O senhor Luís Vaz de Camões

Este ano (além dos 50 anos do 25 de Abril!), comemoramos o quinto centenário do nascimento de Camões, que é o nosso poeta maior, o herói que salvou a obra-prima das águas, escreveu uma epopeia inesquecível sobre a viagem do Gama, mas foi também um mulherengo incorrigível e um homem que praticou alguns crimes por que esteve preso. Vasco Graça Moura, que nunca gostou muito de Pessoa e da importância que lhe era dada lá fora, sempre defendeu Luís de Camões com unhas e dentes como o poeta-mor da pátria. E, realmente, o seu génio na construção de uma obra como Os Lusíadas é absolutamente insuperável, a menos que tenhamos do outro lado um Dante ou um Shakespeare. A biografia do mestre, assinada por Isabel Rio Novo, está anunciada e sairá ainda neste ano do quinto centenário, prometendo novidades. Eu, que adoro a lírica camoniana, homenageei humildemente Camões com um fado que Carminho gravou há muitos anos (mas que quase nunca se ouve, nem no rádio nem ao vivo, para grande pena minha) que pretendia ser uma «alusão» a «Amor é fogo que arde sem se ver», mas, claro, sem a genialidade do senhor Luís Vaz. Espero, de qualquer maneira, que gostem.


 


Vem essa coisa qualquer


Como seta despedida


Direita ao meu coração.


E eu choro e rio sem querer,


Nunca de mim tão perdida,


Pobre de mim, tão sem chão.


 


Que luz é essa que cega,


Que desatina, atordoa,


Que vem de dentro e me invade?


Que me transtorna se chega,


Mas quando parte magoa


Num alívio que é saudade.


 


Vem essa coisa tão estranha


Dar-me um laço que desprende


Tanta doçura que amarga.


E eu pequenina e tamanha


Num corpo que não se rende


A uma estreiteza tão larga.


 


Que graça é essa tão séria,


Que corrói até ao osso


E me arde de tão fria?


Dá-me tudo, até miséria,


Vem, meu amor, que eu não posso


Viver assim mais um dia.


 

Comentários

  1. Albertino Nunes Ferreira2 de fevereiro de 2024 às 01:01

    Numa aula de escrita criativa na Universidade Sénior que frequento foi pedido um trabalho com 700 palavras subordinado a dois items, entre cinco, que eu destaquei: imortalidade e esquecer o passado. Eu escolhi três personagens: Camões, sem saber que era o 5º centenário, Shakespeare e Dostoievski.

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  2. ".... sem a genialidade do senhor Luís Vaz", talvez, mas que lhe apanhou o jeito... acho que sim!

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  3. VGM não é o único a pensar assim. Fernando Pessoa é sobrevalorizado. Publica-se muita coisa dele que salta aos olhos ter sido escrita para mais tarde rever ou só para ele, sem cuidados com a linguagem e mesmo com erros de raciocínio (que ninguém tem a coragem de apontar). A maioria do que se tira da arca prima pela fraca qualidade. Dito isto, tem autênticas pérolas, como 'O menino de sua mãe', por exemplo, Alberto Caeiro, etc. Mas, para mim, ninguém se compara a Camões. "Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, /Vem não sei como e dói não sei porquê."

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  4. A História parece ter a sua racionalidade: no momento em que Portugal atingiu o máximo da sua grandeza, como um meteoro surgiu Camões, o ponto máximo da sua poesia e da sua literatura.

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  5. Aplaudo!
    E ambos se apagaram na mesma altura...

