Não ensinar

Li recentemente num jornal um interessante artigo sobre o facto de as teorias de Darwin andarem arredadas dos programas de ensino na disciplina de Biologia, não só cá em Portugal, mas em muitíssimos países do mundo. Isto é tão grave que, por exemplo, grande parte dos alunos pensa que a selecção natural e a adaptação às condições naturais é uma coisa que parou no tempo de Darwin, não entendendo que, por exemplo, isso tem que ver com a extinção de algumas espécies nos dias de hoje ou a adaptação de muitos vírus aos antibióticos (e daí ser tão difícil erradicar a malária), causando danos tremendos a muitos habitantes do planeta. Mas há mais: tal como quando eu era miúda não se falava do Big Bang porque os programas do Regime veiculavam a criação do mundo por Deus e era pecado dizer que o homem descendia do macaco (no meu catecismo de capa azul, Adão e Eva eram todos perfeitinhos e lindos de morrer), também hoje algumas teorias darwinísticas ofendem, pelos vistos, alunos que professam determinadas religiões ou têm crenças demasiado fechadas, pelo que, para não se ofender ninguém, o melhor parece ser escamotear a informação. Que é uma grande tristeza, é.

Comentários

  1. Bom dia. Engraçado dizeres isso. Quando eu era criança, sempre tentava juntar uma coisa noutra e, mesmo em segredo, imaginava Adão e Eva como macaquinhos.

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  2. Sempre será uma tristeza, e, um facto, que se faça manipulação e uso direccionado do conhecimento científico.
    Mas faz-se! Seja pelos motivos religiosos, sejam políticos, sociais, económicos ou pelas mais diversas razões que vão desde a famigerada questão do género até ao política e ecológicamente correcto, passando pelo animalismo, e, actualmente por essa grande fonte de rendimentos e forma de tentar assustar e dominar as pessoas, que dá pelo nome último de "alterações climáticas". Como se fosse novidade.
    Os cientistas são mais reservados. Porém falam disso como se grandes especialistas fossem, políticos, artistas, economistas... que repetem convictamente aquilo que lhes é soprado pelos mais variados grupos de pressão e portanto de interesses.

    Só alguém muito desinformado, desconhecedor e até burro é que não percebe que o Planeta Terra é um gigantesco sistema VIVO, e como tal, estando VIVO, conhece alterações e se vai modificando consoante necessita de se adaptar, extinguindo mesmo o que haja que extinguir, inapelávelmente. Acreditar que conseguimos alterar o curso das mudanças ditadas pelas circunstâncias é uma toleima e uma tolice. O Planeta e nós mesmos, vamos mudando e adaptando às circunstâncias dessa mudança que ocorre em qualquer sistema vivo. No dia em que o homem faça mesmo perigar (e não consegue...) a Terra, ela o destruirá através dos seus mecanismos de defesa. Até lá, sofreremos as alterações como sempre aconteceu, lembrando-nos de que não somos os únicos e o que fizermos, a Terra avalia e reage.

    As teorias científicas, são isso mesmo: teorias. Podem ser comprovadas, mas podem conhecer alterações à medida que o conhecimento avança, sendo até por vezes postas de lado porque afinal não estavam completas, ou mesmo eram erradas.
    Lembro que os cientistas, enganam-se muito, e, mudam de opinião frequentemente.

    Nós humanos, somos o resultado de milhões de anos de uma evolução que ainda não acabou, pois enquanto estivermos vivos e presentes vamos sempre evoluir. Entenda-se evoluir por mudar e passar ao estágio seguinte, o que nem sempre é para melhor!
    A Terra sofreu e sofre alterações ao longo da sua existência, sofrerá sempre, nós vamos senti-las e das duas uma: ou nos adaptamos ou nos extinguimos.
    São processos que levam MUITO tempo, normalmente. Outros não, por exemplo, as estações do ano ocorrem em meses...as fases da Lua em semanas e as marés em horas, não o esqueçamos, na Terra tudo é cíclico.

    Saudações tranquilas e serenas, cá da Cidade Morena.



