Novas Cartas Portuguesas
Este é um daqueles títulos que vêm sempre à tona quando se pensa em livros censurados durante a ditadura, em feminismo, em liberdade e em mulheres de coragem. E a verdade é que as Novas Cartas Portuguesas já têm... 50 anos! O livro foi escrito por três mulheres notáveis (Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta), as duas primeiras infelizmente já desaparecidas (mas presentes nos muitos livros que escreveram), e tem uma edição nas Publicações Dom Quixote com a organização e o comentário avisado da poetisa e professora universitária (e também feminista) Ana Luísa Amaral. Ora, é justamente sobre este livro-marco que hoje se inaugura uma exposição no Museu do Aljube Resistência e Liberdade (no edifício que foi ourora uma prisão política). Chama-se Mulheres e Resistência, Novas Cartas Portuguesas e Outras Lutas e pretende homenagear as mulheres que, ao longo de 48 anos, foram determinantes na luta antifascista e na conquista da liberdade. A exposição ficará aberta até ao final do ano. Entre outras coisas certamente mais interessantes que tem para ver, está um poema meu. Foi um desafio que gostei muito de aceitar.

Obrigado ! Para aqueles que vivem longe de Lisboa, será que a Maria do Rosário poderá transcrever o seu poema em post deste blogue?
ResponderEliminarJunto-me ao Artur neste pedido, se for possível.
EliminarObrigada, desde já.
Ontem "Foi bonita a festa, pá!" mas ainda faltam cá muitos. Andei a ler e a relembrar nomes que já quase tinha esquecido, quase...
Bom dia!
Há memórias e lembranças que devem ser mantidas, preservadas!
ResponderEliminarA coragem dessas mulheres, é uma dessas. Porque para fazer o que fizeram, ou faziam, naquele tempo e contexto, em tempos duros, é que era preciso ter coragem!
Nos tempos que correm já muito pouca gente sabe o que é ter esse tipo coragem, as actuais gerações nem o imaginam, pelo que estas memórias têm mesmo de ser mantidas.
Ninguém duvide nunca da coragem das mulheres, eu sou disso testemunha, diáriamente e de há muitos anos, não me apercebi dela só agora. Sempre vivi entre mulheres de coragem.
Saudações, valentes e corajosas, cá da Cidade Morena.
As mulheres do Povo, as nossas Mães e Avós, antes do 25 de Abril foram, na quase totalidade, mulheres de grande grande coragem, autênticas heroínas, a quem todas as homenagens serão poucas!
ResponderEliminarUma grande verdade Seve! Tendo sido esquecidas e ignoradas, tidas erradamente por submissas ou apagadas, não eram, eram mulheres de muita coragem, que caladas e humildes foram levando a água ao moínho, criando filhos, sustentando a casa!
EliminarUm abraço!
Exactamente, caro Paxeco, criando filhos (e maridos) e administrando e gerindo a casa!
EliminarCriando filhos (e maridos) sustentando e gerindo a casa (e sempre na sombra)!
Eliminar
ResponderEliminarUm livro de coragem num tempo em que os dias eram tão cinzentos, tão amargos…
O meu exemplar (edição Futura, Maio de 1974) está completamente desfeito, as folhas desfazem-se, saltam… ou as colas não prestavam, ou os livros eram feitos à pressa… também foi largamente manuseado, abundantemente anotado…
Irei esperar pela Feira do Livro para adquirir o exemplar da Dom Quixote.
Mas só em Agosto haverá Feira do Livro.
Quem escreveu o quê? Maria Teresa Horta, sobre a autoria das páginas, já disse que levava com ela o segredo. Estarei de acordo que assim seja?
«Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dentes.
Desço:
macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.
Não necessàriamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa de morte do meu corpo»
Ainda tenho a primeira edição, embora não tenha lido na altura todas as Cartas.
ResponderEliminarMulheres Coragem de Resistência que não se podem esgotar no passado, exigindo a escri-ta-reescrita de "Novíssimas Cartas Portuguesas". Quantas dessas Mulheres Coragem foram na altura mal recebidas por outras mulheres da sociedade de então e de tudo apelidadas? Só a Coragem dignifica e parece vivermos nesse item, novos tempos sombrios. Actualmente "trabalhando" em investigação, nas margens da transição de regimes, repugna-me uma nova-velha "sociedade organizada", que não está novamente estruturada para defender os pobres, os injustiçados, os agredidos, os sem poder, remetendo ao mérito, à decência, verdadeiramente, ao colectivo — mas para replicar novos-velhos interesses pessoais, grupais, com as consequências mediatas e a prazo de uma sociedade de Antigo Regime. Verdadeiramente o 25 de Abril não foi um golpe de afirmação colectiva, mas um golpe de um número de incomodados. E sei bem do que falo, pois os meus pais — ele oficial do exército, ela professora de línguas de português e literatura, sofreram bem os incómodos de uma vida nómada, sofrida — a (des)crédito do regime de Salazar e Caetano —, vida arregimentada apenas na lealdade mútua de um amor honesto, sublime, eterno. Desta investigação das margens, ressaltou o vislumbre de uma "nova mudança", uma espécie de Velho Normal de novilíngua reconstituída. De uma sociedade com margens bem distintas, uma sociedade de Costa do Sol tapando o Sol, de outras linhas despojadas de cidadania, com uma rude peneira. Que se exaltem, pois, estas Mulheres Coragem escritoras do passado e que nunca se deixem de escrever novas páginas de resistência e coragem. O futuro saberá dar-lhes o valor devido, como o que actualmente damos à exce-lente prosadora e poetisa ainda viva, Maria Teresa Horta.
