Uma morte difícil

Na semana passada, para começarmos mal, morreu-nos Mario Vargas Llosa, o grande (enorme) romancista peruano, premiado com tudo o que havia para ganhar, incluindo o Nobel da Literatura em 2010. Autor de livros absolutamente marcantes, e tão diferentes uns dos outros como Conversa na Catedral, Quem Matou Palomino Molero, A Guerra do Fim do Mundo ou, mais recentemente, As Travessuras da Menina Má e O Sonho do Celta, fez-me apanhar um bruto escaldão na Praia da Luz, em Lagos, há muitos anos, enquanto lia A Tia Júlia e o Escrevedor, que se baseia na sua própria experiência de radialista e pretendente de uma tia por afinidade, com quem na vida real acabaria por ficar casado durante doze anos. Era, além disso, um desses autores que falam bem, e ouvi-o a propósito do seu percurso (já aqui o contei) na Feira do Livro de Guadalajara, no México, numa ocasião em que contou como a leitura o ajudara no colégio interno a perceber que não era o único miúdo no mundo a sofrer a privação da mãe e da alegria. Era por fim um homem implicado na política, não indiferente, tendo-se candidatado a presidente do Peru e escrito romances com fundo político (Lituma nos Andes, um dos meus preferidos), mesmo que o amor nunca fosse estranho a esses livros. Presto-lhe homenagem neste blogue e espero que a sua herança crie grandes escritores por esse mundo fora. A sua obra é para continuarmos a ler e reler.

Comentários

  1. Também gostei muito de ler "A tia Júlia E O Escrevedor". Percebi que era bastante autobiográfico, mas não sabia que tinha havido casamento na vida real.

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  2. Fiquei também pesarorsa perante a sua morte, felizmennte ainda tenho muitos livros dele paar ler! Penso que quereria dizer "A Guerra do fim do Mundo" e não a Casa, livro que para mim é uma catedral. Boas leituras!

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  3. António Luiz Pacheco21 de abril de 2025 às 02:47

    Na semana passada, fiz menção, indirectamente, ao falecimento deste notável escritor e homem. Aguardava portanto que aqui fosse trazido como não podia deixar de ser.
    O seu percurso é deveras interessante e até inspirador na forma como evoluiu e na coragem e honestidade de que deu provas, fazendo o seu próprio percurso, pensando e sentindo livremente sem outras preocupações que ser coerente e honesto para consigo mesmo.
    Ao contrário de tanto escritor actual que procura agradar e segue idéias que o mantenham na corrente, o tal uoquismo (sei que não é assim que se escreve mas quero lá saber) dos fofos e acéfalos, MVL foi até grande afficionado e ainda há dias estive a ver um entrevista que deu em defesa da Festa Brava com todo o seu brilhantismo e verve, de modo esclarecido e grande sentimento, bem como lembro a sua defesa (dos poucos que a fez!) pela liberdade de expressão em Cuba, solidário com os escritores e intelectuais que aquele regime oprime e mantém na prisão, tendo ele sido um apoiante do mesmo regime de que se afastou por coerência de homem livre e libertário.
    Só por isto teria sido para mim uma fonte de inspiração, mas não só, pois também não me limito aos que pensam igual a mim. Foi um escritor Extraordinário na forma e pelo seu humanismo, no conhecimento e expressão da humanidade que transcreveu magistralmente, tornando-se expoente maior da literatura, em particular da minha preferida: a Americana, seja ela de Norte ou Sul, precisamente pelo realismo humano que exsudam os escritores do lado de lá do Oceano.
    Está no panteão dos Escritores Universais, ficou para sempre e deixa uma obra que estimo não se atrevam as editorasécas e os mesquinhos censores de sensibilidades a reescrever para anular certos detalhes que os belisquem. Porque a sua obra é muito perigosa em termos modernistas das sensibilidades dirigidas e programadas.
    Enfim, Mário Vargas Llosa, nós leitores de verdade te saudamos!

    Outra perda enorme nesta semana que passou e também me marcou foi a de Carlos Matos Gomes (ou Carlos Vale Ferraz), homem e escritor que muito estimava e por quem tinha a maior consideração, tendo sido um privilégio tê-lo conhecido e trocar correspondência com ele - para isso serve da melhor maneira o feicebuque (sei que não é assim que se escreve).
    Penso que não terá direito a ser lembrado neste espaço Extraordinário por estar fora desta corrente, mas lembro-o eu, porque imagino que algum Extraordinário também pense assim e lhe faço homenagem pois igualmente escreveu sobre pessoas e para elas, além do tema da história da guerra colonial que viveu activamente e na primeira pessoa, dos poucos que a trataram com honestidade e realismo não partidário, nem oportunismo.

    São Escritores e Pessoas que vão partindo deste Mundo físico, deixando-nos a memória mas sobretudo o espaço para outros que felizmente ainda vão surgindo nessa linha de liberdade do pensamento e pouco respeito pelo estabelecido na ditadura dos pensamentos, Itamar, Moreiras, Rio Novo, Reis Cabral, que ainda são Pessoas, cultivam e procuram a humanidade.

    Que os inspirem, são os meus votos cá da Cidade Morena.

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  4. Claro, obrigada, vou corrigir (devia estar a pensar na Casa Verde).

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  5. Apoio solenemente as suas palavras,. acrescento apenas que o meu preferido de Vargas Llosa é A FESTA DO CHIBO, uma denúncia da arreigada prática ditatorial que durante tempo excessivo foi procedimento habitual nos países da américa do sul, logo uma obra que como homem isento e apartidário coloca MVL num nível a que poucos conseguem ascender. Lamento iguaçlmente a morte de Carlos Ferraz e recomendo a sua obra PROJECTO ALCORA, para que saibamos o que estivémos fazendo no ultramar e que beneficios resultaram da nossa acção e do nosso sacrificio. Lamentavelmente decorridos 50 ou mis anos, ainda há imensa gemnte que passou dois anos da sua vida numa das nossas provincia ultramarinas sem que saiba por quê, e nem se tenha dignado ou incomodado informar-se. Obrigado.

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  6. Vargas Llosa era um senhor escritor. Escreveu muito e bem. E foi reconhecido; deve ter vendido pelo mundo inteiro. Tinha uns 89 anos e não podia ser eterno. Com tanto que viveu e o seu talento, não lhe faltam acontecimentos e prémios, uns melhores que os outros. Li dele vários livros, lembro-me de "O Sonho do Celta" e que só tenho mais dois ou três volumes. Há anos que quero comprar "A tia Júlia e o escrevedor", mas vou cedendo a prioridade.
    Haja quem o aproveite, que os homens morrem e as obras ficam.

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  7. Um imenso talento que nos deixa, e que vida cheia teve! Que descanse em paz.

    Deixo aqui o excelente obituário da BBC Brasil:
    https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwy0k4vvp2ko

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