Da vida do editor
Por detrás de um livro sério, está quase sempre um editor. Muitas vezes, a sua tarefa é apenas a de escolher e difundir uma obra traduzida, mas de outras existe um trabalho de fundo que permanece diluído no livro final, até porque o autor é quem deve brilhar. É talvez por isso que a maioria dos leitores não conhece os nomes dos editores que publicam os seus autores preferidos (quando muito, saberá os nomes das chancelas que dirigem), o que torna ainda mais justo que um prémio de cidadania que tem como patrono Vasco Graça Moura, atribuído pela Estoril-Sol desde 2015, tenha contemplado este ano o grande editor Zeferino Coelho, cujo impressionante currículo não só inclui a publicação da obra de José Saramago, de Levantado do Chão até à sua morte, como também de oito prémios Camões (entre os quais Sophia, Mia Couto ou, mais recentemente, Paulina Chiziane) e ainda o lançamento de muitos jovens escritores literários com vozes muito interessantes, como Patrícia Portela, Sandro William Junqueira ou Joana Bértholo. Grande leitor de memórias e biografias, Zeferino Coelho sucede, neste prémio, a nomes como Emílio Rui Vilar, Carlos do Carmo, Maria do Céu Guerra ou Eduardo, Lourenço. Parabéns!
Ele é mesmo bom editor, e tem aquele "faro" de quem detecta os grandes escritores.
ResponderEliminarDigo isto porque ele sabia muito bem o que fazia quando há quase trinta anos recusou a publicação do meu primeiro romance (finalista do Prémio Caminho Policial), sugerida pelo júri.
Nunca mais escrevi nenhum outro romance...
Talvez tenha sido em 1988, Luís, quando o Miguel Miranda venceu com "O estranho Caso do Cadáver Sorridente".
EliminarFiz essa colecção, com capas negras.
Acho que o Zeferino devia ter publicado o seu romance, uma vez que foi finalista e o júri o tinha sugerido para publicação.
Os editores têm essas coisas que não são compreendidas pelo comum dos escritores e, como deve ter sido o seu caso (se bem entendi), fez com que o Luís desanimasse.
Tente nova editora com o romance e, em pórtico, refira esse pormenor de ser finalista de um prémio que não foi publicado.
Boa noite, Fernando.
EliminarPenso que foi em 1992 e o prémio não foi atribuído, mas o júri deliberou que os dois finalistas do concurso, deviam ver as suas obras publicadas na colecção.
Eu compreendi. Apenas estou relatar o que me aconteceu, e que deve acontecer a centenas de pessoas que gostam de escrever... Nem sempre se reage de forma a "ir à luta".
Na época recebi uma carta pomposa da editorial Caminho, a dizer que a obra não seria publicada porque o "policial não estava a vender" (assinada pelo Zeferino Coelho).
Mas só soube a história do meu livro porque quis entregar o manuscrito a um escritor (já contei a história aqui), para ele ler. E quando lhe contei a história ele disse-me que já tinha lido "esse livro", porque fazia parte do júri (e foi ele que com grande camaradagem me contou tudo o que aconteceu. Se não tenho conversado com ele, nem tinha ficado a saber que o meu livro era um dos dois finalistas do concurso...
E o livro foi publicado em 1995, "Bilhete para a Violência" (edição de autor com o apoio de uma associação cultural de Almada. É uma história de jornalismo e futebol (assassinam um árbitro num jogo dos distritais e um jornalista que assistiu a tudo, resolveu investigar o caso...).
EliminarObrigado pelo esclarecimento, Luís.
EliminarOs livros narram histórias e grande parte deles - como é o caso - também têm as suas histórias. Ainda bem que não desanimou e não o deixou na gaveta. A edição de autor não é o último recurso; por vezes, até é o primeiro e único.
Esta e outras incidências devem ser tomadas em conta pelos editores. Como a Rosário começa o seu texto, "por detrás de um livro sério", eu completo "deve existir um editor também sério".
Boa noite e bom ano.
Vivam!
EliminarOntem estava demasiado cansado, 12 horas de vôo e mais 7 de estrada (que estrada...) para comentar, mas deixem-me meter-me na vossa conversa:
Alguém me sabe dizer, esclarecer, definir, o que é "um livro sério"?
Posso ter percebido mal, mas confesso que não gostei do que percebi... à primeira vista parece-me uma classificação elitista, profissional sem dúvida, de uma editora de escritores de elite, já feitos de algum modo, protegidos portanto, pelo sistema e porque garantem vendas (?) . O que parte as pernas e inibe outros e novos autores.
Mas claro que posso ter percebido mal...
Abraço cá da Cidade Morena, novamente, pronto para mais uma tirada.
Não existiu nenhuma ironia, quando eu disse que Zeferino Coelho era um bom editor.
EliminarOh, Pacheco, sempre em viagem! Ontem no Bairro Ribatejano, um voo de pássaro mais uma viagem de estrada, agora na Cidade Morena.
EliminarQuanto ao "livro sério" não lhe sei dizer propriamente o significado, porque se fosse pessoa referida, diria como meu avô - "sério é aquele que não ri".
Apenas citei a expressão da anfitriã, porquanto a opinião dela (que respeito, como aliás outras) nos diz que detrás do livro sério, ou atrás do biombo, está um editor - e aqui não exemplifica se o editor tem de ser sério, tal como o livro.
Eu percebi. Um livro que não tenha editor, é apócrifo de origem editorial; a não ser que seja uma auto-edição, custeada naturalmente pelo escritor, o qual até poderá ser também sério.
Enfim, presumo que no rodar dos tempos, mais umas entradas de ministros esquisitos na tutela, com a parceria da APL, ainda se venham a proibir as edições que não obtenham o beneplácito de um editor.
No meu caso, tenho um editor "sério", que sou eu, com chancela própria, como certamente já verificou. Também sou dactilógrafo, digitalizador, arranjador, ilustrador e paginador das minhas obras (capa e tudo), pelo que as gráficas só se preocupam com impressão, encadernação e depósito legal.
Por incrível que pareça, pois sou de paradoxos, tenho de deixar aqui expresso que, como editor, já recusei obras a mim mesmo!
Pacheco, esqueci-me de mandar-lhe um abraço até essa Cidade Morena, onde morenas não faltam, desde este Planalto onde menos morenas há em contraponto com as caucasianas.
EliminarUm livro sério é um livro bem pensado, bem escrito, com interesse, original, inovador, capaz de mudar os leitores; não qualquer desabafo adolescente ou história de cinco tostões que vemos aí à venda, e muito menos a maioria (creio que serão poucas as excepções) dos livros que os autores pagam para ser publicados porque com um editor dito sério não o seriam certamente.
EliminarFoi o que pensei, mas discordo. Grato pelo esclarecimento e louvo a coragem em o assumir.
EliminarVejo num livro o nome do autor, evidentemente, mas também, se os houver, os autores da tradução, da ilustração, da capa, do prefácio e até da revisão. A entidade responsável pela edição está sempre bem visível mas o nome do editor creio que não consta ou então sou eu que tenho o mau hábito de não reparar nele. Haverá alguma razão para que o editor não figure como os outros?
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