Excerto da Quinzena
Tive saudades deste livro que li no fim do século passado; e esta cena, particularmente, foi-me evocada pela leitura do livro de Marieke Lucas Rijneveld, O Desassossego da Noite, vencedor do Man Booker International Prize, que sai daqui por quatro dias. Uns católicos, outros protestantes, a mesma tristeza em ambos.
Falta pouco para o padre nos vir fazer o exame de Catecismo. O professor tem de nos ensinar como é que se recebe a Sagrada Comunhão. Manda-nos juntar à volta dele. Enche o chapéu de bocadinhos de papel de jornal. Entrega o chapéu ao Paddy, ajoelha-se, diz-lhe para tirar um bocadinho de papel e lho pôr na língua. Mostra como se deve fazer: pôr a língua de fora, receber o bocadinho de papel, esperar um momento, meter a língua para dentro, pôr as mãos, levantar os olhos para o céu, fechar os olhos em adoração, esperar que o papel se derreta na boca, engoli-lo e agradecer a Deus aquela dádiva de receber a paz da Graça Santíssima. No momento em que ele põe a língua de fora, temos de fazer um esforço para não nos rirmos, porque nunca nenhum de nós viu uma língua tão grande e tão vermelha. Ele abre muito os olhos para ver quem é que está na risota, mas não pode dizer nada porque ainda tem Deus na língua e é um momento sagrado. Levanta-se e manda-nos ajoelhar à volta da sala para treinarmos a Sagrada Comunhão. Dá a volta à sala, a pôr-nos bocadinhos de papel na língua e a dizer umas coisas em latim. Alguns dos rapazes riem-se, e ele grita-lhes que, se não pararem com a risota, não é a Sagrada Comunhão que vão receber, mas os Últimos Sacramentos...
Frank McCourt, As Cinzas de Angela, tradução de Maria do Carmo Figueira
Bom dia com Alegria
ResponderEliminar"Felizmente que o ser humano, pelo menos até certa idade, é matéria moldável, e rapidamente aprende as lições mais duras: aquelas que são como fogo, que deixam o lastro de uma queimadura grave. Tão cedo não queremos voltar a ser queimados, e aprendemos rapidamente a deixar de querer aquilo que nunca poderemos ter, aquilo cujo esquecimento é menos doloroso do que a constante ausência."
Peanuts - João Tordo (Granta Portugal, nº 10)
Bom fds, Súde e Boas Leituras
cp
Interessante, nunca li nada do autor, mas confesso que me despertou vontade de o conhecer melhor.
EliminarCreio que é este o espírito aqui do excerto da quinzena...
Saudações cá da Cidade Morena.
É esse mesmo! Aproveite.
EliminarNão cheguei a ler essa edição da granta. Obrigada pelo excelente excerto!
Eliminar" A partir da estrada de Rouen-Yvetot subi, com curiosidade e apreensão, em direcção à Abadia de Saint Wandrille. Passara uma noite abominável em Rouen, num hotelzinho perto da estação. Aí, depois de uma semana de deambulações nocturnas em Paris, uma procissão de pesadelos pontuados pelo ruído das partidas e chegadas dos comboios, com estrondos, apitadelas e baforadas de vapor e fumo, fez dessa uma noite de sofrimento atroz aparentemente interminável. Nem as curvas nebulosas do baixo Sena, os campos verdejantes e férteis e as filas indianas de salgueiros por entre as quais o autocarro avançava na manhã seguinte foram capazes de dissipar a sensação de desânimo e depressão; e agora, subindo a estrada quente através dos bosques no fim do Verão, perguntava-me se não seria melhor desistir. Quase mais do que o sucesso, receava o fracasso imediato.. Se não houvesse quartos na Abadia, ou se, por outra razão, os monges não pudessem receber-me, teria de regressar a Paris e reformular os meus planos para as semanas seguintes. Chegaria desconhecido e sem me fazer anunciar, um cidadão da ilha herege do outro lado do Canal, nem sequer levando a desculpa de que desejava entrar em retiro; na realidade, procurava um sítio sossegado e barato onde ficar, enquanto trabalhava no livro que estava a escrever. Um amigo de Paris tinha-me dito que Saint Wandrille era uma das abadias beneditinas mais belas e mais antigas de França. Preparei tudo, e parti..."
ResponderEliminarTempo de Silêncio- Patrick Leigh Fermor- Tinta da China
Já li esse livro há algum tempo, achei muito interessante; se não estou em erro, há um filme baseado no mesmo, que também vi na TV.
