Excerto da Quinzena

Tudo isso iria mudar. Já estava a mudar. Afinal de contas, aquele poderia ser o seu lugar. Por vezes, lá acontece encontrarmos o nosso espaço próprio, o predestinado a cada pessoa. O cantinho de terra, barro e árvores onde nos podemos deixar estar. De uma janela a outra. Até a cozinha, as lareiras. Tomando notas a lápis. Saindo para o alpendre para então se fixar na extensão de terreno que a rodeava, o passar do tempo e as suas sombras. Repetindo para si mesma: Sou compassiva. Sou universal. Sou absoluta. Uma reiteração associada ao rito. A um cerimonial em que se repetia a mesma fórmula como se se tratasse de um hino ou de um poema. Sem parar para pensar no seu significado. Sem refletir sobre a relação que pudesse existir entre as palavras. Sem esforço de memória.


Assim se comportava uma das mulheres de Betânia. Aquela a quem chamavam Coro.


 


Pilar Adón, De Bestas e Aves, tradução de Rui Elias

Comentários

  1. Propus ao motorista de táxi que me esperasse na pequena rue Charles-Marie-Vidor, que percorri a pé até à rue Claude-Lorrain onde se situava a igreja russa.
    Um pavilhão de um só andar e janelas com cortinas de gaze. Do lado direito, uma álea muito larga. Eu estava parado no passeio fronteiro.
    [...]. Sinto que o homem de grande estatura me olha atentamente antes de entrar na álea com os outros dois. Por trás das janelas de vitrais que dão para a álea ardem círios. Ele inclina-se para passar na porta, excessivamente baixa, e tenho a certeza que se trata de Stioppa.
    O motor do táxi estava a funcionar, mas já não havia ninguém ao volante. Uma das portas achava-se entreaberta como se o motorista fosse regressar de um momento para o outro. Onde poderia estar? Olhei à minha volta e decidi contornar o quarteirão à sua procura. Encontrei-o no café muito perto dali, na rue Chardon-Lagache. Estava sentado a uma das mesas, com uma imperial à frente.
    -- Ainda demora muito? -- perguntou-me.
    -- Oh... ins vinte minutos. [...].
    -- Não se importa que eu tenha o taxímetro a funcionar?
    -- Não faz mal -- disse eu. [...].
    Na rue Charles-Marie-Vidor, instalou-se ao volante do táxi e eu pedi-lhe que esperasse. Tornei a plantar-me diante da igreja russa, mas no passeio do lado oposto. [...].
    O tempo passava [...]. E o motorista de táxi? Dirigi-me a passos largos para a rue Charles-Marie-Vidor. O motor continuava a funcionar e ele estava ao volante mergulhado no seu jornal verde-creme.
    -- Então? -- perguntou.
    -- Não sei -- disse eu. -- Talvez seja preciso esperar mais uma hora. [...].
    -- O problema é seu... eu tenho que deixar o taxímetro a funcionar...
    Patrick Modiano - Na Rua das Lojas Escuras
    Tradução de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira



    -- Oh... Uns vinte minutos.

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  2. Mais uma coisa sobre o Jeremy: a epidemia de SIDA era nova. Havia homens na rua, esqueléticos e macilentos, e dava para ver que estavam doentes com esta praga súbita, de contornos quase bíblicos. E, um dia, sentada nos degraus da entrada com o Jeremy, eu disse algo que me surpreendeu. Depois de dois homens passarem devagar por nós, comentei:
    - Sei que é horrível da minha parte, mas quase os invejo. Porque se têm uns aos outros, estão unidos numa verdadeira comunidade.
    E nessa altura ele olhou para mim, com uma grande bondade no rosto, e vejo agora que reconheceu aquilo que não reconheci: que, apesar da minha plenitude, estava só. A solidão foi o primeiro sabor que provei na vida, e esteve sempre lá, escondida nas frestas da minha boca, para mo recordar. Ele viu isso naquele dia, parece-me. E foi generoso.
    - Sim – foi tudo quando disse. Podia facilmente ter dito: «Estás doida, eles estão a morrer!» Mas não o disse, porque compreendeu a minha solidão.

    Elizabeth Strout, O meu nome é Lucy Barton, tradução de Rita Canas Mendes.


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  3. «Num universo onde as realidades se desvanecem e se afirmam num constante devir, a metamorfose sussurrou a sua iminente chegada, desenrolando-se já no ténue véu do existir. À beira desse limiar, quase a tocar o sonho, emergia a promessa de um santuário para cada alma errante, um refúgio espiritual onde cada ser encontraria o seu lugar de pertença. Revelava-se, portanto, esse abrigo singular, esculpido na cadência dos dias que passam sem realmente transcorrer, destinado a cada existência que se desfaz na imensidão do ser.

    Esse pedaço de terra, mescla de argila e verdor, transcende um mero local de repouso, transformando-se numa ponte entre dimensões que capturam o tempo no seu eterno devir, abrangendo até os recantos dedicados à arte culinária e à domesticação do fogo, como se toda a vida pudesse ser encapsulada num momento imortal. Armado com um lápis, fiel veículo de grafite e devaneios, documenta-se a trajectória, avançando em direcção à abóbada que se alarga para o além, franqueando a visão do reino que se fragmenta em narrativas de evolução e no bailado de sombras que dançam sob os caprichos da luz.

