Política e literatura

É conhecida a relação dos intelectuais com a política. Nas Correntes d'Escritas, este ano os temas das mesas eram quase sempre versos de canções daquelas a que em tempos chamámos «de intervenção», embora Sérgio Godinho (autor de pelo menos uma das canções escolhidas pela organização) não goste do termo. Talvez por isso (e porque este ano se comemora o 50º aniversário do 25 de Abril, houve sempre alguém que fez uma comunicação política, ora lembrando o «antes» da Revolução dos Cravos, ora chamando a atenção para o que aí vem e para a desilusão de quem sonhou, viu acontecer e agora está a assistir a uma espécie de desmontagem do sonho. Gonçalo Tavares falou disto e de uma nova geração que é profundamente racista, evocando e discutindo o termo «democracia». Mas o que mais me afligiu foi uma conversa em privado com um amigo que, por razões de trabalho, circula pelo mundo. Agora a viver na Jordânia, onde trabalham muitíssimos palestinianos que não podem visitar as famílias, ficou horrorizado quando percebeu que, nas imobiliárias, já se estavam a vender lotes de terreno em Gaza, junto ao mar, para construção de condomínios de luxo, contando com o desaparecimento total de palestinianos muito em breve. O imbatível horror. (Dizem-me em Portugal que é fake news a venda de terrenos à beira-mar, e talvez tenham razão, mas os civis mortos em Gaza chegam quase aos 30. 000, pelo que qualquer dia bem pode ser uma notícia verdadeira).

Comentários

  1. Tem-se assistido à utilização da posição de ocupante para apropriação de território usando-se para tal as fases intensas das guerras, a construção de milhares de urbanizações em espaço alheio e o estrangulamento do território através de autoestradas que ligam as urbanizações e quebram o contacto entre as localidades que existiam anteriormente. De nada vale aos palestinos desencadearem operações de morticínio de vez em quando pois acabam por sofrer largas dezenas de milhares de mortos e estropiados. O problema não tem solução. Será pela conquista da Palestina e o extremínio, fuga e refúgio da sua população?

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  2. Albertino Nunes Ferreira27 de fevereiro de 2024 às 11:39

    Israel nunca concordará com a solução 2 estados, venham as pressões de onde vierem, a evolução da guerra assim o designa: o 7 de outubro foi a vacina para eliminar não só o hamas mas tb a AP; a Cisjordânia e a Faixa de Gaza não têm futuro; Egipto, Jordânia e Emiratos terão de acolher o que restar dos palestinianos.

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  3. Boas. Hoje, infelizmente, a fonte do verdadeiro horror, para a "banalização do mal", tem sido a banalização da indiferença. A ocupação sionista das terras nunca parou, e tem revelado uma voracidade imoral. Mas Israel só o faz porque tem os cúmplices que tem, onde também está a Europa. Honra seja feita à Espanha de Sanchez nestes últimos tempos. Que o horror a que tem estado sujeito o povo palestino não nos façam esquecer muitos outros povos, Curdos, Arménios...

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  4. *não nos faça esquecer

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