A primeira vez
Aprendi as primeiras letras em casa, bastante cedo, com uma professora que dava aulas à minha irmã. (A minha irmã tinha sido operada e não podia ir à escola.) Já conhecia, pois, as vogais e algumas consoantes quando entrei para a primeira classe, com seis anos acabadinhos de fazer; mas lembro-me de aprender o resto com a ajuda da Cartilha Maternal, de João de Deus, num exemplar de grande formato que a professora pousava num cavalete para que todas as meninas da sala a conseguissem ver. Quando terminou o primeiro período e já conhecíamos o alfabeto inteiro e várias combinações de letras e sílabas, passávamos então ao livro de leitura. O meu chamava-se O Livro da Capa Verde e, para além de ter mesmo a capa verde, tinha a seguinte frase escrita na contracapa: «Ó Pedro, que é do livro de capa verde que te deu o avô?» Pode parecer estranho que me lembre tão bem de uma coisa destas, mas a verdade é que recordo até hoje a minha primeira hora extraordinária. Sim, é isso mesmo, a primeira vez que li um texto, e não apenas conjuntos de sílabas ou palavras soltas. Intitulava-se (imaginem!) «Tourada à vara larga» e começava assim: «Pela vila vai movimento desusado.» Foi uma experiência marcante. Mas, se me perguntarem alguma coisa sobre a dita tourada, bem, disso é que já não sei dizer nada.
Pois agora imagine a quantidade de Pedros que ficaram traumatizados, nesse seu primeiro contacto com a leitura, ao começarem a ser objecto da intrigante pergunta sobre onde teriam largado o raio do livro de capa verde :-)
ResponderEliminarNem sabe os tormentos que os Pedros passavam por causa disso - qualquer adulto repetia ad nauseam quando deparava com um: «ó Pedro, que é do livro de capa verde que te deu o avô?»
ResponderEliminarMas esse é um dado completamente novo para mim! É o faz a educação estar separada por sexos nesse tempo...
EliminarMinha primeira hora extraordinária foi com "O Burrinho Alpinista", livro distribuído às escolas primárias do Brasil lá pelos anos 70 e que, coincidentemente, tinha a capa verde.
ResponderEliminarA minha primeira hora extraordinaria foi ao 5 anos com o meu primeiro livro. Havita, o índio. A minha avó era professora e estava a dar aulas de gramatica a minha irmã e as duas achavam que eu não as estava a ouvir mas eu tinha, já uma paixão pelas palavras e de tanto ouvir aprendi a ler e pedi um livro. Ainda detesto gramatica, regras e afins. É a minha costela anarquista, eu queria apenas aprender a ler e ter que o fazer enquanto ouvia uma montanha de regras que não compreendia marcou-me para a vida. Deram-me um livro pequenininho com muitas figuras e eu li-o literalmente. Foi assim que eu e todos ficamos a saber que eu já lia. Como faço anos em Novembro entrei quase com 7 anos. Havia um prémio para quem lesse primeiro melhor e quem dominasse mais cedo os numeros. Ganhei o de matematica. A professora não achou justo dar-me o de portugues porque eu já sabia ler antes e tb porque eu não lia muito bem em publico porque digo mal o r. O prémio foi um livro lindo, ainda o tenho, anita na praia. A minha amiga que ganhou literatura chamava-se Estefania e teve um corte para uma saia. A Professora percebeu que eu teria tido uma desilusão se fosse roupa, como hoje. A minha melhor prenda é um livro. Se um homem me faz decobrir livros que eu goste, eu estou tramada :)
ResponderEliminarOs primeiros livros que me lembro de \"ler\" estão, curiosamente, de volta à minha estante da sala, depois de muitos anos abandonados numa despensa empoeirada. São o \"ABC dos Pintainhos\", \"dos Ovinhos\", \"do Tomatinho\", \"dos Coelhinhos\". Já de um modo didáctico, em cada página era destacada a cor a letra nova. E, acabo de me aperceber, publicados pela editora hoje concorrente da minha... :)
ResponderEliminarQueria eu lembrar minha primeira hora...
ResponderEliminarMas foi bom ler o post quando, essa semana, caçava na internet exemplar da Cartilha pela qual aprendi as primeiras letras. Também fui alfabetizada em casa, numas férias e por uma tia. Tenho lembranças maravilhosas da copa de minha avó e nós duas, sozinhas na mesa redonda. Eu inventava uniformes (será que em Portugal assim se diz para a roupa escolar?) e seguia toda prosa a estudar.
Não achei a Cartilha na Internet, mas achei o post e as lembranças de outros que passam também a ser minhas.
Três breves comentários:
ResponderEliminar1) Obrigado Rosário, Pedros, henedina , Vespinha e Eunícia e Leitor a 28 de Junho pelos vossos deliciosos posts ; realmente, tanta gente boa se encontra à volta dos livros!
2) Não tenho boas recordações das primeira letras. O meu pai meteu na cabeça que o filho era um génio e aprenderia a ler aos 4 anos. Penso que até um macaco ele poria a ler. Não pôs um macaco, mas pôs o miúdo de 4, à força de muita coisa. Aos 40, o pai não lê o que o filho escreve. O filho não se maça, e só conta porque é material romanesco de primeira.:). E sabe que um dia o seu velho pai vai ler, sim, nem que seja porque outros, que não ele, o recomenda.
3) "Pela vila vai movimento desusado" é um grande frase para começar as horas extraordinárias. Uma grande frase:).
Cuprimentos, Pedro
No comentário acima há alguma gralhas. Mil perdões. Fica apenas uma. A concordância de "recomendam".:)
ResponderEliminarsendo um rapaz já algo antigo (...) recordo "o meu livro da primeira classe", onde o a era ilustrado por uma águia, para o e lá estava uma égua, o i era de uma igreja (claro!), um ninho de ovos ilustrava o o e um cacho de uvas o u... mais para o final do livro, quando já sabíamos pelo menos soletrar e ler qualquer coisa, havia uma frase extraordinária: «Nos pomares cultivam-se as árvores que nos dão saborosos frutos»...
ResponderEliminarEu aprendi a ler exactamente na mesma cartilha maternal, enorme, escancarada diante da professora Celeste do Jardim-Escola João de Deus, em Coimbra. Hoje, julgo que é dos melhores métodos de aprendizagem de leitura. Na altura, o livro de capa verde e o Pedro, repetidos até à náusea, cansavam-me.
ResponderEliminarFoi engraçado rever a fase João de Deus, ao ler este texto : )
Lembro-me perfeitamente de algumas partes do livro onde aprendi a ler: a igreja para o I e, lá mais para a frente, os poemas! «Esta menina tão pequenina quer ser bailarina...», de Cecília Meireles. Ainda consigo «ver» a ilustração que acompanhava este poema. E lembro-me de querer ser bailarina e de dizer isso à minha mãe enquanto fazia os trabalhos de casa no terraço e ela passajava umas meias! Que bom reviver esses momentos!
ResponderEliminarMas o que mais recordo como sendo a minha primeira hora extraordinária (com a escrita) foi numa férias de Verão. Foi a única vez que tivemos uma monitora para os tempos livres. Fazia algumas actividades diferentes connosco. Um dia, colocou-nos em frente a um poster que devia ser uma pintura com uma paisagem e disse-nos para escrevermos o que nos apetecesse. Gostava tanto de ter esse texto! Foi a primeira vez que senti que escrever me trazia uma liberdade nova. O meu texto foi lido em voz alta (e eu cheia de vergonha e orgulho ao mesmo tempo) e nunca esquecerei que com o que escrevi consegui mesmo estar lá, naquela paisagem só minha...