Livro e filme
Raramente um filme baseado num bom romance que lemos nos agrada. Temos a escrita demasiado dentro de nós para conseguirmos separar duas linguagens distintas – e o mais frequente é falarmos logo do que não aparece no filme. No entanto, mesmo sacrificando cenas, partes, estrutura, linguagem, ideias, há filmes que nem são nada maus e, entre eles, poderia, por exemplo, citar A Insustentável Leveza do Ser, O Paciente Inglês ou, mais recentemente, Expiação. O do meio pareceu-me uma notável adaptação de um livro que nunca esquecerei: O Doente Inglês, de Michael Ondaatje. Claro que todas aquelas viagens pelo deserto a sós que existem no romance seriam um tédio na tela – mas senti a falta delas; claro que, no livro, a história de amor é só mais um episódio numa narrativa muito cheia sobre um homem apaixonante – e tenho a ideia de que a personagem da enfermeira é bem mais importante que a mulher amada (no filme, a actriz que o desempenhava venceu o Óscar de melhor actriz «secundária»). Em todo o caso, não podemos generalizar nem ser injustos com os realizadores e os argumentistas. Às vezes (raras, bem sei), eles fazem grandes filmes de grandes obras.
sabe que neste par livro-filme há um género em que quase sempre o filme supera o livro?...
ResponderEliminaro da ficção científica, género que nem aprecio particularmente.
dois exemplos: o que arthur c. clarke escreveu está a léguas de distância da eterna parábola visual de kubrick em "2001 - a space odissey ", e também creio que philip k. dick nunca poderia supor que o seu conto "do droids dream of electric sheep ?" se transformasse no seminal e magnífico "blade runner".
Para mim com o mesmo nível de qualidade, mas esta é uma opinião nada consensual entre os amantes de ficção científica: Watchmen.
EliminarBaseado numa novela gráfica e não num «papel e letras», a comparação torna-se ainda mais exigente. Quanto a mim, muito bem conseguida.
Eu tenho dois filmes que prefiro claramente aos livros, embora tenha sido o filme que me puxou para a sua leitura. O Fiel Jardineiro é uma obra prima que poupa do livro o que pode ser poupado. O mesmo acontece com The Shinning , cujo filme aprimora a história.
ResponderEliminarO Piano também é bom exemplo...
ResponderEliminarGostei muito do Piano.
EliminarAd latere:
ResponderEliminar"The Shining" [só com um 'N']-filme, malgré Kubrick, fica muito aquém de "The Shining"-romance, que é uma das melhores obras de Stephen King.
"O Fiel Jardineiro"-filme é frouxo e não tem a luminosidade narrativa do quase sempre magnífico Le Carré.
"No Country for Old Men" é, em romance, mais "seco" do que o deserto onde boa parte da acção se passa (um autor que não gosta de thrillers a escrever um thriller...). Em filme, é uma história soberba.
Mas é verdade: se o texto escrito nos agrada muito, ficamos sempre com o coração nas mãos a pensar no que vai falhar na adaptação cinematográfica, onde não convirá ignorar o papel normalmente decisivo dos produtores, por vezes mais responsáveis pelos fiascos do que argumentistas e realizadores...
Bem, são opiniões. No The Shining é aquela coisa dos arbustos de topiaria que para mim está a mais. Aquilo das vespas e o alcoolismo já achei adequado. O Jack cheirar a álcool e não haver bebidas no hotel é uma coisa bem achada. O querer salvar o casamento, o ter magoado o filho aos dois anos, touché Mas prefiro o filme, ainda assim. Tem o Jack Nicholson que (malgré KubricK) é o Jack Nicholson. No Fiel Jardineiro discordamos, pronto. Gostei muito do filme. No livro o gajo é bem mais velho. Ou parece. Cabelo branco, etc. O Le Carré é mestre, claro. E o autor da história...