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  3. Sendo feitos à imagem de Deus, Adão e Eva teriam de ser perfeitos!
    Ora essa...
    Não podemos levar isto à letra, porque Adão e Eva são uma alegoria. Não o perceber é tão fraco quanto aceitar essa explicação para a criação do ser humano.
    Faço notar que a tão criticada religião cristã é uma daquelas que se pratica entre os que mais evoluíram em termos de ciências incluindo a medicina. Judeus e Hindús, também.
    Ou não será?

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  4. Este post da Maria do Rosário fez-me lembrar de uma das coisas mais deliciosas que já li e que me fez rir (e pensar) do princípio ao fim. Falo de um conto do Eça de Queiróz: Adão e Eva no Paraíso:
    "Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde... (...)Então, numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirara toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no solo que o musgo afofava, sobre as duas patas se formou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança da animalidade."
    Isto foi escrito há mais de 100 anos e o nosso Eça não se coibiu de tratar o assunto do criacionismo e do Darwinismo com o humor e a acutilância que lhe conhecemos, numa época em que beliscar o catolicismo era grande ousadia.
    Estará a evolução da sociedade ocidental a retroceder na liberdade de pensamento?

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  5. Interrogação: Estará a evolução da sociedade ocidental a retroceder na liberdade de pensamento?
    Aquilo que sinto e penso: Está! Com a diferença que, actualmente, existem meios de contrôle eficientíssimos e jamais imaginados!

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  6. É verdade; já somos escutados e escrutinados por meios informáticos e inteligência artificial. Nem George Orwell, na sua denúncia ao totalitarismo chegou tão longe. As teletelas do Big Brother são óbvias e arcaicas, se comparadas com os nossos telemóveis, que inocentemente pousados sobre a mesa escutam e transmitem tudo o que dizemos.

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  7. Aureliano de Magalhães11 de fevereiro de 2024 às 05:05

    Primeiramente, constitui uma afronta sem paralelo, um autêntico ataque aos pilares da nossa herança lusitana, avançar com a proposta de que nas escolas se deve ministrar a doutrina de um britânico de farta barba, convicto na ideia de que a nossa origem remonta aos símios! Tal proposição é de uma inaudita falta de decoro.

    Nos idos tempos em me que instruía, eram leccionadas, com efeito, as narrativas de verdadeiro valor, como a de Adão e Eva. E, pergunto, que inconveniência tinha isso ser feito com o devido respeito? Acaso a confusão relativista que hoje grassa seria mais aconselhável? Será mais aprazível ensinar ao infante que recusa o seu Cerelac de Aveia e Banana, uma selecção da natureza da Nestlé, "come a papa, pois os teus ancestrais gostavam mais de bananas do que tu"?

    Quanto ao "big bang" – que, confesso, sempre me soou mais apropriado como título de um jogo de cartas do que propriamente para designar o alvorecer de toda a existência – trata-se de um conceito aparatoso segundo o qual o cosmos teria a sua origem numa grandiosa deflagração. Uma explosão, imaginem! Como se tudo aquilo que nos é familiar tivesse sido extraído de um chapéu de um bombista-ilusionista, num espectáculo de prestidigitação de guerrilha cósmica. Ao invés de se permitir que as ideias maturem, ou de se buscar a sabedoria contida nas Escrituras, opta-se por forjar uma teoria imediatista, tal como as demais ideias passageiras que caracterizam o pensamento anistórico dominante. É preciso dizer Chega!

    Asseguro-vos, sem margem para dúvidas, que Darwin laborou num erro crasso ao supor que o "big bang" guardasse qualquer relação com a evolução das espécies. Como se as girafas tivessem alongado os seus pescoços para melhor vislumbrar os primórdios dos tempos, ou como se os peixes tivessem resolvido abandonar as águas para não perderem o grandioso espectáculo cósmico. Uma falácia, sem sombra de dúvida! Deus não joga às cartas!

    Deve-se à introdução de teorias frívolas nas mentes juvenis a razão pela qual, nos dias que correm, as espécies se adaptam e evoluem a um ritmo mais acelerado do que o desenvolvimento das nossas crianças, e os vírus se tornam mais astutos do que os estudantes na véspera de um exame – assistimos a um autêntico drama. Uma macacada, é o que isto é.

