Lembrar, sempre lembrar

Fiquei arrepiada quando ouvi dizer que, no Reino Unido, o Holocausto tinha sido banido dos programas de ensino porque podia ofender os muçulmanos. O mundo está louco, pensei. Como podemos passar assim uma borracha num genocídio como aquele? Lembrar o Holocausto e os seus horrores às novas gerações parece-me a única medida inteligente para prevenir réplicas (mesmo que os norte-americanos tenham muitas teorias sobre os perigos de os jovens repetirem o que vêem). A este propósito, há um livro que me parece fundamental: trata-se de O Comprador de Aniversários, de Adolfo García Ortega (escritor e editor espanhol), romance curto que traz para o seu centro uma criança que Primo Levi refere ter encontrado em Auschwitz no seu livro Se Isto É Um Homem. O livro é um pontapé no estômago, claro, mas é belíssima a forma como Adolfo García Ortega inventa a esta criança uma vida, companheiros e, sobretudo, um passado (porque o futuro já sabemos todos qual é) que vai até à forma como os seus pais se conhecem e apaixonam em Varsóvia pouco antes de serem confinados ao gueto donde partirão para o campo de extermínio. A lembrar, claro. Por todas as razões.

Comentários

  1. Maria do Rosário

    em primeiro lugar, parabéns pelo blog.

    É verdade, o mundo às vezes parece louco. Como vivo no Reino Unido esse facto ainda me toca mais, digamos assim. No entanto, nestas e noutras questões, há sempre alguma esperança, porque o mundo, apesar de louco, não é uma máquina e é formado por pessoas, muitas pessoas, e é nelas que reside a tal esperança. É verdade, o holocausto está banido dos programas escolares, e isso é bastante grave. Mas na escola dos meus filhos, que é uma escola primária, existe uma pequena exposição, chamemos-lhe assim, uma mesinha com fotografias e o Diário de Anne Frank exposto, em memória das vítimas do genocídio. Para além das fotografias e dos livros, há umas flores feitas em papel e umas velas. Parece um pequeno altar. Está no meio de um corredor, com as paredes cheias de desenhos e fotografias das crianças. Está lá para lembrar e dar a conhecer. E acredito que aconteça o mesmo em muitas escolas espalhadas por este país. O holocausto pode estar banido dos programas, mas está presente na mente das pessoas e dos agentes educativos responsáveis e conscientes. Isto já sou eu a pensar, claro. A esperança fica, porém. A esperança de que o silêncio imposto acaba sempre por gritar mais alto, e fazer-se ouvir.

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  2. Rosário, sabes bem a consciência aguda que tenho do que acabas de dizer, até pelo que me preparo para escrever, mas nunca é demais lembrá-lo. Obrigado pela sugestão. Vou procurar, até porque não quero repetir nada, embora seja inevitável centrá-lo também numa criança, por razões que não interessa aqui expor. PS: Essa informação de Inglaterra é um "hoax". Investiguei-a, na altura em que saiu, há alguns meses, e não é verdade.

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    1. fiz uma pesquisa e cheguei à conclusão que, de facto, a informação sobre o currículo escolar não está correcta. O que aconteceu é que algumas escolas e professores, na altura, optaram por retirar certos assuntos mais "sensíveis" do currículo, por não se sentirem à vontade e também, algumas vezes, por pressão da comunidade de pais. Obrigada pelo esclarecimento. Eu estava convencida de que tinha sido banido do programa, mas que algumas escolas optavam por não o fazer. Pelos vistos parece que foi o contrário que aconteceu.

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  3. "O Comprador de Aniversários" não li, mas o do Primo Levi é OBRIGATÓRIO ler.
    E pensar que aquele homem, após tudo por que passou, acabou por se suicidar. Estranho? Ou talvez não.

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  4. Sim, Rosário, é isso mesmo.
    Foi fundamental esclarecer a questão na altura porque, como sabes, centro a minha perspectiva sobre todas as coisas nesta ideia: não existe um avanço civilizacional que nos permita estar a salvo de novos Holocaustos (acontecem, aliás, as we speak), e cada um de nós conserva esse lado negro, quando em contacto com o poder.
    MCS, é verdade que Primo Levi é fundamental (e não só o "Se isto é um Homem"), mas não é certo que se tenha suicidado. Os seus biógrafos mais qualificados nunca o conseguiram assentar como facto. Abraço.

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  5. acho estranho um blog dedicado aos livros não ter comentado (ainda) a morte de Saramago...

    vim aqui à procura da sua opinião acerca de JS-escritor (os outros JS´s não me interessam) e fiquei desiludida com o silêncio...

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    1. Caríssima,
      Estive ontem na Câmara Municipal a fazer a Saramago a minha última homenagem e a cumprimentar a Pilar, pois conheci ambos há muito tempo, embora não não intimidade. Neste momento, em que toda a gente fala de Saramago, acredite que tudo o que eu pudesse dizer dele seria redundante. Mais lá para a frente, quiçá, falarei dele e dos seus livros; mas é porque o acho um dos nossos maiores escritores que me parece que o que quer que dissesse agora seria insuficiente.

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    2. Obrigada pela resposta.
      Ficarei à espera da sua opinião sobre o escritor e obra. sei que não me defradará na qualidade a que já me habituaram os seus posts.

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  6. Seve

    O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS é um livro absolutamente fundamental sobre o Holocausto, fundamental.

    Seve

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  7. Seve disse...

    Efectivamente ainda não percebi porque é que num (excelente) blogue sobre livros ainda não se referiu a morte do maior escritor português depois de Camões? não estou a perceber, será que...........

    Seve

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  8. Todos sabem, ou deviam saber, que a Rosário editou três escritores que venceram precisamente o Prémio Saramago: José Luís Peixoto, Vater Hugo Mãe e João Tordo. E Saramago, isso sei eu, devotou sempre um carinho especial aos escritores que ganhavam o prémio com o seu nome. Era mesmo uma das suas experiências de vida mais gratas. Estes três dificilmente lhe teriam lá chegado sem a Rosário, e não está minimamente em causa o mérito dos escritores. Acho espantoso que se considere obrigatório o que quer que seja, no que toca a prestar homenagens. Obituários têm sido às centena (uns autênticos, outros, claro, cínicos), pelo que o grande escritor falecido não precisa de mais. E a moda mediática de massificar a informação durante um grande acontecimento (como foi a morte de Saramago) era severamente criticada pelo próprio. Ele queria ficar em cinzas debaixo de uma pedra sem dizeres, e pediu apenas uma flor de vez em quando, para saber que não se esqueceram dele. Teve e terá sempre muito mais do que isso. Foi um homem de silêncios, também. Eu próprio podia ter escrito dezenas de páginas sobre a minha experiência com Saramago, mas o ruído tem sido tal que prefiro guardar-me para quando deixarem de falar dele. E vão deixar. E aí se verá quem realmente se vai lembrar, quem lhe vai por uma flor - ou uma palavra - sobre a pedra sobre as cinzas. Acima de tudo, humildade. Sem apontar o dedo.

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    1. até que enfim! uma opinião decente e lúcida sobre todo este alarido histérico-político sobre a morte de um escritor.

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    2. sublinho este comentário!

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