ResponderEliminarNão posso deixar de me referir a um vídeo que me enviaram, relativo à divulgação das aldeias históricas de Portugal, que muito bem referem as nossas memórias de povo e país!
ResponderEliminarO texto, aliás muito bem dito e melhor escrito, é na minha opinião trácica literatura!
Como é literatura muita coisa que se escreveu, escreve e vai ser escrito sobre essa nossa memória, do nosso povo e do nosso país, ainda que uma ou outra sensibilidade ultrapassada considere tal como chauvinismo, no entanto consideremo-lo respeito por nós próprios, e, é na verdade uma bela peça!
Vejam, aconselho eu, quem conhecendo uma boa parte dos Extraordinários, sei que vão apreciar e apoiar esta iniciativa!
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https://youtu.be/HmgFV7wsFcQ
Saudações imemoriais cá da Cidade Morena, onde o plano de recuperação do ex-líbris, que é a marginal e a zona ribeirinha justamente chamada de "Praia Morena", contempla e mantém como destaque o obelisco de homenagem ao fundador de Benguela, Manuel Cerveira Pereira, em 1617 - uma memória das que não se apagam.
Ó amigo e extraordinário Paxeco, o que queres dizer com:
Eliminar-minha opinião trácica literatura!
Ou será que terá havido ali algum erro (não conheço essa palavra trácica, o que não quer dizer que não exista)? Esclarece-me lá, por favor.
Obrigado e um abraço
SL
Ora: trácica, é de traça! Traça dos livros... é um neologismo!
EliminarObrigado Paxeco-estamos sempre, sempre a aprender.
Eliminar«[...] Enquanto esperava, calmamente, pelo cacilheiro, ficou com a sensação que aquele largo que, fora nos anos oitenta o maior centro de circulação de pessoas e transportes da Europa, estava cada vez mais calmo. Tudo graças ao comboio da ponte...
ResponderEliminarUns metros mais à frente descobriu uma cara conhecida, Pedro Sempre, outro herói das suas crónicas mundanas.
Pedro era um velho contador de histórias que passava parte dos seus dias fundeado num banco de madeira, assistindo ao cair da tarde rente ao seu Tejo.
Quem quisesse ouvir qualquer aventura do mundo só precisava de se sentar e escutar com atenção, a sua voz pausada, o melhor bilhete para uma mão cheia de viagens, extraordinárias, pelo Ocidente e Oriente, que se tentavam aproximar das de Fernão Mendes Pinto.
À medida que falava, o velho fazia festas ao Banzé, o seu companheiro de sempre, um cão escanzelado que lhe aquecia os pés e a alma, escondendo com o seu pelo deslavado, os buracos dos sapatos gastos, com ar de quem já dera mais que uma volta ao mundo [...]»
Conto "Sonhos Cor de Água", do livro "Um Café com Sabor Diferente", de Luís Alves Milheiro
Luis Alves Milheiro, é um excelente contador de histórias, histórias das pessoas, e das coisas também, pois é jornalista e fotógrafo.
EliminarMuito boa idéia recordar este autor!
Está [o viajante] quase a despedir-se. Veio por causa do caminho, da grande serrania, destes altos pitões, e correndo agora em redor os olhos, já distraídos, dá com duas meninas que o miram, com sério rosto, suspendendo as atenções que davam a uma boneca de comprido vestido branco. São duas meninas como nunca se viram: estão em Castro Laboreiro e brincam à sombra duma árvore, a mais nova tem o cabelo comprido e solto, a outra usa tranças com uns lacinhos vermelhose, e ambas fitam gravemente. Não sorriem quando olham a máquina fotográfica, quando assim se mostra o rosto, tão aberto, não é preciso sorrir.
ResponderEliminarJosé Saramago - Viagem a Portugal
ResponderEliminar«Último cliché do bairro, enquadrado na cidade, e esta no rio, envolvendo o segundo amor da sua vida, que o primeiro, esse terá sido, segundo apurou Molero, a Greta Garbo, temos um poema dedicado à menina Mariana, formosa e intangível, a mais fugaz e pudica das aparições lá numa janela alta, o seu Amor de Perdição, caiu nas mãos dele, certa noite, o romance de Camilo, leu-o de um fôlego, enfeitiçado pela maneira como uma simples história de amor pode assumir a grandeza, estava repleto de febre e de Simão quando rompeu a aurora», disse Austin, e fez uma pausa. «O poema diz: Há pombos esquecidos nas estátuas desta cidade naufragada. Mastros de sombra escrevem o teu nome e em cada letra reconheço a madrugada. Mulheres e homens, enlaçados de cansaço, dormem um sono fundo, com raízes. Das margens desse sono se levantam as pedras das palavras que não dizes. Foge o mar dos meus dedos entre a noite, e a noite é uma canção que te procura. Nos meus olhos ardem estrelas encharcadas que rodeiam de azul a tua altura. Cada esquina é um cais à tua espera. Faróis e candeeiros chamam por ti. Como um sonho deslizo e permaneço na rua da janela onde te vi. Finalmente os pombos largados, partindo desta estátua que tu és». Houve outra pausa. «Este poema», disse Austin, «intitula-se The High Window, germinou muito tempo dentro dele e foi escrito anos depois, quando começou a ler e a amar os livros de outro escritor, Raymond Chandler, homem triste cheio de humor, que criou uma espécie de herói de aluguer, labiríntico e algo macerado, a quem os outros serviam logo ao pequeno-almoço, e sem direito a notícia nos jornais, pontapés na boca do estômago misturados com traição».
