Excerto da Quinzena

Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, nem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de caterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário. Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário. Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fechar-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando pessoas através de palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso – estão com sorte.


Philip Roth, Pastoral Americana, tradução de Maria João Delgado e Luísa Feijó

Comentários

  1. «Nem o saber nem a literatura completa cabem numa só mente, mas, graças aos livros, cada um de nós encontra as portas abertas para todos os relatos e todos os conhecimentos. Podemos pensar, como vaticinava Sócrates, que nos tornámos um bando de convencidos ignorantes, Ou que, graças às letras, fazemos parte do cérebro maior e mias inteligente que alguma vez existiu. Borges, que pertencia ao grupo dos que pensam da segunda forma, escreveu: "Dos diversos instrumentos do homem, o mais surpreendente é, sem dúvida, o livro. os restantes são extensões do corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da sua visão; o telefone é a extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação".»

    "O Infinito num Junco", Irene Vallejo

    (posso estar-me a repetir, pois já coloquei aqui uma pequena transcrição deste grandioso livro... mas este livro até merece repetições, e releituras, claro)

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  2. O coração. Todo o seu mistério foi para sempre desvendado - não passa de uma massa informe do tamanho de um punho cerrado, de uma cor creme acinzentada. Porque esta é justamente a cor do nosso corpo, uma cor creme acinzentada, castanha acinzentada, feia - é preciso não esquecer. Não haveríamos de querer paredes dessa cor na nossa casa, nem de ter um carro com uma cor daquelas. É a cor das nossas entranhas, da escuridão, dos lugares onde o sol não chega, onde, perante olhares alheios, a matéria se esconde na humidade para não ter de se exibir. A única extravagância permitida foi a do sangue; o sangue tem a função de ser um aviso e a sua cor vermelha de ser um alerta de que a concha do nosso corpo se abriu, que a malha dos seus tecidos se rompeu.
    Olga Tokarczuk - Viagens, tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz

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  3. «A separação do PCP foi-me longa e dolorosa. Era (com outros) um património de família. Anos de reminiscências afectivas. Memórias de militância, por vezes difícil e dura. Ilusões, desilusões, vitórias e frustrações. Preços pagos!
    O sentido da incongruência, após a revolução, foi-se firmando a pouco e pouco. Conheci pessoalmente, quase todos os meus heróis míticos. Senti, em dada altura, que já me ouvia a dizer coisas em que não acreditava.
    Tive duas conversas, espaçadas, com Álvaro Cunhal. Iniciativa dele. Não que eu, na casa, fosse importante. Mas ele queria conhecer tudo e todos. Chamou-me. Um encanto de pessoa. Após a segunda conversa foi-me enviado um recado por terceiro: «Negando o papel de vanguarda da classe operária, faltavam-me condições para continuar na direcção do ”sector intelectual”.» Pode ser que as palavras não tenham sido exactamente estas, mas o significado foi.
    E ainda bem, porque a relação já se ia deslassando, devagar. Os factos minavam quotidianamente esta minha aposta. A dada altura tornou-se-me evidente que não apenas certo tipo de análise, mas também um estilo de funcionamento e, até, de linguagem, me diziam cada vez menos. Caiu o tal muro, soçobrou a União Soviética, um antigo futuro de radiosa esperança transformou-se em ruim passado.
    Houve movimentos, encontros, infindas discussões, agitação periférica, papéis, cismas. Reavaliar, transformar, adequar… O que se sabe.
    Nesse confronto, muitas pessoas que me são estimáveis, por esta ou aquela razão, ficaram do outro lado. Não deixo por isso de as prezar e admirar.
    Posso ironizar, brincar, desdizer. Mas não me está no feitio hostilizar o Partido.»

    Mário de Carvalho em «De maneira Que É Claro…», pág. 192, Porto Editora, Setembro de 2021.

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    1. Gosto muito de Mário de Carvalho! Excelente Escritor! Excelente Pessoa!

      Celeste Silveira

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  4. PASTORAL AMERICANA - o livro, do Philip Roth, de que mais gostei -o grande escritor americano que nunca mereceu um Nobel (recebeu-o Bob Dylan - há coisas que não entendo).

