O que ando a ler
Sejam bem-vindos os que chegam pela primeira vez ou regressam aqui ao cantinho de sempre depois de uma merecida pausa. Oxalá não tenham apanhado o vírus, mas, se o apanharam, que tenha sido leve. Eu não li tanto como gostaria nestas férias, mas escrevi bastante mais do que planeara, e portanto é como se uma mão lavasse a outra. Não posso dizer que, em matéria de leituras, tenha ficado satisfeita, mas falemos hoje do livro que ainda tenho entre mãos. Chama-se Herança, escreveu-o Vigdis Hjorth, e diz a revista New Yorker que se trata de um romance que "dividiu uma família e cativou um país". O país é a Noruega, onde a autora nasceu, e por lá o romance venceu uma data de prémios e tornou-se um fenómeno de vendas. A família é a da própria história, e está desavinda por causa de umas casas de férias que, pelos vistos, os pais decidiram que só as filhas mais novas deveriam herdar. Mas, por detrás da injustiça relatada por uma irmã que não herdará (ela e o irmão mais velho são os lesados), há um episódio francamente traumático que atravessa toda a narrativa e envolve os dois irmãos e o pai que entretanto morre de forma um tanto misteriosa. Embora seja um livro interessante, é quanto a mim bastante repetitivo e arrasta-se desnecessariamente; porém, ao mesmo tempo, está cheio de pequenos capítulos preciosos, alguns líricos, outros puros apartes sobre filosofia, teatro, psicanálise..., que o tornam bastante original. Já me falta pouco para chegar ao fim e, apesar de trezentas páginas lidas, sinto que ainda não sei tudo o que precisava. Será este o segredo do seu sucesso?
Sou cada vez mais céptico (ou negacionista?) quanto à avaliação de um romance pelos prémios recebidos. Isso parece ser actualmente uma mera forma de os promover, pois que os prémios existentes são tantos que se vulgarizam, porém o interessante é que os leio, afinal não gosto!
ResponderEliminarCertamente que defeito meu, porque quem os elege é insuspeito e terá muito maior capacidade do que eu para os premiar, mas a minha verdade é que compro e leio o que gosto, e, quando compro influenciado pela premiação, bastas vezes pela sinopse e mais ainda pelo título, sai livro que não se me revela afinal assim tão bom!
Começo portanto o meu ano de traça livresca com esta declaracão anti-premiativa!
Eheheheh!
No mais do resto, bom ano para todos nós Extraordinários amantes dos livros e de ler ou de escrever, de os fazer, vender, editar, traduzir, imprimir! Só deixo de fora os júris dos concursos literários, a quem desejo treçolhos com fartura! Ahahah, é a vingança deste triste.
Prontos!
Saudações cá do Bairro Ribatejano, rodeado de livros, lenha e hoje nevoeiro.
PS - Já segue o meu rol de leituras.
Bom dia cá do Bairro Ribatejano de dias sombrios, enevoados e húmidos, que a pastagem agradece e a vacada também, pois gulosamente retoiça trevos e azevém que brotam tenros, sápidos e suculentos, engordando mães aleitantes, anafados cobridores incansáveis e nédios bezerros em reservado bucolismo invernoso.
ResponderEliminarEncontrei à chegada uma montanha de livros que fui pedindo à minha mulher para comprar, ela locupletando-se dos pontos do cartão Bertrand para os livros dela (esperta!), o que não constitui motivo para divórcio faço notar. Entretanto comprei eu mesmo mais alguns, pois logo no dia em que cheguei além de me vacinar (que remédio...) fui à livraria ver o que havia! Bom, só livros premiados (sou chato não sou?) eram às paletes!
Comprei um livro aconselhado aqui pela Nossa Extraordinária Anfitriã, que eu não queria ler, porque me palpitou ir provocar forte impressão de que não necessito, pela carga que já constitui viver e conviver directa e diáriamente com aquilo de que trata o referido romance:
Notas sobre um naufrágio – Davide Enia. Foi o livro que mais me marcou em 2021. Aconselho, esclarecendo que não é um relato de desgraceiras, nem apelo a que se recebam migrantes, declaração política nem nada daquilo que se possa pensar: mais do mesmo ou propaganda! É um livro profundamente humano, de sentimentos, onde se fala da humanidade e desumanidade, seja a dos migrantes e pelo que passam, sejam as memórias do autor e o seu relacionamento pessoal com o tio que está a morrer, com o pai, onde ouvimos falar aqueles que directamente lidam com os naufrágios - que é o tema: O capitão do barco de resgate, o mergulhador de resgate, a jovem médica, quem acolhe gente e corpos na ilha de Lampedusa.
