As maravilhas do subúrbio

Conheço Pedro Vieira como bloguista, sobretudo no Irmão Lúcia, onde nos delicia com um humor que faz inveja a qualquer um – e agora também como apresentador de um programa sobre livros no Canal Q, que dá pelo nome Ah, a Literatura! Mas ele é também escritor e acaba de publicar o seu primeiro romance, curiosamente intitulado Última Paragem: Massamá. Dele, disse Pedro Mexia numa crítica recentemente publicada que era um bom livro, mas um mau romance. Não iria tão longe, embora perceba perfeitamente o que está por detrás dessa afirmação. Pedro Vieira talvez tenha desperdiçado as suas muitas qualidades numa história que me pareceu ligeiramente ultrapassada e faria mais sentido há dez ou quinze anos; porque ele é francamente inteligente (não teria o humor que tem se o não fosse), de uma perspicácia invulgar (e o subúrbio é, para alguém assim, uma vítima perfeita), corrosivo quanto baste e, além disso, evidentemente culto. E, mais ainda, percebe-se que sabe muito bem o que é escrever um livro, sem soluços, sem palha e com grande domínio da estrutura. Eu gostei deste, mesmo assim, mas agora fico à espera do seguinte, que vai ser – tenho a certeza – ainda melhor.

Comentários

  1. Este Pedro Vieira é o "Pedro Almeida Vieira"? ando às voltas com os Nove mil passos e até agora não me convencem...

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    1. Não, esse é autor de romances históricos e já tem vários livros.

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  2. O que mais me fascinou na leitura desta Última Paragem: Massamá foi sentir a cada palavra, a cada frase, a cada respiro, a certeza de que há ali um potencial enorme e portanto esta não será, para o Pedro Vieira, a Última Paragem na ficção. Quanto à crítica de Pedro Mexia, que também li, interpretei-a como um desafio ao seu homónimo para que ouse mais em futuro livro, que aguardo com muita expectativa mas também com paciência. O grande romance do Pedro Vieira há-de chegar. Unhas não lhe faltam.

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  3. António Luiz Pacheco22 de março de 2011 às 07:49

    Soube com expectativa do referido livro.
    Nada sabia sobre Pedro Vieira, excepto que é bastante jovem.

    Parece retratar uma certa categoria ou franja da nossa gente (os portugueses, povo ímpar na sua vivacidade multicultural e multicolorida). Tanto o tema como o meio, parece-me que tem merecido menos atenção por parte dos autores actuais e contemporâneos, sempre mais virados para o estrangeiro e as modas ou com preocupações de cultura elevada... e menos virados para esse dia-a-dia que um observador atento encontra nos comboios e nos cafés das estações e arredores.
    Há uma forte tendência urbanita, o rural quando se aborda é sempre o do antes-25-de-Abril e que se imagina, raramente o real. O suburbano, esse é mesmo ignorado, raramente tratado. Talvez porque quem podia escrever sobre ele, quer é fugir dele...

    Interesso-me bastante por tudo o que sejam estes temas, que considero antropologia cultural e testemunho sociológico, onde muitas vezes se aprende mais do quem em artigos e obras académicas...

    Lembro-me apenas vagamente de um ou outro autor, jovem ou antigo-jovem que nos últimos 30 anos escrevesse sobre essa juventude e os ambientes socialmente mais marginais (não no sentido policial!). São muitas vezes testemunho na primeira pessoa, de casos ou vidas reais, fantasiadas, romanceadas mas genuínas e não raro interessantes! Sobretudo do ponto de vista humano. O último que recordo é o "Noves fora nada" de Nuno Tonelo, interessante na óprica que refiro, abstendo-me de comentar a parte literária, por ignorância pura.

    Mas claro isto sou eu a discorrer... e a alargar-me incorrigivelmente , espero que não a estragar o ambiente...

    Li a mesma crítica de Pedro Mexia, e de facto creio que o que ele diz é em parte isto mesmo que eu referi. Um testemunho na primeira pessoa de uma realidade que o autor conhece e é a sua, como observador atento e competente!
    Naturalmente pela sua juventude terá limitações quer no que tem para dizer quer na interpretação que faz e que será sempre a de um jovem e por isso inexperiente.

    Vou ler!

    Cumprimentos e ainda bem que voltou!

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  4. Com todo o respeito, este seu comentário é uma decepção, tendo em conta o livro de que se fala. A falta de exigência que demonstra deixa-me a pensar.
    Será assim em todo o lado? Este mau livro se não tivesse sido escrito por quem foi teria direito a estas bondosas palavras suas?
    Repete-se a história trágica do nacional-porreirismo também aqui.
    Enfim.

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  5. Também sou seguidora do blogue do Pedro Vieira e aprecio o seu humor. Ainda não li o romance, mas, depois de ler este seu post, não resisto a perguntar:
    se tivesse recebido este original, de um ilustre desconhecido, tê-lo-ia aceite, ou recusado?

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  6. Bem... A crise, a angústia e os atropelos que vivemos hoje...parce que voltámos quinze ou vinte anos atrás...

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  7. Cara Maria do Rosário Pedreira,

    agradeço-lhe a referência para distinguir eventuais confusões entre mim e o meu homónimo Pedro Vieira, embora a questão «esse é autor de romances históricos» nos levasse a uma longa e interessante discussão.

    Nem eu me dediquei nem me vou dedicar em exclusivo ao romance com incidências históricas, nem me parece que a época ou cenário escolhidos para um romance caracterize um escritor.

    Aliás, se porventura ler os meus romances reparará que uso a História para, contando uma história, abordar e caracterizar questões humanas (penso que é isto que se faz nos romances). E além disto, o meu último romance (Corja Maldita) acaba mesmo por subverter completamente o género histórico.

    Em suma, aceito que me diga que sou mau romancista, mas por favor não diga que sou «autor de romances históricos», porque dá a entender que um autor de romances históricos não tem «categoria» para ser romancista (mesmo que mau).

    Infelizmente, cada vez mais na nossa actual intelligentzia livreira vejo um certo engulho em relação ao romance do género histórico, esquecendo talvez que Camilo, Mário de Carvalho, Mário Cláudio, Miguel Real e, helas, o nosso Nobel, Saramago (só para citar alguns, muito poucos..), usaram (e bem) este género para se cimentarem nas nossas letras. E já nem falo na literatura internacional...

    Abraço :)

    Pedro Almeida Vieira

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    1. fernando b. figueiredo23 de março de 2011 às 05:10

      'Corja Maldita': muito bom. Recomendo vivamente!

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    2. Confirmo. Na literatura estrangeira, o romance histórico está bem e recomenda-se.

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    3. Gerou-se aqui uma sequência de comentários menos feliz, que faz lembrar as piadas dos antigos filmes portugueses, baseadas nos trocadilhos de palavras. Na verdade, eu respondi directamente ao Pedro Almeida Vieira, nomeadamente, à sua frase: "E já nem falo na literatura internacional..."

      Quando cliquei para responder, ainda lá não estava o comentário do fernando figueiredo (que foi publicado apenas 4 minutos antes do meu).

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  8. já percebi, é um livro simpático, interessante, etc.

    mas é apenas uma espécie de romance.

    se ele não se chamasse Pedro Vieira e não fizesse uns bonecos giros, tornava-se mais fácil dizer o que realmente pensam do livro.

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  9. Eu comecei a ler o livro e de facto o Pedro tem muita piada na forma como escreve. Infelizmente, o ritmo é mesmo o de blog, fica-se cansado depois de duas ou três páginas, muita piada por linha, muitos comentários longos que fogem do texto e no final parece mais um exercício do que um livro bem estruturado. É um autor que promete, mas para já deixa muito a desejar.

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  10. Cair em graça quando já se é engraçado... assim é fácil levar projectos a bom porto.

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