Excessos
Num fim-de-semana em que estava a escrever um texto para as Correntes d'Escritas e não tinha grande disponibilidade para livros extensos, comecei um livrinho de Stefan Zweig, Foi Ele?, com tradução e posfácio de Francisco de Nolasco Santos. Zweig é quase sempre uma garantia de tempo bem passado, e esta novela, que foi escrita ainda antes de o autor ter ido viver para o Brasil mas só foi publicada já ele lá estava (de resto, estreou-se com uma edição em português), é um livro algo atípico na obra do escritor. Partindo da relação entre dois casais, um mais velho e o outro mais jovem, vizinhos recentes numa propriedade junto de Bath, a mulher mais velha decide oferecer ao casal mais jovem um cachorro para que o excessivamente enérgico Limpley gaste energias e deixe mais sossegada a sua Betsy. A paixão-devoção do homem pelo cão é, porém, de tal forma que passa a ser o cão a mandar no homem e nunca mais se largam. Mas eis que Betsy de repente sabe que vai ser mãe e o cachorro passa para segundo plano com conseguências bastante sérias. Vale a pena ler, ainda que a tradução às vezes pareça esquisita em certas passagens, mas o posfácio é bastante interessante, sobretudo nas comparações que faz com a aceitação e o entusiasmo iniciais com o nacional-socialismo.
Não conhecia essa obra de SZ!
ResponderEliminarPelo que diz quanto ao relacionamento homem-cão e o impacto disso na vida do casal, parece até coisa actual?
Parece-me ver o exagerado impacto que os animais de companhia (os denominados "patudos", brrr, detesto o termo tanto quanto o Severino odeia o "tuga") passaram a ter nas pessoas, pela sua solidão urbana, e mesmo nas famílias, pela substituição de afectos entre pessoas que mal se falam, comunicando erradamente através da agressão verbal e psicológica, incapazes da tolerância que deveria pautar o relacionamento pessoal dentro da família, quando já só se usam artefactos de comunicação digital e multimédia para se estar ligado a quem não está, desprezando pura e simplesmente os que estão.
No mais do resto, SZ foi sem dúvida um grande escritor, cuja sensibilidade adivinho tenha perturbado sériamente a sua existência, a despeito do sucesso e reconhecimento alcançados ainda em vida. Nem sempre apreciamos aquilo que alcançamos, diria eu, e tanto menos quanto mais sofisticados ou evoluídos. O karma... tem destas coisas.
Votos de um Extraordinário fim de semana e que o karma nos seja favorável, sinal de que o merecemos. Fiquem bem, cá desde a Cidade Morena.
Já li, sou um entusiasta de Stefan Zweig; quando era jovem li quase todas as novelas publicadas entre nós pela editora Civilização e, mais recentemente, as biografias e os ensaios; a da Maria Antonieta, da Maria Stuart e de Balzac são excelentes; nos ensaios recomendo O Combate com o Demónio, Três Poetas da Própria Existência e as Memórias O Mundo de Ontem. Aliás, a melhor biografia do escritor "Morte no Paraíso" é a do brasileiro Alberto Dines, publicada entre nós pelo Círculo de Leitores
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