Segredos de família

Quando há trinta anos escrevi um romance, estava a fazer o luto da minha avó e foi a forma que encontrei na altura de sarar a ferida. Sei que muito do que lá está aconteceu com a minha família e comigo e não pensei um instante que isso seria um problema (e não foi). A minha jovem autora holandesa Marieke Lucas Rijneveld, cujo O Desassossego da Noite publiquei recentemente, disse, porém, numa entrevista ao The Guardian que a família não tinha querido ler o seu romance e que ela entendia porquê. (O livro começa com a morte do irmão da narradora, e a verdade é que Marieke perdeu um irmão num acidente, pelo que a história pode ter ressonâncias familiares). O norueguês Knausgard, ao falar da mulher e de toda a família em A Minha Luta, perdeu o casamento e a amizade de muitos parentes próximos. Já o escritor Eduardo Halfon, que há muito recupera nos seus romances histórias de família, especialmente aquelas de que ninguém falava em casa, contou uma história bonita a este respeito. Quando acabou Luto, que trata da morte misteriosa de um tio seu quando era criança, recebeu a visita do pai. Este, ao saber que Eduardo dedicara um livro a um assunto «probido», ficou tremendamente desapontado e disse que ninguém devia tornar público o que era privado. Mas o filho convenceu-o de que não era de modo nenhum um devassa da cena familiar, deu ao pai a possibilidade de ler o rascunho e dizer o que não gostava e ele leu-o e adorou. (Com outros romances sobre outras histórias que a família mantinha em segredo, a coisa já não correu tão bem, e há tios que até hoje não lhe falam.) Há famílias que dariam tudo para aparecerem imortalizadas num romance, mas também há sempre quem se zangue e não queira ser personagem de livro...

Comentários

  1. António Luiz Pacheco24 de maio de 2021 às 02:01

    Pode ser um problema, quando se escreve sobre a realidade e essa recai na família ou os que sejam próximos do autor... quando se romanceia inspirado em casos reais.
    Pode magoar-se ou prejudicar outrem, podem abrir-se feridas ou ferir susceptibilidades, pode mesmo agredir-se e provocar contendas, até judiciais.
    Não conheço assim tantos casos que possa aqui citar, mas conheço "por alto" um ou outro.
    Nas famílias há sempre essa tendência à reserva, enfim na maioria das famílias pois há quem pelo contrário queira a exposição a todo o custo, e, venha fazer "confissões" para obter essa exposição e a almejada "fama".

    Há sagas familiares muito boas, portuguesas e estrangeiras, e há romances baseados em factos reais igualmente muito bons. Assim de repente ocorre-me "Pão de Açúcar", que não me parece ter agredido ninguém mas sim alertado para um caso bem triste.

    Boa semana para todos, são os meus votos cá desde a Cidade Morena.

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  2. Pois, a ficção-verdade tem dessas coisas...

    É sempre preferível dar uma pequena volta ao texto, mudar nomes e lugares.

    É sempre preferível deixar os outros na dúvida: "serei eu ou não? Parece que sim, mas por outro lado, eu não isto."

    Eu também tive um caso no meu primeiro (e único) romance, que se aconteceu foi involuntário, mas uma coisa simples. Dei um apelido de uma personagem, sem muitas qualidades, diga-se de passagem, a alguém, sem pensar que conhecia profissionalmente alguém que se chamava assim...

    Um amigo que leu o livro acabou por falar do assunto e dizer que se não era ele, há coincidências "lixadas" (ele disse outra palavra...), entre sorrisos. :)

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    1. ("eu não sou isto"... lá estão as palavras a fugir...)

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  3. A não ser numa autobiografia, não vejo que um escritor necessite de fazer uma esforço de objetividade sobre assuntos que respeitem a sua família. Diria até que o mais interessante de um romance sobre a família de um escritor é o que ele imaginará e deformará a partir das suas recordações pessoais. A literatura é sempre transformação. Custa-me perceber que familiares vejam uma obra de ficção como uma narrativa jornalística ou objetiva do que foi a vida da família. O escritor poderá alterar nomes, carateres físicos de personagens e situações, tornando o reconhecimento difícil.