    Ora, deveríamos, em boa verdade, preservar a nossa prole na benfazeja escuridão da ignorância, pois, como é de conhecimento geral, a ignorância é uma benção... Ou seja, ao propagar tais ideias evolucionistas, que mais não são do que pseudociências, estamos a incorrer no perigo de fomentar o espírito crítico e a inquirição, levando a geração vindoura a ser mais informada e capaz de pensar criticamente. Que abominação! Antes renunciar ao consumo de bananas.

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  8. Aureliano de Magalhães11 de fevereiro de 2024 às 05:28

    Permitam-me que avance com a sugestão de uma reformulação do ensino acerca da origem das espécies nas escolas lusitanas. Deixo aqui, para um próximo Ministro da Educação que seja ventureiro, uma humilde proposta para uma lição destinada aos petizes do primeiro ciclo do ensino básico:

    «Num alvorecer que a história não registou, antes de quaisquer estampidos cósmicos ou deflagrações estelares, presenciou-se uma manhã esplendorosa naquilo que hoje evocamos como o jardim do Éden, que para fins didácticos nomearemos jardim de Évora. Foi neste cenário que se desenrolou o início de tudo, com os nossos progenitores, Adelino e Evarista.

    É claro que Adelino e Evarista não eram macacos - Adelino era um homem português de peito feito e Evarista era uma mulher portuguesa trigueira e agenciadeira. Adelino, varão de porte altivo e bigode farto, emblema dos autênticos portugueses, foi o primeiro a desbravar as terras ubérrimas deste nosso jardim à beira-mar plantado. Evarista, modelada a partir do esternocleidomastóideo de Adelino, representava o apuro da obediência e da modéstia, sempre solícita na preparação de uma açorda alentejana, na organização do lar e na geração de robustos varões e dóceis donzelas, perpetuando as tradições que tanto nos são caras.

    De Adelino e Evarista descende a totalidade da humanidade portuguesa. Não se deu evolução a partir de outras formas de vida, mas antes uma meticulosa selecção das virtudes que conferem ao povo português a sua singularidade: a proeza de descobrir novos mundos a partir deste recanto europeu, a arte de prosperar com escassos recursos, aqui conhecida como "desenrascar-se", e, como não poderia deixar de ser, o devotado apreço pelo bacalhau.

    Importa que os jovens portugueses aprendam como, através dos tempos, os descendentes de Adelino e Evarista se espalharam pelos quatro cantos do mundo, difundindo a língua portuguesa, a saudade, o vinho verde e um talento nato para o futebol. Os gentis costumes e a magnanimidade benfazeja dos colonizadores portugueses são ainda hoje louvados por todos. Contudo, mesmo diante destas jornadas e conquistas, jamais esqueceram os laços profundos com o solo natal.

    Assim sendo, caros alunos, a história da humanidade portuguesa deve ser vista não como um encadeamento de mutações fortuitas e selecções naturais, mas como a epopeia de um povo predestinado desde o berço da civilização a disseminar a cultura, a língua, a touriga nacional e o espírito lusitano pelo globo, respeitando sempre a peculiaridade de cada ser e estabelecendo diálogo com as demais etnias, incluindo os nobres selvagens.

    Recordai-vos, esta interpretação da teoria da evolução é tão válida quanto qualquer outra, sobretudo nestas terras de Camões, onde a história e o costume se conjugam para forjar a identidade poética de uma nação. E é com este orgulho e convicção que devemos viver os nossos dias, enaltecendo a nossa linhagem divina de Adelino e Evarista, os verdadeiros patriarcas da nação portuguesa.

    E agora, abramos os nossos manuais na página dedicada ao milagre de Ourique, pois a história pertence-nos e a mais ninguém. Viva Portugal!»

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  9. AHAHAHAH!
    Não rio por troça, note.
    Gostei, apreciei e fica registado.
    Que concorde com tudo, isso é outra história e seria tema para longas conversas.
    Grande abraço cá da Cidade Morena, para onde me atirou o DNA de Adelino e Evarista.

