Belas histórias

Li a correr algures (num jornal inglês, acho), mas depois, como já não sabia onde, não voltei a encontrar o texto, pelo que já não consigo dizer se foi exactamente assim que as coisas se passaram; mas, tendo-se passado algo de muito parecido com isto, não tem no caso grande importância se o rigor não for o maior. A história é bela: numa livraria, está um senhor leitor que ouve um rapazinho a discutir acaloradamente com a mãe sobre livros, e sobre os livros todos que queria levar. Os livros são caros, já se sabe (embora as pessoas paguem o preço de três livros por um bilhete para um concerto e nunca piem sobre isto, apesar de o concerto só demorar hora e meia, enquanto o livro está na estante para a vida e pode ser emprestado a dezenas de leitores); e o miúdo tem um orçamento, ou seja, só pode escolher só um título, mas, ainda que o saiba, está a apresentar argumentos para convencer a mãe a comprar-lhe dois e está a surpreender o leitor adulto que o ouve à socapa porque não é lá muito comum um menino tão novo perceber tanto do que tem dentro um livro e querer tão desesperadamente levar livros para casa sem ser por imposição da mãe. Resultado: o leitor mais velho comove-se com isto, vai à caixa e compra um cheque-livro, pedindo duas coisas ao livreiro: que o ofereça ao grande futuro leitor e que, sobretudo, não diga que foi ele que lhe deixou aquele presente. Sai da livraria e não chega a ver, claro, o contentamento incrível do miúdo, nem a cara de surpresa da mãe. Só dá presentes anónimos destes quem dá mesmo importância ao futuro da leitura. Abençoado grande leitor.

Comentários

  1. São Belas Histórias ,de quão enorme gabarito, que nos fazem acreditar que existem Leitores mais velhos que têm a riqueza de acreditar no mundo das Crianças...
    E que venham mais crentes para a Escola dos Livros.

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  2. Mas que bela história. Comovente mesmo.
    Por cá, também fico encantada quando os mais pequenos vêm com os seus progenitores ou demais família, buscar livros. Muitas vezes seis livrinhos de uma vez só. Mas é muito comum que isso aconteça? Infelizmente não. São muitas vezes mais os mais velhos que tentam convencer os mais novos a levar livros. Mas às vezes lá aparece um grande leitor ainda na faixa infantil.
    Eu própria recordo, que a leitura não me veio como algo espontâneo. Felizmente sou filha de alguém que tem unicamente a instrução primária, antiga, como ele gosta de afirmar, mas que é só a pessoa que todas as que eu conheço, que mais lê...
    Recordo as vezes em que ainda criança ia de mão dada com o meu pai, buscar os livros à carrinha itinerante da Gulbenkian. E convenhamos, nessa altura ele ia muito mais convencido do que eu. Eu ia, gostava de ler, mas para "despachar serviço", lia aqueles que tinham menos páginas, e consequentemente menos palavras. O meu pai não intervinha na minha escolha, o importante era que eu lesse... e se eu gostava de ler aqueles livrinhos... (Hoje posso saber exactamente todos os livros que li nessa altura, é só consultar o canhenho dos registos paternos das leituras. Sim, para além dos livros que o meu pai trazia para ele, ele lia também, todos os livros que eu trazia para mim).
    Acontece que eu ia crescendo em formas e também em manhas, só que os gostos literários, esses é que não mudavam.
    Até que o excelente técnico de Biblioteca, grande nome nacional da poesia surrealista, infelizmente já falecido, um dia farto de dar conta daquela marosca, me disse:
    "Alto e para o baile" (não foram exactamente estas as palavras, as mesmas servirão somente para dramatizar), "esta história" (de levar livros de 'bebés') "acaba aqui hoje!
    E foi assim que eu comecei a ler por gosto. A questionar-me por prazer. E a colocar a leitura como algo prioritário na minha vida. Aquele excelente técnico de Biblioteca, conseguiu revolucionar toda a minha vida.
    O técnico de Biblioteca, a mim não me ofereceu nenhum livro, mas uma poderosa ferramenta que utilizo todos os dias. E extraordinárias são mesmo todas as horas que passamos a ler.
    Boas Leituras para todos!
    Celeste Silveira
    (O livro que o tal técnico me convenceu a levar foi: "A Cabana do Pai Tomás" de Harriet Beecher Stowe)

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  3. Talvez a história já tenha uns dez anos ou mais (até pode ser coisa do século passado)...

    (se for actual, pobre rapaz, está completamente "fora deste mundo")

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    Respostas
    1. Infelizmente penso que seja como o Luís Eme diz.