Dinis Machado em O Que Diz Molero, pág.117, Livraria Bertrand, Setembro de 1977
Grande Dinis Machado dando-nos simultaneamente um retrato poético e denso de uma sociedade que pouco muda, pois pouco mudam os Homens.
EliminarA capa (linda) deste livro (As cinzas de Ângela) seduziu-me durante muito tempo -tenho de o ler tenho de o ler- mas acabei por, na altura, não o ler...e ainda não o li (por enquanto)
ResponderEliminarÉ muito bom. Não se vai (de todo) arrepender.
EliminarBom fim de semana.
Celeste Silveira
"Os anos passam. Reencontramo-lo em 1114 na cidade de Merv, antiga capital do Coração, ainda célebre pelas suas sedas e pelas suas dez bibliotecas, mas privada, desde há algum tempo, de qualquer papel político. Para devolver brilho à sua desacreditada corte, o soberano local procura atrair as celebridades do momento.
ResponderEliminarEle sabe como seduzir o grande Khayyam:propondo-lhe construir um observatório em tudo semelhante ao de Ispãao. Aos sessenta e seis anos, Omar continua a sonhar apenas com isto, e aceita com um entusiasmo de adolescente, embrenhando-se no projecto."
(...) Escreve também robaiyat, estimulado, tudo leva a crer, pela excecional qualidade dos vinhedos de Merv."
excerto retirado do livro intitulado Samarcanda , Amin Maalouf, Marcador Editora, 1.ª Edição Maio de 2015, págs 168, 169
«- Eu sou assim – dizia Frank Amaurès, Francisco Amor Júnior, emigrante. E desenhava, a quem o atendesse, o seu retrato em dimensão de herói.
ResponderEliminarQuem com ele crescera, mal o reconhecia. Não sendo alto, elevava-se, porém, como sobre umas andas mal assentes e olhava de cima para os outros. De cima e com alguns acertos de equilíbrio já que a vaidade em pouco difere da bebedeira.
“Eu sou assim”, dizia. E vinha o elogio. Homem de uma só cara, respeitado, amigo do amigo, honesto, que nem era preciso pôr à prova.
Sempre cheio, o bolsinho da conversa. Sempre cheio, contanto que o deixassem tirar de lá a sua própria história, agigantada e farta em episódios. Ele nunca soube e nunca o avisaram de quão risível foi o seu papel.»
“Insânia” de Hélia Correia, Relógio d’Água
"É um velho de pé na ré de um barco. Aperta nos braços uma mala leve e um recém-nascido, ainda mais leve do que a mala. O velho chama-se Senhor Linh. É o único a saber que se chama assim pois todos os que o sabiam morreram à sua volta.
ResponderEliminarDe pé na popa do barco, vê afastar-se o seu país, o dos seus antepassados e dos seus mortos, enquanto a criança dorme nos seus braços...."
:A NETA DO SENHOR LINH" - Philippe Claudel
«É muito mais fácil escrever uma distopia do que uma utopia. O centro do alvo é um espaço muito pequeno, o único «certo». Tudo o resto, todo o espaço envolvente, desde esse mesmo centro até aos confins do universo, é o lugar errado. Falhar é muito mais fácil e uma distopia é uma sociedade fora do alvo.
ResponderEliminarPara um autor escrever uma distopia, basta ter como objectivo escrever uma utopia. »
Afonso Cruz, Jalan Jalan
Também li As Cinzas de Angela no fim do século passado. Pareceu-me mais valioso como documento do que como literatura, mas gostei tanto que o ofereci talvez uma dezena de vezes, isto é, de cada vez que precisava de oferecer alguma coisa (deve ter apanhado o Natal ).
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