Contos: sim ou não?

No mundo editorial, diz-se amiúde que os contos são difíceis de publicar, em primeiro lugar porque os livreiros não gostam de livros de contos e compram poucos exemplares, em segundo lugar porque as pessoas não gostam de ler contos. Duvido (embora, como editora, admita que é muito difícil encontrar um livro de contos de um novo autor que seja profundamente equilibrado). Em todo o caso, há contos que li que nunca esquecerei (tantos como romances, estou convencida) e, num livro de D. H. Lawrence que a Assírio e Alvim publicou há uns anos – Amor no Feno e Outros Contos –, havia duas preciosidades inesquecíveis: O Homem Que Amava as Ilhas e O Homem Que Morreu. O primeiro, para abreviar, é o retrato de um homem destinado à solidão; o segundo, uma abordagem muito interessante da figura de Cristo ressuscitado (esse homem que morreu). Se gosta de contos e encontrar ainda o livro, não dará seguramente o tempo por perdido.

Comentários

  1. Contudo, entendo que as antologias de contos, com vários autores, são muito interessantes, principalmente se tiverem associados a uma temática.

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  2. É sem dúvida um género pouco popular. Pena. Das minhas horas de leitura, algumas das mais marcantes foram passadas a ler contos.

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  3. É uma pena que a revista Ficções tenha acabado. Aguardava cada edição com ansiedade. Faltam-me 3 números e como estão esgotados talvez já nunca os venha a ter... E como estão esgotados, venderam e bem.

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  4. «O Homem que Morreu» de D. H. L. foi uma das leituras-choque da minha pouca idade.

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  5. De facto é pena que exista essa resistência à publicação de livros de contos. Com tanta gente que se queixa de falta de tempo para ler (ainda que seja apenas uma desculpa), poderia ser uma boa alternativa aos romances de 500 páginas e escasso conteúdo. Penso em particular nos grandes autores que se dedicaram quase exclusivamente ao conto: Calvino, Carver, Cortázar, Onetti, Monterroso e tantos outros.

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  6. Os livreiros não gostam de contos? Olha que essa de culpar os livreiros... ;))))

    Eu adoro contos, de Machado de Assis então...

    Jaime Bulhosa

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  7. sim, também pensei no fantástico Machado de Assis e naquela edição em dois volumes, n'«O alienista» e em tantos outros... há uma cena a queimar um ratinho que é das mais estranhas na literatura, uma coisa suberba e incómoda...

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  8. Agora a falar sério, e não me leves a mal, não entendo porque é que se diz, amiúde entre os editores «[…] que os contos são difíceis de publicar, em primeiro lugar porque os livreiros não gostam de livros de contos e compram poucos exemplares, em segundo lugar porque as pessoas não gostam de ler contos. » Não haverá aqui uma inversão na lógica, dando talvez, inadvertidamente, a ideia de que se quer sacudir a água do capote? Eu diria que o público não gosta de contos, logo os editores e os livreiros também não.

    Jaime Bulhosa

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    1. Tens razão, Jaime, na verdade o problema deve ser dos leitores (ou não leitores, melhor dito, de contos). Mas a verdade é que, ao longo da minha carreira na edição, os comerciais sempre torceram os narizes aos livros de contos e por isso fiquei com a sensação de que os livreiros preferiam simplesmente romances. Talvez tenhamos todos de começar ou continuar a ler contos para inverter este estado de coisas.

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  9. Na verdade, não se assiste, no panorama literário actual, ao culto do conto. Já quase não vivem entre nós contistas de renome, como Poe, como o já referido Cortázar, como Germán Espinoza ou como o insofismável contista por excelência, Jorge Luis Borges.

    O conto, diferentemente do romance ou da novela, permite que o texto tenha uma força contínua, desde a primeira página até à última. Nele não se permitem erros: basta um deslize, e tudo se perde.

    Se imaginássemos a literatura como um confronto entre o autor e o leitor, no qual o primeiro tenta conquistar o segundo (mas não o é, não o deve ser; o confronto, existindo, será solipsista) veríamos o romance como uma guerra, a novela como uma batalha e o conto como um combate corpo a corpo. Neste último, um erro do atacante redunda em fatalidade e fenecimento.

    Talvez isto justifique o facto de não existirem livros de contos equilibrados. Porque cada conto comporta uma energia que não se pode moldar nem aspergir por muitas páginas e vários capítulos. Porque cada conto é um combate corpo a corpo (onde há menos estratégia e mais ânimo) e o lutador, sendo feito de carne e espírito, nunca luta do mesmo modo.

    Cronopio

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    1. Um belo texto e uma óptima imagem. Não tinha referido Borges porque os seus livros se encontram com facilidade e em diversas edições.

      Era Borges que referindo-se à sua preferência pelos contos, dizia que estes estavam livres "de toda essa palha de que os romances estão cheios".

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  10. Eu quando abro um livro e vejo que é um livro de contos tenho a reacção que na adolescência tinha com os programas culturais. Não vou gostar e depois gostava muito.
    Nos blogs, as vezes, vejo verdadeiros contos. O conto para me prender (como um post para me prender) tem de me fazer entrar numa cadencia diferente, como se ouvisse o som do mar ao longe, como se soprasse um vento de silêncio e só fique eu, o conto e o autor.
    E acredito piamente em tudo o que o autor me conta. E confundo o autor com o conto. E podia-me apaixonar pelo escritor irremediávelmente.