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  10. Irónico que num texto sobre a falta de ensino de ciência se misture antibióticos, vírus e a malária...

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  11. Os mecanismos evolutivos propostos por Darwin são fundamentais para a compreensão da biodiversidade, da extinção de espécies e da emergência de novas formas de vida. Compartilho, por isso, a sua preocupação por o ensino das teorias de Darwin na escola estar a seguir o mesmo destino da palanca negra gigante, um símbolo emblemático da nossa biodiversidade em Angola, que enfrenta sérios riscos de extinção.

    Quando abordamos a questão da malária e a adaptação de muitos vírus aos antibióticos, é crucial corrigir um mal-entendido comum. A malária, uma doença que afeta severamente a nossa população, é provocada por parasitas do género Plasmódio, transmitidos pela picada das fêmeas infectadas do mosquito Anopheles.

    Na comédia grega antiga, um personagem recorrente era o "parasita". Essa figura era frequentemente retratada como um bajulador, um adulador, ou alguém que se esforçava excessivamente para se aproveitar da riqueza dos abastados, geralmente em troca de entretenimento ou lisonja.

    Embora a comparação possa parecer inusitada, a figura do parasita na comédia grega oferece uma analogia interessante para a compreensão do conceito biológico de parasitismo. Assim como o parasita da comédia buscava aproveitar-se dos ricos, os parasitas biológicos também vivem à custa dos seus hospedeiros, obtendo deles nutrientes e recursos para a sua sobrevivência e reprodução.

    Dito isto, a afirmação sobre a adaptação de muitos vírus aos antibióticos, relacionando-a com a dificuldade em erradicar a malária, carece de precisão científica. Os antibióticos funcionam apenas contra bactérias, que são organismos unicelulares procariontes. A malária é causada por protozoários parasitas, organismos unicelulares eucariontes, do género Plasmódio (P. vivax e P. falciparum são os tipos mais comuns), que são diferentes das bactérias e não são afectados pelos antibióticos. A resistência aos tratamentos na malária deve-se, de facto, à capacidade de adaptação dos parasitas Plasmodium aos medicamentos antimaláricos, com a crescente resistência do parasita aos medicamentos disponíveis.

    Em Angola, a malária representa um desafio significativo de saúde pública, figurando entre as principais causas de morbidade e mortalidade. Para se ter uma ideia da magnitude do problema basta assinalar que, em 2023, foram diagnosticados 12 milhões de casos da doença, resultando em aproximadamente 6.000 óbitos.

    É incontestável que o parasitismo constitui uma das estratégias de sobrevivência mais prevalentes na biosfera. Estima-se que mais de 40% das espécies catalogadas se enquadram na categoria de parasitas. Estes organismos são, sem dúvida, entre os mais prolíficos e bem-sucedidos do planeta, apresentando adaptações evolutivas notáveis que, por sua vez, impulsionam a evolução nas espécies hospedeiras.

    A realidade é que, independentemente do quão admirável uma espécie possa ser, ela está sujeita ao parasitismo. Nós, seres humanos, não somos excepção, convivendo com uma multiplicidade de parasitas. Cada organismo trava uma constante batalha de adaptação contra os parasitas que o desafiam. Essa dinâmica não conhece excepções. Até mesmo os parasitas, na sua maravilhosa complexidade, podem ser hospedeiros de outros parasitas.

    É verdadeiramente necessária uma educação científica robusta e acessível, que possa desmistificar conceitos e promover um entendimento mais aprofundado dos desafios actuais em biologia e saúde pública. A promoção deste conhecimento é essencial não apenas para a comunidade científica, mas para toda a sociedade, permitindo-nos enfrentar coletivamente os problemas que afetam muitos habitantes do nosso planeta. A escola é o lugar certo para equipar os nossos estudantes com um sólido entendimento científico, que inspire a próxima geração de cientistas, médicos e decisores políticos a enfrentar os desafios de saúde pública com base em evidências e inovação.

    Há algo em que concordo consigo – em absoluto - não podemos deixar que a escola seja parasitada pela ignorância.

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