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    1. António Luiz Pacheco24 de maio de 2021 às 04:33

      "A literatura é sempre transformação".
      Muito bem Extraordinário Artur, é mesmo!
      Penso que é justamente essa uma das prerrogativas e o que mais me atrai na escrita, o poder "transformar", segundo a minha imaginação ou vontade, como se fôra um pequeno deus!
      No entanto e como se depreende, não se deve usar a escrita para atingir outros, de forma gratuita, com ou sem razão. Creio que fica mal a quem o faz, pois abusa de um poder, ou de um dom, e como bem diz: pode alterar nomes, físico, etc.
      Estou a lembrar-me de uma situação pouco cómoda que ocorreu por iniciativa minha, aliás sem maldade... mas que não caiu bem a um companheiro meu. Num artigo que escrevi sobre pestiscadas e patuscadas na caça, aliás em tom humorado como se entende dada a natureza do tema, ilustrei-o com fotos, numa das quais figurava esse amigo e até muito engraçada e bem conseguida, mas não lhe agradou ver-se retratado assim "vermellhusco de faces" e com o boné às três pancadas, prato de febras numa mão e copo na outra... deu-me uma descompustura. No entanto, acontece que esse amigo era justamente muito conhecido por ser um bom copo, creio mesmo que nunca o vi sem estar "quente", eheheh! Pelo que a sua reputação não terá sido afectada... ainda foi pior a emenda que o soneto"
      Ahahah!
      Pior foi ter citado um digníssimo juiz que esteve numa reunião com caçadores por causa de um projecto de lei, quem depois afirmou que eram só "grunhos", do que não gostei. Publiquei isso e ele ameaçou-me com um processo por atentado à sua honra, imagine-se! E o grunho sou eu? Pois processasse... até hoje.
      Enfim, são os riscos que corremos...
      Abraço!

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    2. Bela história e com um ensinamento no final ! Obrigado.

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  4. Sou um velho apreciador de antologias. Chegou-me às mãos uma revista de ensaios criativos e pessoais que dá pelo nome de «Mamute», e o volume de que falo é o nº 2 referente a esta Primavera.
    Devo, a estas antologias de textos, de poesias, muito, mas mesmo muito, do gosto pela leitura. Na biblioteca do meu pai havia uma série de antologias publicados pela Portugália Editora que serviram de trampolim para outros voos: Líricas Portuguesas, organizadas pelo Jorge de Sena, Antologia de Mestres do Conto Policial, Antologia de Obras de António Sérgio, Os Melhores Contos Portugueses, As Melhores Histórias Fantásticas, por aí fora.
    Mais tarde comprei as antologias que iam sendo editadas, as da Inova, poesias publicadas nos anos 70 e 71 com direcção do poeta Egito Gonçalves, os textos da «Grifo», editados pelo Vitor Silva Marques, As Escadas Não Têm Degraus da Cotovia, mais recentemente os resumos de poesia publicados pela Assírio & Alvim, começados em 2009 e que já fecharam portas, e tantas, tantas outras reuniões de textos.
    Os cinco textos da «Mamute» não falam de lutos mas de vidas, da rua dos dias que correm, ou como se lê no texto «A Manta Amarela» de Miguel Szymanski: «A partir de agora, deste momento, a vida só parece que vai continuar.», as dúvidas entre o que os dias vão trazer, escrever ou arranjar jardins, conduzir um táxi. Foi pela escrita que caminhou: «Escrever é parar o tempo. É deixar um testemunho escrito com as palavras-chave que o acaso nos atirou para debaixo da manta. Depois, quando o que escrevemos acontece, somos deus no nosso ínfimo mundo.»
    Um outro texto, «Janela Sacada» de Margarida Ferra, cuja leitura traz-nos um nó na garganta. A autora passou um mês em casa, com Covid, janelas quase sempre abertas, um companheiro em tratamentos oncológicos, «cresce muito, o medo, quando tememos pelos que amamos», três filhos (15, 13, 2 anos), um gato, o frigorífico que se avaria, a televisão que segue o mesmo caminho. a solidariedade dos amigos, dos familiares, as mensagens que a educadora do filho mais novo lhe manda, as flores da Ana entregues por uma rapariga sorridente de bicicleta, a rua que a janela de sacada emprestava, mas tudo era tão difícil por aqueles dias, tudo… a comida que tem de ser feita, um esparguete com ameijoas, o lamento por ter saído demasiado cosido quando lhe pareceu que a textura se afigurava «al dente», ah! e onde o sabor dos coentros?... também os testes do olfacto, cheirar mil vezes o café, cada vez mais longínquo...
    Gostei destes textos da «Mamute». Não falam de lutos, falam dos dias tão difíceis, há quem lhes chame cruéis e o mais difícil está sempre para vir.
    Sou um velho apreciador de antologias.

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  5. Acontece que Marieke Lucas Rijneveld não se identifica como homem nem como mulher. Porque não escrever o autor, ou referir simplesmente pelo nome?

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