Bonecas russas

No Mindelo, aonde fui há dias para o lançamento do romance O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa (na capital tivemos o Primeiro-Ministro e tudo!), apareceu no hotel para ver o escritor uma rapariga muito simpática com uma menina ensonada pela mão. Tratava-se de uma jovem actriz que tinha entrado dois anos antes numa peça da autoria do romancista, intitulada Sozinha no Palco. Quando quisemos saber sobre o que versava esse texto, Mário Lúcio contou-nos que era a história de uma empregada doméstica; e explicou a seguir que, em Cabo Verde, absolutamente toda a gente tem empregada doméstica, mesmo... pois, as empregadas domésticas! A que trabalha, por exemplo, na Embaixada de Portugal na Cidade da Praia tem de ter alguém que lhe limpe a casa enquanto está fora de casa, certo? Enfim... um esquema que me fez pensar em bonecas russas. Bem, mas o que importa agora referir é que, na dita peça, a protagonista é uma empregada doméstica analfabeta que tem um patrão duro e agressivo. Um dia, quando a deixam finalmente entrar na sala principal da casa para limpar as grandes estantes cheias de livros, tira logo a seguinte conclusão: «Poxa, por isso é que eu nunca aprendi a ler, patrão é tão bruto!»

Comentários

  1. Um bom tema de reflexão, abordado por Mário Lúcio Sousa, nessa peça: o facto de o elevado nível cultural de certas pessoas não as impedir de serem duras, agressivas, intolerantes, até racistas.

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco18 de março de 2011 às 17:09

      Pois não só concordo inteiramente, como vou mais longe:
      A maioria das pessoas que conheço, que são mais cultas ou de algum modo desenvolvidas,
      são de um modo geral e por uma razão de superioridade que logo assumem, "duras, agressivas, intolerantes ".
      Políticos, literatos, académicos, professores universitários, intelectuais, jornalistas... acabam todos por ser assim, parece ser uma escola! E às vezes piores do que "até racistas", são elitistas!

      Um bom fim de semana com Sol, espera-se... e que nos aqueça e ilumine(ilumie se diz aqui no Bairro) a todos!

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  2. O meu nome é Elisabete e escrevo no blog Didascália. Gostaria apenas de deixar uma palavra de apreço pela sua escrita, muito em particular os poemas belíssimos que tantas vezes me enchem os dias. Poder dizê-lo é, já de si, um enorme privilégio.

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  3. Um bom tema de reflexão, sem dúvida, tendo em conta que não estamos no tempo do Cabo Verde "da sociedade escravocrata ", de António Carreira.

    Já pensaram que poderá ser apenas uma relação de trabalho, oferta/procura, fruto das condições económicas locais? E sem o encadeamento bizarro que o texto sugere?

    Cá em Portugal também temos trabalho doméstico, por sinal, regulado por lei. Para quem pode, há sempre uma empregada doméstica, a tempo inteiro, muitas vezes cabo-verdiana e não poucas vezes tratada com um certo paternalismo. Quem não pode, tem pelo menos uma mulher a dias que é referida em conversa como: "a minha mulher a dias".

    Talvez coordenadas geográficas diferentes nos façam ver com outros olhos aquilo que não é tão diferente e exótico como à primeira parece.

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