A minha mãe

A minha mãe não estudou grande coisa porque teve de começar a trabalhar bastante cedo, mas sempre gostou muito de ler e sempre leu muito. Agora, que tem 85 anos e tempo de sobra, lê mais ainda, incluindo o jornal de ponta a ponta (necrologia e tudo). Passa, por isso, a vida a pedir-nos livros emprestados e comenta-os connosco (às vezes, diga-se de passagem, severamente). Há uns tempos começou, porém, com aquela conversa (lá chegaremos) de que não lhe déssemos coisas que a aborrecessem, pois tristezas já a vida tinha de sobra. Descobrimos, então, cá em casa um desses romances leves para senhoras que se vendem bastante bem nos dias de hoje, passado em Itália e romântico, que, por ser comprido, achámos a ia entreter por umas semanitas. Como fomos ingénuos… Às primeiras páginas, já ela estava a ligar para nós, francamente indignada, protestando que aquilo era de baixíssima qualidade e não tinha chegado à idade a que chegou para voltar a ler literatura juvenil. Devolveu-o sem o acabar, claro. Lição aprendida.

Comentários

  1. Gosto de leitoras exigentes. Se fizer o favor de me dar um endereço, terei todo o prazer em oferecer um dos meus romances à sua mãe, para, talvez, ter a honra de uma crítica, por mais negativa que possa ser.
    jccatarino@hotmail.com

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  2. Donde se prova que a sua mãe não gosta de romances para senhoras leves! Sai à filha.

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  3. Com as mães não se brinca, ou é com o amor?

    Seis beijos, desta vez :)

    (saudades)

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  4. Ao ler o seu post , dei comigo a pensar que a inteligência não esmorece com a idade, torna-nos mais selectivos.

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  5. Cara Maria do Rosário,

    tenho acompanhado o seu blog diariamente, quase desde o primeiro dia. Tornou-se um dos meus momentos preferidos do dia, aquele em que descubro (tentando não fazer a batota de correr com o olhar para a parte a negrito onde saltam títulos, às vezes sem sucesso) um pouco mais do mundo maravilhoso dos livros. Só tenho pena de não haver mais horas no dia, para as poder tornar extraordinárias, enquanto leio.

    Hoje tive que vir deixar um comentário porque me fez chorar. Assim que comecei a ler este post veio-me à cabeça a imagem da minha avó materna, com oitenta e muitos anos, a ler todos os livros a que deitava a mão e a comentar as histórias comigo. Eu era, na altura, adolescente e já uma ávida leitora e divertia-me muito com o facto de ela ler os meus livros da colecção "Uma aventura" e os velhinhos da colecção do meu pai do "Sandokan ".
    Acredito que não faça o género da sua mãe, mas os livros que faziam a delicia das minhas noites, faziam também a delicia dos dias da minha avó querida. Se fosse viva, faria hoje 104 anos e um mês.

    Obrigada, pelo que tem feito (e escrito) e por me fazer chorar e sorrir, ao lembrar a minha avó.

    Ana Sofia

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    1. Obrigada a si, querida Ana Sofia, por frequentar este blogue e dizer coisas tão bonitas. A minha avó também foi uma figura de referência para mim e senti muito profundamente o que deixou aqui escrito. Deixe-me só acrescentar que o Sandokan não é uma obra menor, de maneira nenhuma. Tomara muitos dos livros que hoje se publicam terem aquela qualidade. Um abraço.

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  6. A prova de que o bom gosto não conhece idades... :)

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  7. cHORO DE DESGOSTO PELAS BANALIDADES ...

    E PELA FORMA COMO SE TRATAM AS VELHINHAS,DANDO-LHE OSSOS GRANDES PARA ROER, BEM GRANDES. PROPORCIONAIS A IDADE QUE TANTO NOS COMOVE E ABORRECE

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  8. Há mais de dez anos a minha mãe foi dar uma volta e quando regressou vinha muito diferente, irreconhecível, até que partiu para uma grande viagem da qual nunca voltou.
    Também ela não tinha grandes estudos e também ela teve de começar a trabalhar muito cedo, mas na última noite em que adormeceu em casa, na sua cama, deixou na mesa de cabeceira um exemplar de «A Idade da Inocência» com uma marca a meio.
    Para além da sensação, ridícula na minha idade, de nunca mais ter deixado de me sentir órfã, duas coisas lamento: a tradução do livro de Edith Wharton que ela leu ser tão má e haver tanta gente com muito mais estudos e tempo livre do que ela e que lê tão pouco

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