      Será que estarei muito longe da realidade se disser que, na faixa etária até aos 25 anos, talvez haja 1(um) leitor em cada 100.000 telemóveis; ou estarei a ser demasiado optimista?

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    2. 1 leitor para cada 100 000 telemóveis. Eis algo verdadeiramente cómico e trágico...

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    3. Mas acrescento também que a culpa é mais do que se faz no telemóvel, ou do uso que se dá ao que nele se instala. O problema da maioria dos jovens dos dias de hoje (e de muitos adultos, evidentemente), é que usam esse meio sem terem a consciência de que estão a ser usados, ou cativados, pelo resultado de inúmeros estudos de marketing para os quais são simultaneamente produtos e cobaias. Vendemos os nossos segundos desinteressados, desconcentrados, e tantas vezes inúteis, a milhares de empresas de publicidade que recorrem aos nossos dados, e padrões, para se aperfeiçoarem (fazendo com que percamos mais tempo a olhar para o ecrã).

      Isto para não falar de muito mais.

      De qualquer das formas, gostei muito da história que nos ofereceu hoje, e espero que os jovens da atualidade se apercebam que a vida é demasiado curta para ser desperdiçada.

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    4. António Luiz Pacheco31 de maio de 2021 às 10:02

      Ahahahah! Boa, Severino!
      Mas olha que não são só os mais jovens... conheço muito veterano que é totalmente dependente do agora chamado "telefone esperto" , talvez porque torna burros os seus utilizadores!
      Os meus colegas olham-me com algum espanto e até uma espécie de desprezo, como se isso me ralasse alguma coisa! Eu só para chatear digo que o meu pc ainda é a petróleo! Usei até há dois anos um velhíssimo Nokia daqueles pesados e grandes, que era motivo de gozo, uma vez a nossa belíssima jovem directora comercial, a Rute, pegou no aparelho com todo o ar de quem pega numa peça de museu, sei lá, tipo ferro a carvão! Vendo que eu tinha o número do pin fixado com fita-cola na parte de trás do dito aparelho de telecomunicações, comentou: "O engenheiro não existe!" .
      Lá me impuseram por razões de trabalho a ter um desses "espertos", que na verdade tem a vantagem de eu poder aceder aos mail e usando o wat-coiso, mandar mensagens e imagens de quase qualquer lugar na hora! Esta manhã mesmo, pôde ser desbloqueada uma situação na remota Equimina, através de uma foto enviada pelo wat-não-sei-quê para a administração central. Tenho de me render...
      Porém, o meu colega que já tem a provecta idade de 64 anos é absolutamente dependente do seu "aifone", chegando ao ponto de andar a conduzir com ele no banco no meio das pernas, o que num lugar destes e com o trânsito que se imagina por aqui, sem regras, é sobretudo perigoso. Mas tem outro efeito igualmente nefasto:
      - Aqui há tempos, numa daquelas conversas de homens, ele dizia que nem por isso via cá nada por aí além (falando do belo sexo) . Ora dizer isto em Benguela é um sacrilégio pois se há sítios onde se vêem mulheres bonitas é por aqui! Não lhe perdoei e tive de contrapôr:
      - Pois não vês, claro... sabes, tens de olhar menos para o telemóvel e mais pela janela do carro!!! Foi uma surriada pois toda a gente sabe da mania dele!
      Passa a vida a ler coisas no telemóvel, anda sempre informadíssimo, mas sobretudo daquilo que se passa longe, sendo esse um dos defeitos dos utilizadores destes artefactos, pois como se diz no Alentejo, estão na aldeia e não vêem as casas!
      É verdade, verdadinha!

      Saudações dinossáuricas cá da Cidade Morena!

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  4. Uma história que acaba bem é bela, uma história de livros que acaba bem é muito bela, uma história de livros com jovem que acaba bem é belíssima.

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  5. Gostei muito de a ler.
    Houvesse em todas livrarias destes benfeitores.
    Bjs

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  6. Boa noite Maria do Rosário.
    Deste vez a sua crónica é linda.
    Nem sempre estou de acordo com os seus textos, principalmente quando entra em artigos relacionados com os pequenos livreiros, dos quais sabe muito pouco.
    A empresa onde trabalho e a outra onde trabalhou o seu esposo têm contribuído muito para acabar com as Livrarias em Portugal.
    Falo porque tenho 50 e muitos anos de Livros e ainda trabalho com eles.
    Não há nada que me dê mais prazer do que ter em casa alguns milhares de amigos 'Os Livros', dou-me bem com eles e por vezes recebo bons concelhos dados pelos mesmos.
    Até breve.
    Não sou anónimo.
    José Calixto
    Bem haja Maria do Rosário, pela crónica de hoje.

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