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  11. Eu gosto muito de ler contos, mano a mano com a poesia, o romance e o ensaio... não acho que se atropelem ou que se possa substituir uns estilos pelos outros.

    Melhor que ler só jantar na companhia dos bons amigos. Agradecida.

    Quatro beijinhos

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  12. Sheridan Le Fanu, Saki, M. R. James, Algernon Blackwood, Ambrose Bierce... fazem falta em reedições portuguesas!

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  13. Como leitora gosto muito de ler contos, embora confesse que seja mais fácil esquecê-los do que qualquer romance.
    Como alguém que gosta de escrever uns rabiscos de vez enquanto confesso que gosto muito dos contos.

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    1. Concordo com muito do que se escreveu nesta tag. Nós estamos a tentar fazer a nossa parte e nos últimos 8 meses (desde a criação da editora) publicámos 18 livros de contos. Alguns deles com um sucesso, para mim inesperado. Também acho que os contos, na generalidade dos leitores, entram como estilo menor. Tudo faremos para alterar esse cenário.
      Aproveito para aconselhar a leitura de um conto de Aluísio de Azevedo que, na nossa edição, se chama "Insónia". Para que não restem dúvidas do desinteresse económico deste comentário, e para quem estiver interessado, enviarei o pdf do livro completo por email. E só manifestar esse interesse via info@estrofeseversos.com.
      Ao titular deste bloque peço que, pela mesma via (info@estrofeseversos.com), me indique uma morada para envio de alguns títulos.

      Bons contos...

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  14. Outro post ao qual não resisto comentar... ;)

    Não posso falar nem pelos livreiros nem pelos leitores. Posso falar por mim que sou a maior fã deste género, pela concentração da acção e da narrativa e, sobretudo, por nos dar uma liberdade maior de leitura, por não "roubar" tanto o tempo (de que não disponho).

    Incríveis são os já aqui referidos: Cortázar, Poe e o sublime Borges. Acrescento Hermann Hesse (com uma série de contos editados), vários autores russos, como Dostoievsky e, aquele que a meu ver é um pouco esquecido, Roald Dahl. Há várias obras para a criançada publicada, mas os contos para os "mais crescidos" só os encontrei em inglês. São de cortar a respiração, inusitados e cheios de humor a dar para o negro. Paul Auster também tem um livro por si organizado, True Tales of American Life, relatos na 1ª pessoa de cidaçãos de todos os EUA. Verdadeiras lições de vida (e de escrita).

    Obrigada pela sugestão. Esta e outras para este género, continuarei atenta :)


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  15. Opto por contos quando quero conhecer determinados autores, quando ofereço livros, sobretudo se o fizer a pessoas que lêem pouco ou quando eu própria tenho menos tempo para ler. Um conto, por norma, lê-se depressa, por isso, não ficamos ansiosos até ao dia seguinte para saber como a acção termina. :)

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  16. Concordo em absoluto e por isso recomendo um livro de contos que li há bem pouco tempo de um novo escritor, Pedro Medina Ribeiro, com A Noite e o Sobressalto.

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  17. Gostei muito do comentário e da imagem da guerra e da luta corpo a corpo. No entanto, eu diria que o romancista é um corredor de fundo, corre a maratona, enquanto o contista é um velocista que tenta correr os 100m abaixo dos 9.9 segundos. Regra geral, um bom corredor de fundo não é (exímio) velocista nem o bom velocista é um (exímio) corredor de fundo. Ou seja, raramente um talentoso contista é um bom romancista e um talentoso romancista um bom contista. Veja-se, por exemplo, Rubem Fonseca, um extraordinário contista que, na minha opinião, desilude no romance... Talvez por essa razão alguns se tenham dedicado quase exclusivamente ao conto – porque as qualidades necessárias para escrever uma e outra coisa são, a meu ver, bastante diferentes. Há excepções, claro: Salinger é uma delas – Acredito que todos já leram “Um Dia Perfeito Para O Peixe Banana” em “Nove Contos” – caso contrário corram à livraria mais próxima!
    E depois há contos inesquecíveis, para além dos incontornáveis Borges (“O Aleph ”), Cortázar ( La puerta condenada”) e Monterroso (“A ovelha negra”), de Dino Buzzati (“O Cão Que Viu Deus” e “A Derrocada da Baliverna ”), de Horácio Quiroga ( Anaconda ”), de Gogol (“O Nariz” e “O Capote”), só para citar o que me vem à ideia... Os editores não publicam? Os livreiros não vendem? Os leitores não lêem? Talvez se os editores publicarem, os livreiros passem a vender e os leitores a ler... Tenho observado atentamente as publicações do género e notei recentemente, com muito agrado, uma franca aposta de algumas editoras neste género. Basta olhar os escaparates: a par de re )edições de autores consagrados, proliferam as colectâneas temáticas, de vários autores nacionais. Há os brinquedos, o policial, o terror, a felicidade, o futebol, o acordo ortográfico, a comemoração do dia do livro (e em algumas destas colectâneas encontrei contos seus). Parece-me, portanto, que começa a re )nascer um genuíno interesse no género.
    Se a arte do conto é tida como tão difícil pelos autores não entendo porque, por outro lado, pode ser tida por arte menor por (alguns) editores, livreiros e leitores.
    Algumas das minhas mais extraordinárias horas foram passadas a ler contos. Talvez por isso prefira um conto (mesmo imperfeito) a um romance medíocre.
    C. Drios

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