Obituários

Ontem referi ao de leve a morte de Philip Roth, autor sobre o qual escrevi aqui muitas vezes, até porque sempre adorei os seus livros. Mas não é exactamente dele que me interessa falar hoje, antes de uma circunstância curiosa para a qual Vítor Sousa, que conheci num Festival Literário da Madeira há vários anos, chamava a atenção num post do Facebook. Ao que parece, pouco tempo depois de anunciada publicamente a morte do escritor norte-americano, o diário britânico The Guardian publicava um longuíssimo obituário que não podia ter sido escrito ali em cima do joelho, e do pé para a mão, por um jornalista. Ou seja: provavelmente consciente da idade já avançada do escritor ou do seu estado de saúde, o jornal preparou tudo com antecedência para quando a bomba explodisse; e, no dia em que explodiu, já só foi preciso fazer uns retoques e corrigir as datas. Claro que é trabalho de profissionais a sério, como não podia deixar de ser no The Guardian. Mas que sentirão os jornalistas ao escreverem sobre a morte de um homem que ainda está vivo? Uma jornalista, comentando o post de Vítor Sousa, dizia que é terrível, sobretudo quando têm de fazer perguntas subtis a terceiros sobre a figura em causa e não podem deixá-los adivinhar que já são para o obituário. Será que, também nos nossos jornais, já há artigos escritos de fio a pavio sobre os nossos artistas mais velhos ou doentes? Alguém matará semanalmente por escrito um ou dois vivos dos nossos se estiverem doentes ou forem velhinhos? Lembro-me de que há uns anos alguém me telefonou a pedir um depoimento sobre Agustina que não sei se chegou a ser publicado. Seria para isso? (Se foi, enganaram-se bem…) Em todo o caso, estou com Vítor Sousa quando escreve: «Eu compreendo. São idosos, alguns muito doentes e cada vez mais próximos do inevitável, mas é violentíssimo imaginar a quantidade de textos aos quais só falta corrigir uma data.»

Comentários

  1. Não vejo o caso com gravidade. E penso que isso sempre aconteceu no jornalismo.

    Pelas imensas histórias que me têm contado, antes de Abril era mais comum do que muitos poderão pensar, escrever notícias na redacção, sem colocar os pés nos eventos (num tempo em que era quase tudo igual...). E está prática só estava reservada aos chamados "consagrados"...

    ResponderEliminar
  2. Quanto ao terrível que será escrever obituários de vivos, volto ao filme sobre Eduardo Lourenço: só poucos aceitariam terminar um filme em que se encena simbolicamente a sua própria morte, com o ensaísta o faz ao deixar-se filmar a subir uma escadaria em direção ao Além. Claramente, Eduardo Lourenço não se deve importar que hajam textos já escritos para serem publicados no dia seguinte ao da sua morte. E quanto a obituários, recordo a história caricata da origem dos Prémios Nobel que se deve a um obituário publicado antes de tempo: quando morreu o irmão de Alfred Nobel um jornalista pensou que seria ele quem tinha morrido e publicou um obituário em que afirmava que tinha morrido o homem que tinha inventado um método que permitia matar mais gente mais depressa do que alguma vez acontecera. Reza a lenda que foi ao ler esta frase do seu obituário que Alfred Nobel terá decidido doar a sua fortuna para a criação dos Prémios com o seu nome.

    ResponderEliminar
  3. Emílio Gouveia Miranda30 de maio de 2018 às 04:14

    Para obviar a todos estes incómodos, cada um de nós deveria, em data à sua escolha, escrever o seu próprio obituário. De uma maneira ou de outra falta sempre objectividade aos textos que nos vêem como mortos, e pelo menos o responsável pelas verdades, mentiras e meias verdades seria sempre o próprio. O único responsável por quem foi em vida.
    O que acham?
    Claro que isto nos obriga a mudarmos um pouco (muito) a forma como nos encaramos e sobretudo a forma como encaramos a nossa morte.
    Viva a Vida e bom feriado para todos. Se for caso disso, bom fim-de-semana.

    ResponderEliminar
  4. Aposto que os autores desses obituários são contra a eutanásia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu sou contra a eutanásia e a favor da lei da eutanásia. Assim como sou contra o aborto e favor da lei do aborto. As minhas convicções pessoais não devem nem podem limitar as escolhas livres que os meus semelhantes possam ou não fazer. Eu não sou o dono da razão, nem quero impor as minhas convicções aos outros. As questões de consciência são para ser decididas pela consciência de cada um e não por proibições legislativas. Nenhuma imposição a ninguém, antes a liberdade para que cada um decida conforme o que considerar mais correto. Só Deus, se existir, julgará as decisões individuais tomadas pela consciência de cada um de nós. Deixai a Deus o que é de Deus, e aos homens o que é dos homens.

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco30 de maio de 2018 às 09:05

      Aplaudo!

      Eliminar
    3. Merece o aplauso!
      E aplaudo o país, porque apesar de pequenino (geograficamente, e não só), se tem vindo a revelar quase pioneiro na consideração de legislações "para a frentex" - descriminalização do aborto, do consumo de drogas e agora, da morte medicamente assistida (independentemente de ser a favor ou contra).
      Não é curioso?

      Eliminar
    4. Muito bem dito!
      Manuela

      Eliminar
  5. Não vejo por que há-de ser tão violento escrever sobre quem ainda não morreu, mas está próximo disso; seria mais leal se esperassem pelo desenlace. Talvez seja pouco ético, como as situações em que se espera que morram os pais que já se encontram num lar para lhes alugar a casa onde viveram. A violência não estará tanto em escrever antes sobre gente que se admira profundamente, em vida como na morte; a passagem é apenas um pretexto para mostrar esse amor e admiração. Violência é o motivo por que se escreve com antecipação. Tudo serve para negócio.

    ResponderEliminar
  6. António Luiz Pacheco30 de maio de 2018 às 09:14

    Fora eu famoso, ou mesmo não o sendo, não me choca mesmo nada que o obituário seja escrito ainda em vida... como não me choca fazer testamento - que tem de ser em vida!
    Na verdade, aqueles que conquistaram o direito a serem celebrados, há que entender como uma honra o ser-lhes preparado o seu obituário, para que não seja imerecidamente feito "em cima do joelho"!
    Só me chocaria ser autopsiado em vida!

    Faz-me lembrar uma história de Juca Chaves:
    - O Máximo detestava o seu nome, por isso deixou escrito nas suas vontades que não desejando que seu nome voltasse a ser proferido e nem sequer lembrado, a lápide não podia tê-lo escrito!
    A família, amantíssima e saudosa, mandou colocar em epitáfio um longo texto onde eram expressas as suas elevadas qualidades de marido e pai.
    Resultado, quem passasse perto da campa era atraído pelo tamanho da lápide onde o comprido texto sobressaía, e logo exclamava:
    - Puxa! Esse cara era o máximo!

    Saudações bem vivas cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  7. O 'Afirma Pereira' era centrado nisso mesmo, escrever óbitos de quem ainda não tinha morrido.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório