Muros que caem

Já aqui falei da fabulosa estreia na ficção literária da cantora Luísa Sobral. Como faz parte, houve algum preconceito quando se falou de que a artista se atrevera à escrita de um romance porque os portugueses parecem sempre desconfiar de quem tem êxito (e o Camões até acabou Os Lusíadas com a palavra inveja). Mas, mal as pessoas começaram a ler, renderam-se à evidência de que a Luísa Sobral era uma belíssima contadora de histórias muito para lá das canções que escreve desde os doze anos; que era capaz de estruturar um romance literário, de usar vários registos estilísticos, de ter uma voz segura (ela é uma grande leitora), de investigar e inventar; e as críticas positivas têm-se multiplicado em blogues, jornais, podcasts e redes sociais, fazendo com que Nem Sempre as Árvores Morrem de Pé tenha passado já à 6.ª edição, o que é raro conseguir-se num primeiro romance. Para quem esteja interessado em ouvir a Luísa Sobral falar ao vivo sobre o seu processo criativo e o romance em causa, hoje às 18h30 estarei a conversar com ela na FNAC da Avenida de Roma, onde esperamos todos aqueles que queiram aparecer e  tirar teimas. Hão-de cair muitos muros, aposto. Até logo.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco16 de abril de 2025 às 01:40

    Não sou homem de levantar muros, antes de os pular, ou, flanquear quando sejam muito altos.
    Portanto porque haveria eu, traça dos livros, que tanto tenho lido também, de ter dúvidas acerca da capacidade de Luísa Sobral escrever um romance "como deve ser"? Por ser autora de letras de canções? Ora e isso não é escrever também? Muitas canções "cantam" histórias, como bem o sabemos e há disso muitíssimos exemplos.
    Não me admiraria se Jorge Palma publicasse um romance, para dar um exemplo, e acredito que deve ter histórias bastantes e com interesse bastante para isso. Carlos Tê e o seu vôo melancólico do melro acorrem-me à memória. É outro autor de canções que são histórias e um homem que tem igualmente histórias.
    Na verdade ainda não li o livro de Luísa Sobral, mas o que sei dele parece-me atractivo.
    Conheço uma veterinária russa, que corresponde a uma das personagens... filha do comunismo, filha de um militar do regime, cresceu também alheada do Mundo ocidental. Só quando casou com um angolano também filho da elite do regime e veio com ele para cá, é que percebeu afinal como é o Mundo e ainda hoje se surpreende quando verifica que a história que aprendeu na escola era tão distorcida quanto aquela que eu aprendi... de facto a história é uma das formas de os regimes moldarem idéias e manterem os povos reféns delas. Afinal, como disse Alberto Caeiro, "a espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias".
    Abençoados os que têm essa oportunidade, a de ir descobrindo a realidade.

    Estou seguro de que será uma conversa interessante, eu gostaria de perguntar a Luísa Sobral o que é que a levou a eleger aquele tema para o romance, a localizá-lo nas Alemanhas e a recriar nas duas mulheres aquilo de que fala e lhes põe nos cérebros e corações? Fantasia ou experiência pessoal?

    Saudações de uma Cidade Morena, colérica porém despreocupada no seu irrealismo habitual!

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  2. Penso que o problema não tem a ver com "muros" ou com a capacidade da Luísa, em escrever livros.

    Tem mais a ver como a sociedade se alimenta dos "famosos" (a televisão só vive disso...) e que o negócio, vender é o mais importante, mesmo que se trate de simples livros.

    Ela já foi a mais programas de televisão e rádio, nos últimos tempos, que os nossos melhores escritores da actualidade.

    É isso que explica o facto de a Luísa ir na sexta edição. Infelizmente isso diz mais do facto de ela ser uma cantora conhecida - o que dá um grande jeito às editoras, que apostam cada vez mais em livros escritos por figuras públicas (quase todas elas a quilómetros do talento da Luísa...) - que a escritora talentosa que é...

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  3. Caro Luís Eme,
    Ora aí está uma excelente análise, muito bem.
    Eu que não percebo nada de literatura nem de estruturar um romance literário com vários estilos linguísticos embora seja bastante capaz de investigar e, principalmente, de inventar, pergunto:
    - As árvores que não morrem de pé, morrem como? Qual momento em que consideramos que a árvore está morta?

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  4. Gosto de Luísa Sobral. Ainda bem que teve êxito. Se escreve tão bem como canta, é escritora. E a prova de que não existe assim tanto preconceito (por parte dos leitores) é o romance número um ir já na sexta edição.
    Parabéns à Luísa e à editora.

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