Dou a mão à palmatória! É um belíssimo livro, muito bem escrito, sem lamechice, por um repórter que soube meter-se pelo meio do relato.
Fui lendo entretanto:
Mitologia Popular Portuguesa – Alexandre Parafita, uma compilação dos seres fantásticos e sobrenaturais da nossa tradição.
Pássaro dourado – José Maria da Cunha, um meu confrade caçador-escritor que dedicou à mítica galinhola um livro de poesia, sui generis, mas bucólica, expressão do sentimento que prova uma vez mais não sermos meros matadores sedentos de sangue.
Poemas adiados – Joaquim Taborda, outro livro de poemas de um amigo, também caçador, que vive na margem do inspirador Rio Minho, cuja filha adolescente morreu recentemente e o levou em sua memória a publicar os poemas que ela lhe pedia para o fazer, daí o nome de "adiados". Um libelo da sensibilidade de um homem do ar livre e muitas experiências entre Minho e Angola.
Homens sem coração – Guilherme Piló (Fundação Francisco Manuel dos Santos), um opúsculo, contendo a notável memória das companhas de um antigo pescador de bacalhau, que é memória colectiva de um povo e devia ser leitura obrigatória! Na sua escrita simples mas clara e sabedora, este homem rude mas de coragem indómita, conta como era!
Os Dragões em África – o retorno do cavalo nas guerras de contrainsurreição – John P. Cann. Uma obra muitíssimo interessante deste antigo perito militar da CIA que se dedicou a estudar a forma como os portugueses fizeram e aguentaram, a guerra colonial, por a achar um caso-estudo.
Um dia chegarei a Sagres – Nélida Piñon... lá está um livro que comprei por influências da crítica e etc. A senhora escreve bem, sem dúvida, é interessante e tem muito para dizer, no entanto não me parece que constitua memória de coisa nenhuma a não ser a ficção daquilo que os intelectuais brasileiros acham sermos nós, portugueses, sem perceber que nos reproduzem à sua imagem, aliás porque eles não são mais do que o nosso reflexo que se recusam a ser. Um livro bem escrito, interessante, mas muitíssimo chato porque repetitivo, passado no imaginário do pretérito século XVIII e que ando a ler ainda, aos poucos, dado que é mesmo massudo e não se lê assim com tanta facilidade. Mas é bom! Notem.
Finalmente, a cereja no bolo, que em tempo de bolo-rei faz todo o sentido: O também aqui anunciado no HE, "O
Boa tarde Extraordinário António e demais Extraordinários Leitores:
EliminarAntes de mais desejo-lhe um Excelente Ano para si e para todos os frequentadores deste espaço. E depois, fiquei com tanta, mas tanta vontade de ler o livro que aqui refere: "Notas sobre um naufrágio – Davide Enia"! E este "meu desejo" já tem uma semana ou mesmo duas. Desde a altura em que a "sua tão proveitosa leitura" foi aqui referenciada pela primeira vez. Hoje também fiquei com muita vontade de entrar nos detalhes desta Herança tão pouco justa à partida.
Resultado: já fazem os dois parte de uma lista de "monografias a adquirir". Que é lista jeitosa que já vai para cima das 93 referências.
Tudo de Bom para si e para Todos os Extraordinários e Anfitriã. Que como é evidente se poderá (e deverá considerar), Extraordinária Primeva.
E Excelentes Leituras! (Não há qualquer desculpa para não se lerem Bons Livros).
Celeste Silveira
Agradeço e retribuo a sua gentileza, Extraordinária Celeste!
EliminarPosso garantir-lhe que "Notas sobre um naufrágio", vale mesmo a pena ler.
