Memória de uma voz
Há histórias que parecem ficção. Uma delas contou-a Nelson Ferreira da Silva no Facebook e eu reproduzo-a aqui no blogue, porque merece ser partilhada. Como todos os que já perderam alguém importante certamente sabem, a memória da voz é uma das coisas que mais rapidamente desaparecem. Ora, também todos os que já foram a Londres devem saber que, no metro, estão sempre a avisar-nos «Mind the gap» para vermos bem onde pomos os pés ao entrar e sair da carruagem. Pois parece que uma certa viúva se deslocava diariamente a uma estação da Northern Line do metro londrino por ser do falecido marido a voz que prevenia nos altifalantes «Mind the gap». Acontece que, com as modernices, as mensagens humanas foram sendo substituídas em todas as estações por vozes robotizadas e, um dia, aconteceu o mesmo à mensagem que a viúva vinha expressamente ouvir. Ela procurou então a empresa para pedir a antiga gravação. Só que, ao contar a sua história, aconteceu o milagre: não só lhe conseguiram o que pediu, como até repuseram a gravação original na estação de metro. Parece ficção, disse eu quando comecei a escrever este post. E é numa ficção, lembrada (e muito bem) por Maria Manuel Viana (a tradutora) como comentário a esta história (para ser mais concreta, em Dia de amanhã, de Ignacio Martínez de Pisón), que uma viúva vai ao cinema todos os dias para ouvir a voz do marido que era quem dobrava o actor principal.
Acho que o meu reportório de memória da voz, é mesmo muito pequeno ou existente... dou comigo a pensar que não me recordo já da voz dos que se foram ou não oiço há muito tempo, porém se os ouvir creio que identifico logo.
ResponderEliminarPorque será que esta memória é tão efémera, ao contrário das outras, como as do paladar e do olfacto?
E será que é assim com toda a gente? Se calhar não, porque somos muito diferentes... eu tenho um olfacto a paladar apuradíssimos! Talvez por isso tenho uma boa memória palatal e olfactiva, também. Será?
Recordo bem os aromas e sabores de sempre, seja o fricassé cá de casa (como nunca mais comi) aos famosos rissóis da Hermínia, e recordo aromas como o da lenha de oliveira a arder na lareira ou o cheiro dos fritos (em azeite) que se faziam sentir e picavam no nariz há muitos anos quando subia a serventia desde as Ribeirinhas, pela Encosta do Rego de Canas e chegando ao planalto do Arneiro, a uns 500 metros de casa estes se faziam sentir!
Uma história a propósito:
Ainda a minha mãe era viva, num serão qualquer em que jantara bem e me deu para isso, sentei-me à lareira a fumar um charuto, de uma marca que nunca fumo mas me haviam oferecido um. Acendi-o e puxei umas fumaças, (nota: a nossa lareira tira tão bem que puxa qualquer fumo ou cheiro, pelo que fumar na sala é inócuo!), logo a minha mãe que estava sentada à camilha, olhou na minha direcção e exclamou: "Ó menino, esses eram os charutos que o avô fumava!". Ora eu não fumo muito, mas a minha mãe já me tinha sentido a fumar muitas vezes e nunca tivera tal reacção. Era mesmo, o charuto era um H. Upmann, que eu conhecia porque se usavam ainda os tubinhos de alumínio do tempo do meu avô, que serviam para guardar agulhas de croché e outras! A mais de 30 anos de distância, é uma memória forte!
E pronto , nos próximos seis meses terei de me socorrer de memórias, mais logo é tempo de partida aqui do meu Bairro Ribatejano.
Saudações ainda de cá!
Esta imagem devolveu-me a uma cena marcante do drama francês «Le premier jour du reste de ta vie», de Rémi Bezançon; não a descrevo para não dar spoilers, mas o filme é de ser visto com toda a certeza...
ResponderEliminarFaço muitos registos de imagem e poucos de som. Para mim é fácil rever um rosto mas é difícil ouvir de novo uma voz.
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