu muito, mas curiosamente não me lembro dos meus pais nos motivarem muito para a leitura. Acho que o liceu motivou muito mais (andei no liceu francês, que tinha naquele tempo bibliotecas muito apelativas em todas as salas até aos 10 anos e uma grande biblioteca para os mais velhos, e todos os anos dedicávamos muito tempo das aulas de francês a estudar livros que eu adorava – ao contrário, confesso não sem tristeza, dos livros que se estudavam nas aulas de português, poucos, muito pouco interessantes e dados muito pela rama).
    Identifico-me com vários comentários – comecei pela Anita, por exemplo, também me lembro sobretudo de várias capas, que achava lindas de tão coloridas e brilhantes, mas o livro que me deu o clique foi o primeiro que me lembro de ler inteiro e sozinha sem ter essencialmente imagens: o primeiro livro dos Cinco, da Enid Blyton. Lembro-me que tinha 8 ou 9 anos e tinha ido arrancar um dente ao dentista perto de casa, e que no regresso a pé, passámos pela “Loja da Esquina” para a minha mãe me oferecer um livro como miminho pelo desconforto. Eu queria um livro mais infantil mas a dona da loja (lembro-me como se fosse hoje, e já lá vão 35 anos) convenceu a minha mãe que aquele livro é que era, e eu, tímida como era, saí de lá com o livro mas não convencida. E depois, foi um deslumbramento, nem sei hoje explicar porquê. Devorei de seguida toda a colecção, e todos os outros livros da Enid Blyton, lembro-me que era só o que pedia nos anos e Natal a toda a minha família e que me isolava no escritório pouco usado do meu pai com um prato de bolachas, para que o barulho de uma família grande com 4 irmãos não perturbasse a minha longa leitura.
    Mas também me lembro do meu irmão, um ano mais velho, estar a aprender a ler na escola e eu pedir aos meus pais, que liam com ele, que me ensinassem também a ler – não queria ter que esperar mais um ano que chegasse a minha vez! Era muito pequena mas lembro-me bem.
    A minha irmã também lê tanto como eu, e aconselhamo-nos leituras e trocamos livros, mas os meus dois irmãos (que curiosamente, ao contrário das duas raparigas, saíram muito cedo do liceu francês) não pegaram o “bichinho”.
    Acho assim que o ambiente que nos rodeia ajuda a despoletar o processo, mas o” bichinho”, quando é forte, tem que nascer connosco.
    Claro que, entre tantos outros, li todos os meus velhos livros dos Cinco e dos Sete aos meus dois filhos quando eram pequenos, antes de dormirem, e sempre lhes passei o meu entusiasmo pelos livros. O mais velho, agora com 15, lê e gosta, o mais novo, com 12, ainda nem tanto, mas acredito que estão ambos no bom caminho (o mais velho com 7/8 anos já lia as legendas da televisão, de um filme inteiro, em voz alta, para o mais novo perceber o que se estava a passar).

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