Ai, os escritores

Li algures (num livro que nem tinha muito que ver com literatura) uma história absolutamente inesperada que não posso deixar de partilhar. Proust e Joyce foram, como se sabe, contemporâneos, o primeiro uns dez anos mais velho do que o segundo; a diferença de idades, de línguas, de países, de estilos, não impediu, porém, que cada um fosse admirador do outro (Proust deveria ser também admirador de si próprio, Joyce não sei). Mas a verdade é que o acaso não quis que os dois se encontrassem senão quando já estavam «velhotes» (maneira de dizer, claro, porque provavelmente não seriam mais velhos do que sou agora – mas neste século XXI somos jovens até mais tarde). Alguém promoveu um jantar em Paris no qual os dois escritores ficariam frente a frente e poderiam finalmente conhecer-se e elogiar-se. Muitos se fizeram convidados para o dito jantar, querendo presenciar um diálogo de génios que, provavelmente, não se repetiria. Surpresa das surpresas: postos assim na proximidade um do outro, os dois gigantes não disseram uma palavra sobre a escrita… Queixaram-se, isso, sim, de enxaquecas, achaques, reumatismo, más digestões… Um fiasco para quem esperava um encontro de intelectuais.

Comentários

  1. LOL LOL LOL! Pois, encontros entre escritores para debater as coisas da literatura... Imagino como seria no Portugal de hoje: um confronto indigesto ou uma demonstração de hipocrisia e de cinismo em estilo nouvelle cuisine?

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  2. Eu li essa história algures num livro do Harold Bloom (suponho que era o Genius, mas posso estar enganado). Segundo o autor, Joyce, Proust, Stravinsky e Picasso juntaram-se num jantar. Joyce queixou-se de enxaquecas; Proust de dores de estômago; Stravinsky mirava os dois com a sobranceria habitual; e Picasso admirava as miúdas que passavam na rua. Tudo bons rapazes, portanto. :)

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  3. Típico. Quem não frequenta reuniões ou tertúlias entre escritores, realmente pensa que o principal assunto de conversa é a literatura, quando na realidade não é. É a vida. Tudo muito pouco romântico, actually . O acto da escrita é extraordinariamente solitário para poder ser partilhado mais do que pontualmente.

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  4. Li sobre esse episódio num dos divertidos livros do Alain de Botton ("Como Proust pode mudar a sua vida") e deu para umas boas risadas. Embora não possa pôr a mão no fogo por ela, a tese de que o brilho criativo serve para compensar uma inépcia social sai reforçada...

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  5. A tese de Alain de Botton é que mal teriam falado nesse jantar. Ou pelo menos não teria havido propriamente um diálogo.

    «O que aconteceu quando foram apresentados foi mais tarde relatado por Joyce a um amigo:

    "A nossa conversa resumiu-se à palavra Non ' Proust perguntou-me se eu conhecia o duque de tal e tal. Eu disse: Non ?. Os nossos anfitriões perguntaram a Proust se ele lera a parte tal e tal de Ulisses. Proust respondeu Non '. E por aí fora. "»

    (p. 134)

    E por aí fora também nas suposições e relatos de de Botton .

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  6. Acabei de ler "Senilidade" de Svevo e na capa fala que Joyce achava-o moderno e que um outro escritor dizia que ele era um novo Proust.
    Qdo li o post, de repente, pensei que ia falar disso.
    Coincidências.

    Os "grandes" homens só são "grandes homens" porque não vivem connosco. O que não impede que intimidade possa ser, estar a vontade para falar...de enxaquecas.

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