Idem para "Homens sem coração"... sabe o porquê do curioso título? Pois porque segundo o autor e protagonista, quando partiam, para não sofrerem eles deixavam o coração no armário, em casa!
Um homem simples e rude, porém um filósofo este nosso pescador, que não sabia apenas de mar e da pesca.
Votos de um Feliz Ano, recheado de boas e proveitosas leituras.
Ai... aqui d'el Rei!!!!
ResponderEliminarEsqueci-me do melhor e mais esperado (por mim) de todos os livros de 2021:
No nosso Extraordinário, Espirituoso e Inspirado Paulo Moreiras: "O Caminho do burro".
Uma colectânea de contos, populares e escritos bem à sua maneira, numa linguagem apropriada, castiça, rica, como é sua característica, com humor e saber, que percorre um pouco do país e recorda algumas tradições, lendas ou recria histórias daquelas que os avôs deviam contar aos netos à lareira!
Pela defesa da nossa cultura, divulgue-se e leia-se este caminho de burro, mas pouco asno!
Boas leituras!
Estou a ler "O que Eu Ouvi na Barrica das Maçãs", de Mário de Carvalho, uma seleção de crónicas publicadas no Público e no JL. Textos curtos onde abunda o humor, a observação precisa e muitas vezes cáustica, o humanismo, servidos por uma escrita elaborada, que consegue ser leve quando convém. Para mim, um excelente começo de ano.
ResponderEliminarAndo a ler A Boa Sorte de Rosa Montero para o nosso Clube de Leitura de Janeiro; estou quase a acabar Recordações da Casa dos Mortos de Dostoievski; comecei o Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão e acabei de ler Como Se Fosse um Romance de Mário Augusto.
ResponderEliminarAcabei de ler "Conflito em Palmyra", de Erskine Caldwell.
ResponderEliminarUm amigo tinha-me confidenciado há uma série de anos que este foi um dos livros que mais o tinham marcado, mas não falámos da temática. Foi por isso que acabei por comprar um exemplar um bom estado, penso que na Feira da Ladra.
Como tenho andado em arrumações, ele acabou por ficar "visível" e comecei a lê-lo e acabei-o em praticamente 24 horas.
O mais curioso é que eu coloquei na cabeça que devia ser um livro sobre os conflitos no Oriente e não sobre problemas raciais e que se passara numa pequena cidade norte-americana.
Está escrito de uma forma, que depois de lhe pegares, só ficas satisfeito quando acabas a última página.
Acredito mesmo que sim... Caldwell é um Grande Escritor, mesmo que não seja fácil de o ler!
EliminarGosto muitíssimo, confesso que desconhecia completamente esse título!
Boas leituras e um abraço!
Terminei ontem Berta Isla que, sem ler sinopse nem ver capa, me pareceu bem pelo título (uma amiga ligou e deu-mo a escolher entre mais três ou quatro títulos e nomes de autor). Quando o tive na mão, reparei que foi premiado. Parece-me bem premiado. O tema e a forma de abordagem fazem-no entusiasmante; está primorosamente escrito embora haja na tradução várias frases que poderiam usar de português mais escorreito. O aroma de reflexão que perpassa no todo e a maneira como o escritor despe os personagens e no-los apresenta, com ou sem prémios, é de autor capaz e maduro. Uma obra com muito fôlego. Bom, já gostava de Javier Marías. Hoje vou iniciar mais uma prenda de Natal, Conhecer uma Mulher, de Amos OZ, autor que desconheço.
ResponderEliminarLi “Berta Isla”há cerca de dois anos e achei fabuloso.Agora no Natal auto-ofereci-me a continuação “Tomás Nevinson “,que ainda não comecei.
ResponderEliminarTambém comprei o último de Rosa Montero ,que ainda está à espera,e já agora gostava de saber a opinião da nossa extraordinária que já o leu.
Acabei há dias “Menina de ouro”de Chris Cleave.Não se trata de um livro intelectual.Le-se muito bem e aguça-nos a curiosidade até ao fim.
PS-O leitor de “A boa sorte”de Rosa Montero menciona um clube de leitura.Pode dar-nos alguma informação desse clube?Acho que praticamente só conheço clubes destes de filmes.
ResponderEliminar