ResponderEliminarBom dia com alegria
ResponderEliminarComo dizia o Sérgio Godinho, isto anda tudo ligado.
Também por este livro percebemos como aqui chegamos, como somos, porque somos...
Não resisto a deixar esta "carta", esclarecedora e clarividente do atavismo e da nossa probreza civilizacional:
RELATÓRIO MÉDICO-PSIQUIÁTRICO SOBRE O ESTADO MENTAL DE MARIANA A.
O Conselho Médico-Psiquiátrico do hospital de (...) foi incumbido de examinar o estado mental de Mariana A., que deu entrada na tarde de 16 de Agosto do ano de (...), neste hospital onde ficou internada.
Mariana A., de 25 anos de idade, casada, nasceu em Beja e vive em Lisboa há cerca de 3 anos. Sabe-se que o pai se suicidou e a mãe, senhora muito religiosa e austera, tem hoje 50 anos. Deste casamento nasceram três filhos: duas raparigas e um rapaz, vivendo a rapariga mais velha e ainda solteira com a mãe. A doente, até há três anos, mais precisamente até 20 de Maio de (...), data do seu casamento com António C., hoje em serviço de soberania no Ultramar, vivera também na casa materna. Segundo suas próprias informações, dava-se ela muito mal com a progenitora, preferindo esta claramente os outros dois filhos, em especial a filha mais velha, com quem se entende muito bem desde sempre.
Estes dados tal como os que se seguem são importantes, na medida em que podem vir a esclarecer o estado mental da doente, ou as causas que a levaram ao acto que praticou, acrescentando-se desde já, nunca Mariana A. ter dado, segundo a família e atestados médicos, sintomas de alienação, ou tendência para aberrações sexuais. Tendo desde criança uma cuidada e rígida educação católica, fez seus estudos em colégios de freiras, cumprindo sempre com a rígida moral lá estabelecida. No entanto, a meio da tarde do dia 16 do més de Abril do corrente ano, Mariana A. deu entrada de urgência neste hospital, acopulada com um cão. A doente que se encontrava em estado de histeria, era acompanhada pelos sogros que prestaram as seguintes declarações:
“Estávamos a repousar depois do almoço, quando ouvimos gritos e choros vindos do quarto da nossa nora. Quando conseguimos abrir a porta, não entendemos logo o que se passava, imaginando primeiro que Mariana estivesse a ser atacada pelo animal e corremos para a ajudar, então... bem, não quisemos acreditar, percebe, ela era tão sossegadinha, tão ajuizada, sempre fechada em casa a escrever ao marido! Nós até lhe dizíamos que devia sair connosco para apanhar um pouco de ar... Claro que nunca a deixariamos sair sozinha ou mesmo com alguma amiga, aliás ela não chegou a fazer amigas em Lisboa, o nosso filho era muito metido consigo, gostava só de se dar com pessoas que conhecesse bem, em tudo que dizia respeito à mulher, então, era bastante esquisito, mas ela até parecia gostar disso. Muito ensimesmada desde que o nosso António foi para Africa, não dormia de noite, nem se alimentava o suficiente, estávamos até para a levar ao médico.”
EliminarMariana A., durante os primeiros dias recusou-se a fazer quaisquer declarações, chorando, gritando quando não estava sob o efeito de hipnóticos. Em seguida caiu num mutismo que parecia não ceder aos tratamentos a que era sujeita. Hoje já presta declarações, recusando-se no entanto a falar do que a levou a cometer o acto que a fez ser internada, não querendo igualmente referir-se ao marido, nem ao seu casamento. Caso se insista, parece deixar de ouvir, os olhos fitos num ponto fixo, assim podendo ficar horas. Comunicando-nos as enfermeiras que Mariana A. monologava bastantes vezes alto quando se julgava sozinha no quarto, recorreu-se a gravações. Transcrevemos adiante uma das que nos pareceu de maior interesse:
“Tu nunca percebeste nunca. A minha mãe dizia é pecado a carne é luxúria e mesmo contigo o era. Foste sempre uma prisão alguma vez pensaste em me ouvir? E agora longe estes anos todos. Anos e anos e eu que fazia? Que fazia desses dias de todo esse tempo em que a única luz seriam as tuas cartas onde tudo me explicavas em pormenor te gabavas de coragem feitos de armas risco e das lutas que para ti são já divertimentos um jogo ou como se em caçadas se tornassem elas. Daí a fotografia que me enviaste onde apareces sorrindo e os teus pais mandaram encaixilhar e está na sala em cima do piano. É luxúria dizia minha mãe é pecado a carne e mesmo contigo eu sentia que o era quando gozava e só eu sei como me tentava retrair. E depois todos estes anos a pesarem-me no ventre todos estes pensamentos estes desejos estas ideias a tua mãe a vigiar-me o teu pai a ler o que eu te escrevia e o que tu me mandavas dizer. E tu como uma prisão sempre como uma prisão e eu a criar-te horror a criar-te todo este asco todo este enorme medo.”
Resumo:
1-Mariana A. não é alienada.
2-Não apresenta qualquer indício de tara sexual.
3-0 acto que aqui a trouxe pode ser atribuído apenas a um grave desequilíbrio de ordem nervosa, cujas causas devem ser aprofundadas a fim de se poder tentar curar a doente.
Hospital de (...), 30 de Dezembro de (...).
Saúde e boas leituras
cp