A lógica infantil

Sou co-autora de uma série de livros juvenis, chamada O Clube das Chaves, cujo sucesso de vendas, sobretudo nos primeiros anos, me permitiu viajar pelo mundo todo. Quando esta colecção tinha apenas uns cinco ou seis títulos publicados, convidaram-me para ir dar autógrafos à Feira do Livro de Faro. Estava um dia quentíssimo, tudo se passava ao ar livre e puseram-me atrás de uma mesinha, sobre a qual estavam pousadas várias pilhas de cada título. Às tantas, um menino de uns sete anos aproximou-se, tirou o primeiro livro de cada pilha e voltou a pousá-lo no lugar. Depois perguntou-me com um ar desconfiado: «Foste tu que escreveste estes livros todos?» Respondi-lhe que sim. Pensei que ficaria admirado, mas não. Olhou-me com um certo desprezo, suspirou e atirou-me esta: «Então porque é que fizeste tantos iguais?» A lógica infantil é, decididamente, genial.

Comentários

  1. Cristina Gomes da Silva14 de junho de 2010 às 02:35

    Genial e, quase sempre, imbatível. Boa semana :-)

    ResponderEliminar
  2. Pois, mas a criança não deixava de ter razão: não faltam escritores a fazer tantos livros iguais; iguais aos de outros, iguais aos próprios... Parece até que ser igual contribui para o sucesso: ao igual a si próprio, chama-se, por vezes, estilo; ao igual aos outros, influência. Eis uma das questões que uma editora contactada por mim me colocou:
    "Quais os livros de outros autores que mais se assemelham ao meu". O que é uma forma polida de perguntar: quem é que imito.

    ResponderEliminar
  3. De facto, as crianças têm uma capacidade incrível de nos apanhar desprevenidos, o que até é bom, porque nos faz lembrar que elas têm ideias próprias (que expressam sem qualquer pudor!) e com isso aprendemos nós a não subestimá-las. :-)

    Muitos parabéns pelo seu blog, sou uma seguidora fiel.

    ResponderEliminar
  4. Eu também era uma leitora fiel do "Clube das Chaves" :)

    ResponderEliminar
  5. Descobri o seu blog há instantes... Devo confessar que já faz parte dos "Favoritos"... Permita-me duas "partilhas".
    Primeira: adorei "A Solidão dos Números Primos".
    Segunda: ao ler a primeira linha deste post ", senti desenhar-se um sorriso daqueles que deixam escapar traços de saudade. "O Clube das Chaves" fez parte da minha infância. Foi motivo para, ainda hoje, ter no livro uma companhia essencial. A luz do candeeiro... Uma página após outra... A aventura a acontecer!

    ResponderEliminar
  6. "Olhou-me com um certo desprezo, suspirou e atirou-me esta:" - perfeito!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório