Excerto da Quinzena

Festejávamos, com alguns meses de atraso, os dez anos da refundação do Instituto por Paul, ao mesmo tempo que prestávamos homenagem à pessoa do fundador. Ou, mais precisamente, celebrávamos o décimo aniversário da «unificação» do Instituto, na primavera de 1991, e o quadragésimo aniversário da sua criação em 1961. Mas tratava-se, acima de tudo, de uma celebração dos trabalhos de Paul. Acho que não faltava ninguém – dos históricos, os do Leste, estavam todos presentes; os novos membros, os colegas de Berlim e de outros lugares tinham quase todos aceitado o convite. Alguns, como Linden Pawley, Robert Kant e alguns investigadores franceses, até tinham vindo do estrangeiro. Este congresso flutuante intitulava-se Jornadas Paul Heudeber; estavam previstas dois sessões por dia, teoria dos números, topologia algébrica, assim como uma sessão de história da matemática na qual eu iria participar.


O único ausente era o próprio Paul.


Maja acabava de festejar o seu octogésimo terceiro aniversário.


Maja bebia litros de chá.


Maja estava alegre e triste e silenciosa e faladora.


Todos sabíamos que o lugar dela não era ali, a bordo do Beethoven num colóquio de matemática; todos sabíamos que ela era indispensável ali.


 


Mathias Énard, Desertar, tradução de Joana Cabral

Comentários

  1. «Aviso à população

    Devido às inúmeras vicissitudes que o país tem sofrido, e que incluem a constante falta de material médico e produtos alimentares, avisa-se a população civil de que a reprodução humana se encontra uma vez mais proibida.

    SALVE-SE: POUPE ÁGUA»

    Cadernos da Água, João Reis, Quetzal, 2022.

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  2. Bati com a porta do frigorífico e encostei a cabeça contra ela.
    Que estupidez ter-me acomodado tanto! O frigorifico respondeu com um zunido de concordância. Que estupidez ter pensado que não ia tudo descambar num desastre. Essa sensação idiota que experimentei quando vi a casa pela primeira vez, baixa e branca como um seixo calcário no sopé negro das pastagens ondulantes , a segurança de não ter ninguém por perto a espiar-me, parecia ter acontecido há uma eternidade. Levei a mão ao lado do frigorífico para sentir o cabo do machado.

    TODOS OS PÁSSAROS DO CÉU - Evie Wyld
    Tradução - Isabel Alves

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  3. "Andam a 60, vão sempre pela faixa da direita, observam as árvores, as casas, porque para eles tudo é novo. Ao tempo que não passavam por ali. Estão-se nas tintas para os apressados, que buzinam furiosamente. Eles vão de passeio, não em competição, e levam muitas vezes o almoço, que comem num lugar tranquilo, à sombra das árvores. As crianças, soltas na Natureza, correm e gritam de felicidade, a mulher estende a toalha e serve a comida, a sogra aspira fundo o aroma do pinhal que é muitas vezes o aroma da sua juventude perdida.
    Regressam quase à noite, cansados. Foi um passeio bonito, o almoço estava excelente, sentem-se dispostos a iniciar uma nova semana de trabalho. E as mulheres da casa limparão amanhã conscienciosamente o automóvel, porque o marido terá ido para o emprego, de metropolitano ou de autocarro, como sempre. "
    Chauffeurs de domingo, em A janela fingida, Obras completas de Maria Judite de Carvalho, vol. IV, Minotauro.

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  4. "O reflexo aparece no mar quando o sol desce: uma mancha ofuscante estende-se a partir do horizonte até à costa, feira de miríades de cintilações ondulantes; entre uma cintilação e outra, o azul opaco do mar e sombra a sua rede. Os barcos, brancos em contraluz, tornam-se negros, perdem consistência e encolhem, como se tivessem sido consumidos por todas aquelas salpicadelas resplandecentes.
    É a essa hora que o senhor Palomar, homem de hábitos noturnos, dá as suas braçadas crepusculares."

    " Palomar" de Italo Calvino

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