Excerto da Quinzena
Eva, chama-se Eva, tem menos quatro anos do que eu, e foi sempre o exato oposto de mim: muito expansiva, divertia-se se tinha de passar o fim de semana nalgum dos restaurantes do meu pai, a correr entre as mesas e a brincar às empregadas. Quando o meu pai se matou, a Eva fechou-se em si mesma, passou a falar pouco ou nada, desenhava o tempo todo; era a sua forma de dizer o que queria dizer, que eu não sei o que era nem me importa muito. A minha mãe foi criada por dois tios, e sempre me pareceu curioso que antes do suicídio a minha irmã fosse tão parecida com o tio, o Chico, e depois se transformasse num decalque da tia Soledad, mas que nome tão bem dado. A Eva sempre funcionou por imitação: reproduzindo a atitude que lhe proporcionasse uma maior segurança. Não sei se lhe falta personalidade: é minha irmã, mas não a conheço lá muito bem. A sua vida nunca me interessou, nem na altura nem agora. Posso dizer-te que mal nos damos. No caso da Eva, a mudança de atitude foi de facto uma consequência da história do meu pai, parece-me. No meu caso, não. Eu já era assim.
Elena Medel, As Maravilhas, tardução de Vasco Gato
"É bonito sermos um homem triste, porque é raro encontrar-se um que o seja.
ResponderEliminarOs homens tristes fizeram as Igrejas, as pontes. As pessoas alegres fizeram cinemas, estações de caminhos-de-ferro, lojas. Vemo-las passar aos bandos, dentro de automóveis que riem, e todas se riem. E eu parava na estrada a olhar para elas de frente, e para sentirem vergonha fazia o mais triste dos meus ares.
Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, muito pálida, e mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se.. Aliás, só há felicidade nos tristes."
Luc Dietrich- A Fecicidade dos Tristes- Sistema Solar
"Onde existe guerra, não se foge de avião. Foge-se a pé e sem visto, pelo simples motivo de que os vistos não são emitidos. Quando a terra acaba, sobe-se para um barco. Começo assim, pelas origens, que são a fonte da qual bebemos água para saciar a sede. Na realidade é sempre a mesma história que se repete. Uma rapariga fenícia foge da cidade de Tiro, atravessando o deserto até ao fim, até os pés já não poderem avançar porque, em frente, se estende o mar. Encontra então, um touro branco, que se ajoelha e a acolhe no seu dorso, tornando-se barco e sulcando o mar, até a fazer aportar a Creta. A rapariga chama-se Europa. É esta a nossa origem. Somos filhos de uma travessia de barco."
ResponderEliminarNotas sobre um naufrágio – Davide Enia
"Onde existe guerra, não se foge de avião. Foge-se a pé e sem visto, pelo simples motivo de que os vistos não são emitidos. Quando a terra acaba, sobe-se para um barco. Começo assim, pelas origens, que são a fonte da qual bebemos água para saciar a sede. Na realidade é sempre a mesma história que se repete. Uma rapariga fenícia foge da cidade de Tiro, atravessando o deserto até ao fim, até os pés já não poderem avançar porque, em frente, se estende o mar. Encontra então, um touro branco, que se ajoelha e a acolhe no seu dorso, tornando-se barco e sulcando o mar, até a fazer aportar a Creta. A rapariga chama-se Europa. É esta a nossa origem. Somos filhos de uma travessia de barco. "
ResponderEliminarNotas sobre um naufrágio – Davide Enia
"Onde existe guerra, não se foge de avião. Foge-se a pé e sem visto, pelo simples motivo de que os vistos não são emitidos. Quando a terra acaba, sobe-se para um barco. Começo assim, pelas origens, que são a fonte da qual bebemos água para saciar a sede. Na realidade é sempre a mesma história que se repete. Uma rapariga fenícia foge da cidade de Tiro, atravessando o deserto até ao fim, até os pés já não poderem avançar porque, em frente, se estende o mar. Encontra então, um touro branco, que se ajoelha e a acolhe no seu dorso, tornando-se barco e sulcando o mar, até a fazer aportar a Creta. A rapariga chama-se Europa. É esta a nossa origem. Somos filhos de uma travessia de barco."
ResponderEliminarNotas sobre um naufrágio – Davide Enia
Bom dia!
ResponderEliminarEm jeito de cumprimento de Ano Novo para todos os Extraordinários aqui fica o meu excerto.
" Que o ano seja bom para os bons, e que para os maus se soltem as antigas maldições talmúdicas.
Que os estádios de futebol estejam cheios, mas que também cheias estejam as escolas e as livrarias, os teatros e os cinemas e os museus também, e também cheio esteja o honrado coração dos homens honrados.
Que nesta aldeia de crentes e ateus não deixe de haver estrelas na terra onde estão os homens.
Que o céu seja o território que é : território do sonho.
Que renasçam outras esperanças porque as esperanças prometidas não passam de esperanças ao contrário.
Que caminhemos em ruas onde as portas não estejam fechadas.
Que reinem as criaturas de consciência tranquila.
Que se purifiquem os corpos no amar de outros corpos.
Que honremos não só o pai e a mãe, como nos aconselha o texto sagrado, mas também, e com o mesmo pundonor, as convicções e os camaradas, as lealdades e as amizades, e o sentimento da continuação do mundo, e as memórias dos que ficaram pelo caminho"
Baptista Bastos
"Rimance do principio do ano"
do livro " Lisboa contada pelos dedos"
Abril de 2001
Daqui,da margem esquerda do estuário do Tejo.
Bom Ano para todos vós.
A. Delfim
As primeiras crianças que viram o promontório que se aproximava pelo mar tiveram a ilusão de que era um barco inimigo. Depois viram que não levava bandeiras nem mastreação e pensaram que fosse uma baleia. Mas,quando ficou varado na praia, tiraram-lhe os matagais de sargaços, os filamentos de medusas e os restos de cardumes e naufrágios que trazia em cima, e só então descobriram que era um afogado
ResponderEliminarTinham brincado com ele toda tarde, enterrando-o e desenterrando-o na areia, quando alguém os viu por acaso e deu a voz de alarme na povoação. [...]. Enquanto os homens averiguavam se não falava alguém nas povoações vizinhas, as mulheres ficaram a tratar do afogado. Tiraram-lhe o lodo com tampões de esparto, desenredaram-lhe do cabelo os abrolhos submarinos e rasparam-lhe a rémora com ferros de escamar peixe. À medida que o faziam, notaram que a sua vegetação era de oceanos remotos e de águas profundas e que as suas roupas estavam em farrapos, como se tivessem navegado por entre labirintos de corais. Notaram também que que suportava a morte com altivez, pois não tinha o aspecto solitário dos outros afogados do mar, nem tão-pouco a catadura sórdida e indigente dos afogados fluviais. Não era somente o mais alto, o mais forte, o mais viril e o melhor armado que jamais tinham visto, como ainda, apesar de o estarem a ver, não lhes cabia na imaginação.
Gabriel García Marquez - O Afogado mais Formoso do Mundo
"Sou e não sou o homem que atravessa o corredor, sinto e não sinto o peso das pernas que se movem, ouço e não ouço o choque dos pés contra o chão. Na memória indelével do corpo guardo ainda o menino que tantas vezes ali hesitou, o menino que algumas vezes fui, ou sou apenas o homem que chega à porta e ergue o punho cerrado com decisão? Não dura nada, não dura quase nada a percussão, são apenas os golpes banais de quatro dedos contra uma tábua, e, no entanto, neles ressoa um passado largo, neles ecoa uma longa jornada de tremores e irresoluções. Estou e não estou parado diante do quarto de meu irmão, levo e não levo um maço de folhas debaixo do braço, não sei bem o que faço quando ali estou, se quero o seu abraço, se quero o seu perdão."
ResponderEliminar"A Resistência" de Julián Fuks.
Foi boa e gratificante a leitura. Também de uma família. Também de dois irmãos. Onde por vezes o diálogo "não discorreu". Preencher um espaço mental em que o passado tem que ser entendido. Tem que ser "digerido"... E resistir a quê? Eu confesso, cada vez acredito menos em coincidências.
Boas e Muito Gratificantes Leituras. Porque logo à noite será 'inaugurado' o livro "Manhã e Noite" de Jon Fosse. E eu acho que temos "tudo para dar certo..."
Celeste Silveira
“Dessocializar a literatura não é aligeirá-la. Não é futilizá-la. Não é isentá-la do seu corpo a corpo com o mundo.
ResponderEliminarLonge de ser esse exercício tranquilo, no qual a arte pela arte dava a imagem e que deixava o artista miraculosamente intacto, o serviço da literatura, assim concebida, é um exercício terrível. É um exercício trágico. É um frente a frente com a morte, o crime, o pecado, a loucura. É um afrontamento solitário e que deixa o escritor mais só ainda, com forças de uma violência extrema que ameaçam uma e outra vez arrastá-lo. E todos eles desconhecem outra maneira de escrever que não seja essa «descida até às potências obscuras», esse «desencadear de espíritos normalmente dominados», esses «abraços duvidosos», esse mergulho nas trevas», que faziam com que Kafka dissesse que a literatura é o «salário do serviço do demónio».
Porque, no fundo, todos estão de acordo. Todos os grandes. Todos os gigantes. Todos os que, aceitando calar-se para deixarem falar os seus livros, sabem que a arte não pode ter outro objecto senão descrever o fundo de horror, de carnificina ou de catástrofe sobre o qual se desenrola desde sempre a aventura da humanidade. Sim, todos eles estão de acordo em pensar que a literatura nunca falou a não ser do mal; que o mal, reciprocamente, nunca foi mais bem dito do que pela literatura; e que é aí, nessa diabólica reciprocidade, que os livros descobrem o seu mais autêntico poder.
A partida, repito, não acabou. E ninguém sabe, no momento em que escrevo, o que será da figura do intelectual. Quer desapareça ou se reafirme, o seu eclipse de hoje ter-nos-á, contudo, ensinado o seguinte — que será, aconteça o que acontecer, fundamental recordarmos: antes de ser de direita, de esquerda, bem ou mal-pensante, socialista ou associal, a literatura é, antes do mais, assunto de metafísica.”
Bernard-Henri Lévy, Elogio dos intelectuais, 1987 (tradução de Miguel Serras Pereira, Edições 70, 2021).