História e ficção

No último fim-de-semana assisti (embora não presencialmente) a um excelente painel do festival cultural alfacinha 5L, conduzido pela excelente jornalista (e também escritora) Isabel Lucas e com a presença dos autores Lídia Jorge, Isabel Rio Novo e Itamar Vieira Júnior. O assunto era, no fundo, a relação entre a história e a ficção, sendo que todos os intervenientes no debate têm livros publicados que tocam de perto factos ou episódios históricos, desde a Guerra Colonial, o 25 de Abril, a escravatura, a reforma agrária, a vaga de tuberculose no início do século passado, o surgimento do impressionismo ou a biografia do pintor e mecenas Gustave Caillebotte. Sob o nome Tecido da História, poderíamos esperar nessa sessão escritores realmente vocacionados para o romance histórico enquanto retrato de época ou registo de acontecimento épico. Curiosamente, foram autores que não estão minimamente associados a este género literário os convidados a debruçar-se sobre a questão. E que delícia ouvi-los, cada um à sua maneira! Pois ficou claro que, ao contrário da História, que celebra o colectivo e o universal, a Ficção vai à procura do indivíduo, do pessoal, do herói tantas vezes anónimo, para tratar as sujectividades de todos aqueles que nos manuais de História desaparecem sob o manto das mais «objectivas» multidões. Foi tão boa aquela hora de sábado no Museu da Farmácia vista e ouvida aqui de casa... Sabe mesmo bem escutar quem tem realmente coisas para dizer. Obrigada aos quatro. (Para quem queira conhecer alguns dos livros referidos: A Costa dos Murmúrios e os Memoráveis (Lídia Jorge); Rua de Paris em Dia de Chuva e A Febre das Almas Sensíveis (Isabel Rio Novo); Torto Arado (Itamar Vieira Junior).

Comentários

  1. A biografia romanceada do pintor impressionista Gustave Caillebotte criada por Isabel Rio Novo, "Rua de Paris em Dia de Chuva", foi o melhor romance que li durante o Verão passado ! A escritora desvenda-nos uma personagem enigmática, com várias vertentes contraditórias mas todas fascinantes e inesperadas, através da invenção de duas personagens, uma depressiva especialista em impressionismo e uma escritora que procura criar um romance à volta de Caillebotte e que se socorre dos conhecimentos da especialista. Que bela panorâmica nos oferece do mundo social e artístico da segunda metade do século XIX francês, para além da criação de personagens inesquecíveis ! Quando tiver oportunidade de voltar a ver pintura de Caillebotte sentirei que, graças a Isabel Rio Novo, estarei a apreciar a obra de alguém que conheci intimamente.

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  2. "… que, ao contrário da História, que celebra o colectivo e o universal, a Ficção vai à procura do indivíduo, do pessoal, do herói tantas vezes anónimo, para tratar as subjectividades de todos aqueles que nos manuais de História desaparecem sob o manto das mais «objectivas» multidões".
    Ó caríssima Maria do Rosário a História é só isso - por haver um profundo desconhecimento do que verdadeiramente é a História como Ciência, do que ela trata como objecto, do que são os seus diversos instrumentos metodológicos. A História que a Rosário descreve é apenas uma pequena parcela do conhecimento histórico, nem sendo apenas a visão da História Estrutural e Serial dos Annales, da fase de Bloch e Lucien Febvre. Os quais, mesmo assim, viam a História como Ciência Total, onde se "acolitavam" várias áreas científicas como a Sociologia e outras ciências do Homem, como a Psicologia, até, mesmo, a Antropologia de Lévi-Strauss. Na História, o herói anónimo é actor e parte de investigação, em Micro-História, História Biográfica, Prosopografia, História Memorial, História Oral, etc.
    Na realidade somos todos História na definição das nossas vidas escritas porque já vividas, na reflexão sobre todos os momentos vividos, pelo que ficcionar é olhar sobre o nosso próprio passado, mesmo que ficcionando com esses olhos sobre o Futuro.

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  3. António Luiz Pacheco11 de maio de 2021 às 04:40

    Escrever sobre a história, inspirado nela, é diferente de escrever um romance e introduzi-lo na história segundo cada um a veja, penso eu traça dos livros, que aliás lê bastante destes temas, mas aprendi a evitar ler os segundos e a concentrar-me nos primeiros.

    Dos escritores que estiveram presentes, apreciei francamente o Itamar, pois faz a tal ponte que eu gosto, entre a tradição e a modernidade. Gostei muito do arado torto, mas a formação e a experiência dele explicam muito bem a qualidade do romance no que tange ao realismo e à interpretação do mágico, que ele faz. Consegue portanto aliar a sensibilidade com a qualidade da escrita e o respeito pelas raízes, que denota e acho que devemos todos ter.
    Um abraço ao Itamar, cá da Cidade Morena!

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  4. Boa tarde.
    Creio que já aqui me referi ao livro em causa, mas porque o considero um livro e um autor excepcional, e em certa medida tem a ver com o tema em causa, isto é história /ficção, não posso deixar de o referir. O livro chama-se "Deixem falar as pedras" do David Machado.
    A personagem em causa atravessa toda um vida sob a ditadura do estado Novo.
    Um livro duro mas ao mesmo temo tão cheio de ternura.
    Leiam-no por favor!
    Com um abraço da margem esquerda do estuário do Tejo.
    A. Delfim

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  5. A sessão ficou gravada? Gostava muito de ouvir.

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