Uma senhora escritora
Chama-se Marieke Lucas Rijneveld e é, na verdade, ainda uma menina, aliás, tem cara disso. Embora tenha passado a maior parte da sua vida a trabalhar numa vacaria, isso não a impediu de criar e foi aplaudida e premiada na sua estreia poética. Depois, arriscou o compromisso mais demorado da ficção e, mais uma vez, saiu-se muitíssimo bem, pois a tradução inglesa do seu romance O Desassossego da Noite arrebatou no ano passado o Man Booker International Prize, levando a que fosse traduzida em todo o lado. A tradução portuguesa sai amanhã e preparem-se para a história do desmoronar de uma família, contada sem paninhos quentes por Cas, uma menina de 12 anos. Quando Cas rogou uma praga ao irmão por não a querer levar com ele a patinar, nunca pensou que funcionasse. E agora sente-se profundamente culpada: o gelo estava demasiado quebradiço e levou Matthies para sempre. E, além da culpa insuportável que, como o seu casaco apertado até ao queixo, não mais a deixará, Cas verá a dor abater-se de forma implacável sobre os pais, um casal profundamente conservador e devoto que quer acreditar que Deus chamou Matthies para junto dele, mas que não consegue, mesmo assim, deixar de ficar paralisado pelo desgosto, sem se aperceber de que os outros filhos – Cas, Hanna e Obbe – se vão afastando lentamente para encontrar, no abandono a que foram votados, estratégias que lhes permitam lidar com a tragédia, mesmo que isso implique muitas vezes violência e desassossego. Inspirado num episódio autobiográfico, O Desassossego da Noite, descrito como a «evocação terna e visceral de uma infância presa entre a vergonha e a salvação» pelo presidente do júri do Man Booker Prize, revela um talento invulgar em alguém tão jovem. Uma menina que é uma senhora a escrever.

A culpa, tema antigo da condição humana tratado por uma jovem loura holandesa. Quem diria que ainda persistem núcleos de fundamentalismo religioso na liberal sociedade holandesa?
ResponderEliminarExtraordinário Artur, trabalho muito com Holandeses, aliás representamos aqui duas empresas nossas parceiras no agroalimentar... liberais? Sim, podem parecer, mas garanto-lhe que são muitíssimo menos do que se celebra, olá se são: maniqueístas, focados no lucro, superiores e racistas, é verdade!
EliminarNem tudo o que reluz é oiro, muito menos as loiras cabeças.
Abraço cá da Cidade Morena, esta sim mais liberal do se pensa, afinal é uma cidade "morena", de crioulos.
Caro António Luís, muito interessante a sua experiência com os holandeses. Pensei que eles já estivessem bem diferentes de como os retratou o Rentes de Carvalho no seu livro "Com os Holandeses" em que a sovinice dos holandeses alguns e dos seus preconceitos estão bem ilustrados.
EliminarOlha... estava justamente a pensar no Extraordinário Rentes de Carvalho!
EliminarNem de "porpósito", eheheh!
Ele faz um retrato (aliás retratos!) muito interessante deles, pois os conhece muitíssimo bem!
Tenho tido desde há muitos anos contactos com holandeses e belgas (tanto flamengos como valões) , inclusive trabalhei numa multinacional agroalimentar belga-flamenga, só lhe digo que no geral não são flores que se cheirem, e, muito pior no tocante a nós portugueses, pois nos desprezam pura e simplesmente.
Digam o que disserem sobre as modernidades, evoluções, liberalismos... liberais são, porém entre eles e no que toca a não serem (aparentemente) sexistas, mas depois são pedófilos e exploram redes de tráfico de mulheres! Se lhe contasse o regabofe que é aqui com as famosas "quatorzinhas", quando cá estão, não ia acreditar. No fundo creio que há contas para ajustar connosco, seus antigos concorrentes nos mares e nas colónias, são daquelas coisas que ninguém quer assumir mas são históricas, profundas e passam de geração para geração. Os belgas idem, há feridas por sarar, do tempo do Leopoldo e do Congo Belga!
Não duvide!
Já que estamos a conversar num blog de leitura, deixe-me contar-lhe uma breve história passada com um amigo meu, angolano-branco, na Noruega há uns dois anos, quando ele foi lá ver assuntos relacionados com barcos de pesca.
Este meu amigo é bastante mourisco, pois descende de pescadores de Cabanas de Tavira, e deve ter sangue berbere: nariz aquilino, maçãs do rosto, cabelo forte e preto, tez morena e barba cerrada, sobrancelhas largas e espessas, bem negras, assim como os olhos. Porém veste e tem atitude de europeu.
Foi tomar um café a um bar, algures numa cidadezita pesqueira da Noruega, e estava lá sentado um velho bastante velho, a fumar cachimbo e a beber (nas palavras do meu amigo) "um aquário" de brandy. O velho observou-o demoradamente e depois de o ouvir falar ao telemóvel, em português, meteu-se com ele e perguntou de onde era?
Angola!
Oh... Angola, I know Angola!
Então contou-lhe que quando morrera o avô dele, antigo baleeiro, abriram o seu baú e encontraram um diário de viagens. Certa passagem contava como estando no Sul de Angola, ficaram sem mantimentos no navio e fora ele a terra num bote, tentar comprar comida, numa praia onde viram casas e gente. Encontraram lá uns brancos, portugueses, que lhes roubaram tudo o que tinham com eles para o negócio da compra de víveres!
Eheheheh!
Não ficou com uma idéia lá muito boa portanto...
Grande abraço!