EliminarSó pormenorizando a minha (má) impressão sobre "The Shining": a história no romance é uma e a do filme desvirtua-a.
EliminarFoi isso que me aborreceu e que toldou a minha apreciação do virtuosismo que Kubrick sempre demonstrou ter. E não me parece que isso se tenha devido a imposições externas (ou da produção) porque Kubrick controlava razoavelmente o que fazia. Infelizmente, é uma situação comum, às vezes por razões patetas.
Nunca li O Paciente Inglês mas não estranho que se diga que o filme é uma boa adaptação do livro. É que o realizador adaptou também O Talentoso Mr. Ripley e, nesse caso, tornou a história muito melhor.
ResponderEliminarMas acho que o grande caso é a adaptação que Visconti fez do Morte em Veneza de Thomas Mann. Neste caso, é o filme que imortaliza aquela história.
Ah, mas Visconti é sempre maravilhoso. Mesmo «O Leopardo», que é um grande livro, continua soberbo no filme do mestre.
EliminarVim à caixa de comentários só mesmo ver se ninguém se lembraria do Morte em Veneza. Nao vou tao longe, acho o livro pelo menos tao bom como o filme que o adapta (a palavra aqui nao faz sentido...recria?), mas os dois sao obras extraordinárias.
EliminarNo meu caso há ainda o Quarto com Vista sobre a Cidade. Acho o filme delicioso, muito engraçado e de uma ironia muito humana, terna quase no tratamento das personagens, e o livro apenas razoável, mesmo sendo do Forster .
Ah pois! Muito bem lembrado. O James Ivory, na minha opinião, fez excelentes trabalhos na adaptação de livros. Nesse, no Howards End, no Maurice. Nota-se uma paixão pelo Forster...
Eliminar"O nome da rosa"
ResponderEliminaro livro é um dos meus top 10...
mas gostei do filme...
Lembrar o Leitor. Fantástico!
ResponderEliminarÉ verdade, quando é um livro de que gostámos mesmo muito de ler, dificilmente o filme o supera ou iguala, porque já criámos o nosso próprio filme.
ResponderEliminarMas, mesmo assim, ainda há vários bons exemplos, eis mais alguns:
Delfim (Cardoso Pires/F. Lopes); Vale Abraão (Agustina/Oliveira); Costa dos murmúrios (L. Jorge/M. Gil); Laranja mecânica (Burgess/Kubrick); Fahrenheit 451 (Bradbury/Truffaut); O desprezo (Moravia/Godard) e mais e mais.
Há um filme que adoro que provém de um livro decepcionante (pelo menos para mim) e que começa: "I had a farm in Africa..."
ResponderEliminarEm vinte anos que levo de livro ainda só vou para aí na pág 41 (se tanto).
Gostei muito dos filmes "O paciente inglês", "O fiel jardineiro", "Expiação", "Ensaio sobre a Cegueira" e "O nome da Rosa". O pior foi mesmo "A Casa dos Espíritos", em que gostei tanto do livro e o fil foi uma desilusão!
ResponderEliminarTenho sempre alguma desilusão quando vejo um filme após ter lido o livro. Como diz uma amiga minha com graça, "a primeira vez, ele nunca tira o sapato pelo pé que imaginamos" assim é com os filmes dos livros que já visualizamos.
ResponderEliminarEstou a ler um livro que diz na pag 145 : "que ela te lê, das citações textuais da tua objectividade física, uma dúvida se insinua: que ela não te esteja a ver uno e inteiro como és, mas usando-te, usando fragmentos de ti tirados do contexto para construir".
Jane Austen, li e reli os livros e gosto dos filmes.
Ninguém referiu a minha adaptação preferida: o filme Elegy, adaptado do livro The Dying Animal, de Philip Roth. A adaptação conferiu à história uma inesperada e completiva visão feminina. Comentei-o aqui: http://apontoblog.blogspot.com/2009/07/elegy.html
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