Companheira de luxo

Um dos segredos do sucesso das já famosas Correntes d’Escritas é a mescla de africanos, europeus e latino-americanos: os europeus – mais frios e contidos – dissolvem-se na quentura dos outros e, facilmente, perdem as peneiras  e a sobranceria de pertencerem ao Velho Continente. Quem lá vai, pois claro, diverte-se bastante e não raro ouve coisas imensamente divertidas como aquela história da tabuleta num prédio de Luanda que um dia Ondjaki contou que dizia: “Morais & Herdeiros (excepto o Rui).” Coitado do Rui, que devia ter sido deserdado... Este ano, foi a vez de o angolano Manuel Rui nos ter feito rir com uma das suas. Para quem não sabe, o transporte entre o hotel e o local onde se realizam as mesas-redondas faz-se de autocarro, e toda a gente se senta no primeiro banco que encontra livre, porque, como muita gente acaba por se juntar à trupe de escritores, os assentos por vezes não chegam para os convidados. No fim de uma dessas viagens, Manuel Rui virou-se para o editor Carlos da Veiga Ferreira e disse-lhe com ar sério: “Passa para cá cem dólares. Vieste a falar com a minha mulher.”

Comentários

  1. António Luiz Pacheco25 de março de 2011 às 02:51

    A necessidade aguça o engenho... é uma das maiores verdades que se pode aplicar a África ou à América latina, pobres. O que conheço...

    Há toda um ciência, ou cultura, desses reclames onde se anunciam as coisas mais espantosas da forma mais incrível... vale a pena dar uma volta pelos bairros populares ou pobres e ver como se anunciam os cabeleireiros, oficinas e outras iniciativas, normalmente de quintal.
    Muitas vezes acompanhadas de pinturas murais que são um mimo da pintura naif

    No Sumbe é lapidar a famosa: "Marcenaria e Estufaria Mata Cobra Mostra o Pau" !

    A meio caminho de Benguela está escrito na parede de uma ponte: "É muito proibido passar com a cara muito estranha"...

    Mas dos mais espantosos que já vi, conta-se este cartaz escrito à mão e a cores que não resisto a copiar, afixado numa montra em Pemba :

    Mister Praia - Iª Fase

    Alô malta jovem!
    Curtição no wimbe é bwé
    grande.
    Domingo é o nosso dia do julgamento; e é desta vez que os nossos grandes homens pensaram em mostrar o seu belo corpo a toda a camada juvenil.
    Não perca! venha ver que
    m será o damo nigaz da ta-
    rde.
    (entrada 15 000 mts)
    contacto Keta
    Quem faltar está reprovado na life.
    Muita mix novidade
    do
    D.J. RADICAL

    Um espanto, mas também um exemplo de empreendedorismo! Enfim só para quem aprecia e entende...

    Tenham um bom fim de semana!

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  2. Não resisto e peço licença para dar o meu contributo para a causa da Letreiratura ".
    Trata-se de um exemplo de letreiro que, por pragmático, eficaz, não tem a ingenuidade, e por isso não transporta a poesia que se encontra nos citados nos comentários anteriores.
    Ainda assim, tal como um bom texto literário, vale pelo que exprime da singular personalidade do seu autor. É, por isso, um bom letreiro, com lugar na antologia.
    Pelos anos 60, a estrada da minha adolescência era a EN109 . Um velho barracão que existia algures entre a Figueira da Foz e Leiria foi restaurado pelo dono, que colocou sobre a porta voltada para a rua o letreiro "ALUGA-SE".
    Depressa foi alugado por um mecânico, que logo se instalou e começou a trabalhar - reparação de máquinas, motores de rega, etc.
    Cada vez mais serviço, não tinha mãos a medir. Nem retirou o letreiro.
    Era constantemente interrompido por pessoas que queriam alugar, parava o trabalho para as atender, não raro cinco, seis vezes por dia. E ele com tanto que fazer.
    Começava a faltar-lhe a paciência.
    Até que chegou o dia: não aturava mais aquilo.
    Um domingo de manhã, depois de vir da missa, pegou num balde de tinta e um pincel, encostou uma escada, e foi lá acima tapar as antigas letras e escrever, em tamanho maior: "JÁ SE ALUGOU".

    J. Jordão, Amarante

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    1. António Luiz Pacheco25 de março de 2011 às 07:59

      Ah!Ah!Ah!
      Fabuloso!

      O que há de atractivo na "letreiratura", às vezes é mais a atitude do que o texto. Como neste
      caso!

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  3. Oh...quem me dera ser onda!
    (uma das coisas mais divertidas e bonitas que já li)

    Só um angolano, ou pelo menos meio angolando poderia dizer uma frase dessas...é um belo retrato do país :))))

    ~CC~

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  4. Não há europeus alegres e africanos tristes? Ai os estereótipos!

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