Excelente história ! Obrigado.
EliminarAcredito que sim... mas não lerei esse romance.
ResponderEliminarPorque raio é que actualmente as Editoras Nacionais só editam (por muito bons, bem escritos que sejam) romances com esse tipo de conteúdo: negro, deprimido e deprimente?
Caramba, não bastam já as vicissitudes e as desgraças da vida real, ainda temos que levar com as desgraças ficcionadas, com os fantasmas dos autores?
Arre!
E será que quem nas editoras analisa e edita, são só pessoas angustiadas, tristes, góticas?
Até parece que sim...
Precisamos de autores bem dispostos, de bem com a vida, humorados.
Paulo Moreiras? Onde andas? Escreve algo que nos disponha bem... Mário Zambujal, saca aí do teu humor... que já basta de escreventes muito intelectuais e profundos, "altamente", ensimesmados, chatos e aborridos - como dizem os nuestros hermanos!
Comigo não contem para ler e muito menos comprar estas obras na moda, premiadíssimas, sempre gostava de saber por quem, mas certamente que por gente que passa muito tempo deitada no divã do psicólogo!
Com mil raios, será que esta onda livresco-depressiva vai durar ainda muito?
Não há aí ninguém a escrever sobre a alegria de acordar vivo e viver cada dia nela?
Perdoem-me o desabafo!
Saudações sombrias cá da Cidade Morena, terra de Pepetela e alegre, onde ali ao fundo da rua se celebra um óbito, na certeza de quem morre "vai desta para melhor".
Precisam
Divertido é "Os Vivos e os Outros" do Agualusa em que ele imagina com humor e ironia os comportamentos de escritores africanos num congresso na Ilha de Moçambique flagelada por uma intensa tempestade tropical.
EliminarÓ Paxeco já que falas de livros que nos possam divertir, lembro-me que, há alguns anos, me ri quase do principio ai fim do livro "O CHAPÉU DE TRÊS BICOS" de Pedro Antonio de Alarcón.
Eliminar"Com os holandeses" do excelente Rentes de Carvalho vale a pena ler.
Outro livro que me fez rir à gargalhada foi "LISBOA EM CAMISA" do Gervásio Lobato.
EliminarE, claro, o clássico do Mário Zambujal "A crónica dos bons malandros".
Esses fizeram rir, sem dúvida. Outro em que dei por mim a rir sozinha foi "O crime do padre Amaro".
EliminarCitas dois livros intemporais... o Lisboa em Camisa e a Crónica dos bons malandros! São eternos!!!!
EliminarBem, já que estamos nisto, recordo "A máquina de fazer espanhóis", "memorial do convento", e por fim, "nutshell" (este último do McEwan), por ordem decrescente. Muitos dos que apresentam não li, pelo que vão passar para a lista!
EliminarOra aqui está um livro (Lisboa em camisa), que soube da sua existência através dos Amigos Extraordinários. No caso concreto, do Extraordinário Pacheco. Encontrei depois o livro, bem velhinho, na Biblioteca Mãe. E que belas gargalhadas eu dei com a sua leitura! Num dos Extraordinários Serões desprovidos de televisão...
EliminarCeleste Silveira
Não podia estar mais de acordo com o "nosso" Paxeco.Ja tive ocasião de fazer um comentário semelhante aqui há tempos a propósito do exagero de livros e leituras de Auschwitz e semelhantes.
ResponderEliminarSera´ que ser intelectual é só gostar de tristezas e sobretudo dar a entender que só os assim pensantes e leitores constituem uma camada de eleitos que apenas apreciam a essência do ser humano em desgraçados,marginalizados,proscritos,miseraveis,violados,injustiçados,enfim...
Vamos ser alegres,vivos,atentos ao bom da vida,sem esquecer é claro todos os problemas da sociedade,mas também sem ficarmos obcecados por eles e sobretudo sem conseguir apreciar o outro lado de todas as existências.
Aí está um exemplo do que a Maria do Rosário falava há dias: uma pessoa de género alternativo. Marieke Lucas Rijneveld prefere que se refiram a ela por "they" em vez de "she". No holandês, curiosamente, os pronomes "ela" e "eles" podem ser escritos da mesma forma "ze", uma mera coincidência.
ResponderEliminarTambém não estou muito entusiasmada para ler esse livro pelas razões já apontadas aqui.
Um livro que me fez rir, há muito tempo, foi "Uma casa em Portugal" de Richard Hewitt. E outro que me enterneceu pela beleza imensa foi "O filho de mil homens" do soberbo Valter Hugo Mãe.
Maria,já li “a máquina de fazer espanhóis “,”memorial do convento “
ResponderEliminare “nutshell”há muito tempo,e que me lembre nenhum e’ para rir.Aconselho
“o que diz molero “de Dinis Machado
É que ri mesmo! Alto e vergonhosamente. Pode ser que tenha um sentido de humor um tanto deturpado...
EliminarMaria,já li “a máquina de fazer espanhóis””memorial do convento “e “nutshell”e que me lembre nenhum é para rir.Aconselho “o que diz molero “de Dinis Machado
ResponderEliminarPeço desculpa pela repetição
ResponderEliminarUma senhora? Uma menina? O autor do livro não se identifica como homem nem como mulher, portanto, acho que o mínimo é respeitar isso, já que se está a falar do livro que escreveu.
ResponderEliminarprecisamente o que me ocorreu. convém compreender a autoria daquilo que se edita.
EliminarO desassossego da noite da escritora Marieke é um livro único ou faz parte de uma trilogia ou de um conjunto de livros?!
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