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  6. Lembro-me sempre do meu professor de português do 5º ano, de nome Barata se bem me lembro, fazer-nos declamar "Os Lusíadas", enquanto acompanhava batendo o ritmo no tampo da secretária: "pá-rá-pá-pá-pá! Isto é maravilhoso pá! ". Abençoado entusiasmo e amor pela obra, que me fez percebê-la e lê-la, ficando para sempre!
    Gosto muitíssimo de Camões, sim, sem dúvida, eu que nem sou consumidor de poesia.
    Já agora, acho lindíssima a letra do Fado que a Nossa Extraordinária Anfitriã aqui nos traz. Também gosto bastante da voz e da postura da Carminho.
    Quanto ao Luiz Vaz, para mim é um mito, assumo, e uma personalidade interessantíssima tanto quanto é um mistério. Como é que aquele alegado truão mulherengo, conseguiu reunir ao longo de tantos anos e andanças tamanho conhecimento clássico para conseguir escrever coisa tão bela? É Extraordinário e inexplicável. Notem que quando digo truão mulherengo é com admiração e não por desprezo.
    Aguardo impaciente poder ler o livro em questão, que vi noticiado por aí num artigo.
    O homem por trás do mito.

    Quanto a Pessoa, assumo igual fascínio pelo autor que compõe outro mito, do homem e os seus vícios, do génio que para mim possui em tanta coisa que escreveu.

    Fica-me a sensação de que os génios, como estes de que aqui falamos, não são mesmo deste Mundo e se alevantam muito para além de nós. Como diz o meu Amigo Alvarito, são extraterrestres!

    Saudações terrestres desta traça cá pela Cidade Morena - por acaso estou a escrever no meu gabinete na Baía Farta, ouvindo a cachopada que saiu da escola a gritar e a brincar no largo da Administração, aqui em frente. Um privilégio, para mim.

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  7. «Comemoramos o quinto centenário do nascimento de Camões»?

    Quem é que comemora? Só se forem indivíduos, leitores, em Portugal e em outros países, mais ou menos exteriorizando a sua admiração. Porque comemorações oficiais, promovidas pelo Estado, pelo (des)Governo nacionais, não existiram. Muito provavelmente porque os extremo-esquerdistas que têm exercido (há tempo demais) o poder vêem no poeta um símbolo de um passado (para eles) vergonhoso.

    Do meu livro «Q - Poemas de uma Quimera» (2015):

    «Não chores, Camões, se no teu sepulcro estiver mais de uma ossada.
    Tu és imortal. Eles são nada!»

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  8. Nunca ouvi esse fado, mas é verdade que não sou muito dada à canção nacional. E é pena, o poema é bonito e merecia quem o cantasse e repetisse, e repetisse. Também não sei por que razão não se canta Camões, a lírica camoniana é um prodígio de inteligência, mestria e sensibilidade. Camões é um poeta genial, o que não me faz gostar menos de Pessoa que também penso muito fora do comum que verseja. Camões anda esquecido e muito mal interpretado.

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  9. Anos 50, Huambo, o grupo de canto coral da Escola Sarmento Rodrigues, orientado por uma dedicada professora, cantava a duas vozes:

    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram ;
    ……

    E assim por diante, até:
    ….
    Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    Em vez de dividirmos as orações, ficamos a conhecer Camões cantando e o efeito era grandioso. De tal modo que ainda hoje sei de cor música e poema.

    E devia ser assim que nos deviam apresentar o genial Luis Vaz de Camões.






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  10. A poesia não é o meu forte, por isso fui ouvi-la cantada. Gostei do fado. Afinal, há sempre uma forma de sentir poemas.

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  11. Muitos vão assinalar, e comemorar, o génio de Luís de Camões no quinto centenário do seu nascimento, mas a negligência do Estado cai sempre mal.

    https://www.publico.pt/2023/12/20/culturaipsilon/noticia/programa-comemoracoes-500-anos-camoes-2024-2074326
    (url)

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  12. Endechas A Bárbara Escrava

    https://www.youtube.com/watch?v=_TKex-qxPiw

    Verdes são os campos

    https://www.youtube.com/watch?v=QLSvpWmqn6c&list=OLAK5uy_narPadFsr0RoNx1zI20yoevw8qopZciHM&index=9

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  13. Obrigada. já conhecia. Fica a lembrança

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