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  5. António Luiz Pacheco28 de janeiro de 2022 às 04:59

    “Olho-me nos olhos
    mergulho na minha alma
    e desapareceu a vontade de vencer
    Desafio-me, encaro-me e vejo
    uma pouca vontade de viver
    para morrer com calma
    Deixei de ser o homem mundano
    que vive de tudo quanto o rodeia
    vampiro de sangue, osso e tutano
    em luta para fugir desta teia…”

    Joaquim Taborda, in “Poemas Adiados

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  6. “Pastoral americana”-maravilhoso.Posso dizer que foi o único livro de que gostei de Phillip Roth.Acho-o demasiado americano para o gosto -o bom gosto-europeu

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  7. A Pastoral Americana é para mim um mistério. Gostei muito deste excerto, mas não consegui gostar do livro quando o li. Achei-o demasiado longo, demasiado chato, não me despertou nunca o interesse, acabei a lê-lo só para chegar ao fim. Não consegui voltar a pegar em Roth, acho que os temas não me interessam especialmente. Pelo menos por enquanto. Não desisti totalmente, mas tenho tanta coisa para ler, que não me preocupo com ele. Até já vi a adaptação do livro em filme, pensando que talvez o tivesse lido numa má altura (às vezes acontece, e a percepção do livro fica completamente alterada) Mas o bocejo continuou, parece-me uma historia de principiante, que quer colocar muita coisa nela mas não consegue construir um todo suficientemente harmónico ou interessante. Não sei explicar, não lhe retiro mérito (porque tanta gente me contradiz), mas não é para mim. Talvez um dia lhe volte a dar uma hipótese (ao Roth, não à Pastoral), quem sabe. Provavelmente, merece.
    Filipa

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    1. Ó extraordinária Filipa, acontece com todos os que gostam de ler, acredite, e acontece geralmente com os grandes livros.
      MEMORIAL DO CONVENTO- da primeira vez que lhe peguei desisti à pág.50, tentei uma 2°.vez e li-o em dois dias-livro EXTRAORDINÁRIO (para mim, claro)!

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    2. Olá Filipa, o seu comentário deu-me vontade de vir aqui conversar um bocadinho consigo. Eu só li dois livros do Roth e nenhum deles foi "Pastoral Americana". "Lição de Anatomia" foi o primeiro, um livro chato, focado quase exclusivamente em sexo, uma leitura desinteressante (para mim, claro). Só não desisti de Roth porque uma amiga insistiu que eu lesse "A Mancha Humana". Obedeci :-). E deste sim, gostei muito e recomendo com entusiasmo!
      Relativamente a "Pastoral Americana" fico agora com curiosidade, é verdade que fico, mas ainda assim não irei a correr comprar o livro... em princípio. (às vezes as ideias ficam a fervilhar e depois faço o que disse que não ia fazer)
      Boas leituras!

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  8. "- São os anos do Rodrigo e a gente faz o que ele quiser. Foi o que eu disse e é o que se faz. Agora calas-te e andas para a frente. E cara alegre e não arrastas os pés.
    - Por que é que hadem estar sempre a discutir, mesmo no dia dos meus anos?
    - Olha-me aquele, - disse o pai - parece o Guilherme nosso vizinho. Só lhe falta o boné.
    Todos se riram a olhar para o peixe vermelho, até o Rolando, embora contrariado.
    - Fechastes o carro?, - perguntou a mãe.
    - Tudo sobre controle, - disse o pai.
    - Não te debruces, Rodrigo Tiago, parece que fazes de prepósito!
    Os peixes rebolavam pela água esverdeada. Estavam muito feitos a serem visitados. O Rodrigo queria perguntar ao pai como é que eles conseguiam ver, só com um olho de cada lado da cabeça. Mas teve medo que ele empreendesse uma explicação demorada e agora queria mais que tudo despachar-se. E teve sorte, porque não havia muita gente a querer entrar no Aquário Vasco da Gama."

    "Hades", in Contos Outra Vez, de Luís Costa Gomes, edições Cotovia, 1997.

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    1. Corrijo: Luísa Costa Gomes.

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    2. Já devidamente apontado para leitura futura (a lista já tem páginas e páginas e paginas...)
      Muita saúde, Susana. Excelentes Leituras!

      Celeste Silveira

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  9. "Dizes que amei verdadeiramente aquela mulher [Mme. Schlesinger]. Não amei; não é verdade. Só que quando lhe escrevia, com aquela capacidade que eu tenho de produzir sentimentos dentro de mim através da caneta, levei o assunto a sério: mas só quando estava a escrever. Muitas coisas que me deixam frio quando as vejo ou ouço falar delas são, no entanto capazes de me entusiasmar, irritar ou entristecer se eu próprio falo delas ou - especialmente - se escrevo sobre elas. É esta uma das consequências da minha natureza de charlatão.
    Carta a Louise Colet, 8 de Outubro de 1846"

    Excerto retirado do livro: O Papagaio de Flaubert de Julian Barnes
    Que boa surpresa que foi ler este livro. Especialmente quando há vinte ou trinta livros atrás, havia tido a oportunidad e de ler a 'Madame Bovary'.
    Bom Fim de Semana com Excelentes Leituras.
    Celeste Silveira, quase em Apneia.

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