    "Sou a empatia tornada carne", ecoava a voz, envolvendo o cosmos na sua totalidade, guardiã da quintessência da integridade. Essa proclamação repetia-se não como um eco, mas como um mantra, parte de um ritual, uma ode lírica que transcende as eras, esquivando-se propositadamente da reflexão sobre a sua essência mais íntima, como quem teme despertar de um sonho, evitando a disquisição da tessitura entre as palavras, e abdicando da empreitada de resgatar lembranças ansiadas e esquecidas, perdidas nas brumas de um passado ao mesmo tempo remoto e dolorosamente presente.

    Assim se manifestava uma das musas de Veloso, a quem chamavam Voz.»

    "As Dissecções de Próspero: Entre a Verdade e o Véu", por Lorenzo Allegri. [Tradução de Margarida Luttazzi]

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  4. Tudo começou de modo fascinante, mas terminou em trauma para a jovem de nome Macha, , uma rapariga fisicamente insignificante, sardenta e de óculos baratuchos, porém dotada de uma organização espiritual muito delicada . O trauma foi causado por Anna Veniaminovna, senhora de muita idade com cabelo branco e curto, de resto sem quaisquer más intenções da sua parte.

    LUDMILA ULITSKAYA- Mentiras de Mulher
    Tradução- Nina Guerra e Filipe Guerra

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  5. Com eu teria escrito (com idade faço isto com tudo o que leio, não é má vontade nem quero dizer que as minhas propostas são aceitáveis, é apenas como me soa melhor...): Tudo isso MUDARIA. Já estava a mudar. AFINAL, aquele poderia ser o seu lugar. Por vezes, lá acontece encontrarmos O ESPAÇO próprio, o QUE NOS É DESTINADO. O cantinho de terra, barro e árvores onde PODEMOS DEIXAR-NOS estar. De uma janela a outra. Até a cozinha, as lareiras. Tomando notas a lápis. Saindo AO alpendre para então se fixar na extensão de terreno que a rodeava, o passar do tempo e as suas sombras. Repetindo-SE: Sou compassiva. Sou universal. Sou absoluta. Uma reiteração associada ao rito. A um cerimonial QUE repetia a mesma fórmula COMO UM hino ou UM poema. Sem SE DETER A pensar NO SIGNIFICADO. Sem REFLECTIR sobre a POSSÍVEL RELAÇÃO entre as palavras. Sem esforço de memória.

    Assim se comportava uma das mulheres de Betânia. Aquela a quem chamavam Coro.

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  6. Como eu teria escrito (com a idade faço isto a tudo o que leio, não é má vontade nem quero dizer que as minhas propostas sejam aceitáveis, apenas me soa melhor... :) Pois é, também me calha...

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  7. «Tudo se iria transformar; ela poderia finalmente encontrar o seu lugar.
    Às vezes, descobrimos o espaço que nos pertence, o nosso lugar específico. Uma área de terra, argila e árvores onde podemos simplesmente existir, indo da janela para a cozinha, observando o fogão a lenha, enquanto anotamos algo a lápis.

    Ela saía para o alpendre, contemplando o terreno ao seu redor, observando o tempo passar e as suas sombras. Ela repetia para si mesma: "Sou clemente. Sou global. Sou total." Essas palavras eram um mantra para ela, um ritual repetido sem que ponderasse o seu significado, sem um esforço de memória.

    Era assim que se comportava uma das mulheres de Estefânia, conhecida como Pároda.»

    Pilat, S. (2024). Între Fiare și Păsări. Tradução para o português de João Adão. Lisboa: Editora Quimérica.

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  8. À beira do espelho, Coro, cicia em prece,
    No altar do seu ser, tão forte e tão doce.
    "Sou compassiva", ao vento murmura,
    Em cada palavra, a ternura perdura.

    "Sou universal", diz com um olhar profundo,
    Como o vasto céu, abraçando o mundo.
    Cada estrela, cada rio, em sua essência reflectida,
    Na dança dos destinos, a sua vida tecida.

    "Sou absoluta", aos céus, a sua voz eleva,
    Na certeza de si, como a rocha, altiva.
    Qual sol que ao crepúsculo não cede, valente,
    Sabe-se eterna, na escuridão, reluzente.

    Seu mantra, força que do íntimo brota,
    Desafia o destino, em sua rota.
    Mulher de mil lutas, na tempestade, dança,
    No olhar, a esperança, que nunca se cansa.

    "Sou compassiva. Sou universal. Sou absoluta",
    Em cada verso, a sua alma transmuta.
    No templo de seu ser, a prece, um hino,
    Um amor-próprio que é seu destino.

    "Fragmento de 'Canto Coral'." In Cadernos de Poesia e Arqueologia da Alma, ed. especial, p. 88. Lisboa: Edições Sibilas, 2024. Edição e prefácio por Helena de Castro e Marco Antônio Silva.

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