Nu contra a corrente

Enquanto o puritanismo vigente em algumas partes do mundo (nos EUA, por exemplo) pede a retirada dos museus de certos quadros e esculturas considerados ofensivos (as telas mais espectaculares de Balthus, imagine-se, e muito mais), o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) inaugura amanhã uma exposição temporária de obras de arte do seu acervo com um denominador comum: a nudez.  Chama-se (mas que nome tão bem arranjado!) Explícita e terá 70 obras de nus masculinos e femininos e até de algumas cenas de sexo, evocando, como consta da nota de promoção, as antigas «Salas Reservadas» de alguns museus, nas quais paredes inteiramente forradas a telas «concupiscentes» (a palavra é do próprio museu) vibravam no seu conjunto de tal forma que se sobrepunham ao choque que cada uma, individualmente, pudesse causar ao mais conservador dos visitantes. É preciso lutar contra a estupidez e a beatice que às vezes escondem coisas muito mais terríveis e obscuras, e estou contente com a circunstância de o nosso MNAA criar uma exposição temporária para fomentar o debate sobre se a arte pode ser proibida e sobre se os museus não devem realmente combater este falso puritanismo usando as armas que têm: a arte e a beleza. Bravo!


 


nua.png


 


 

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda18 de maio de 2018 às 01:05

    Bom dia.
    Os puritanos, em vez de se preocuparem com a nudez deveriam preocupar-se com a estupidez. Deveriam preocupar-se com a falsa arte, com o absurdo que prolifera hoje por inúmeros museus apelidado de arte, quando apenas pretende confrontar, insultar com um sorriso e ofender.
    Bom fim-de-semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco18 de maio de 2018 às 04:21

      Aplaudo!

      Grande Abraço cá de Benguela!

      Eliminar
    2. Emílio Gouveia Miranda18 de maio de 2018 às 04:46

      Abraço, Amigo, cá de Vila Nova da Barquinha, terra de Templários.

      Eliminar
  2. Muito bem.
    E os museus americanos que estão a vender quadros de artistas brancos de forma a angariarem dinheiro para comprarem quadros de negros? Então, se eram tão bons por que não os compraram logo?
    É de loucos este mundo.

    ResponderEliminar
  3. Estamos na fase do "caranguejo", fartamo-nos de andar para trás, voluntária ou involuntariamente.

    Estamos a perder a Liberdade, até de pensar...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco18 de maio de 2018 às 04:24

      Como não conseguem coartar a liberdade do pensamento, tratam antes de levar à desabituação de pensar... na prática o resultado será o mesmo, havendo os iluminados que os censores seguem que pensarão pelos demais!

      Grande Abraço cá da Cidade Morena!

      Eliminar
  4. Pelo menos desde os últimos cinquenta anos, há uma apologia da ignorância e, por acréscimo, da estupidez, que provém de vários sectores da sociedade, sendo o mais insuspeito a Universidade (ler ou reler Allan Bloom “a cultura inculta”) que se constitue como o novo centro difusore do obscurantismo.
    Todo o verdadeiro conhecimento é desprezado e em seu lugar reaparecem (ou aparecem) as mitologias religiosas e outras que conferem aos seus seguidores a inabalável convicção da sua verdade. Essa convicção ignora o outro e consequentemente tudo o que é verdadeiramente humano na sua infinda variedade.
    Essa variedade é a diferença que os vários puritanos não podem admitir porque põe em causa a “sua própria verdade”.
    Os fanatismos, os nacionalismos, os ideologismos, têm todos o seu suporte na ignorância e conduzem sempre a uma forma de violência sobre o pensamento que reflecte e pergunta e procura a resposta. A sua expressão é visível na mediocridade de políticos, jornais, dirigentes associativos, etc. e pode ter consequências extremas como a proibição de obras “impuras” ou o ataque a Alcochete que, embora diferentes na sua espectacularidade, têm a mesma raiz.
    (as minhas desculpas pelo tamanho do comentário)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Desculpem o erro: centro difusor e não "difusore"

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco18 de maio de 2018 às 04:26

      Pela minha parte, poderia ter escrito bem mais, meu caro, pois foi um prazer lê-lo!

      Abraço cá da Cidade Morena!

      Eliminar
  5. António Luiz Pacheco18 de maio de 2018 às 04:36

    Isto hoje promete!
    Gostei mais uma vez do tema e estou a gostar dos comentários!
    Por isso lá vai também a minha comentação:
    - Quando se chega ao absurdo (imbecil!) de tapar a nudez de esculturas consagradas e inseridas nas nossa matriz cultural e civilizacional, para se agradar e não ofender a sensibilidade de um chefe de estado retrógado e desumano , está tudo perdido!
    Rendemo-nos e entregámos a nossa liberdade, herança e tudo que levámos séculos a atingir!
    Ah! Mas entretanto o importante é que na Carris possam viajar animais de grande porte (seja lá isso o que for...) , e isso é que se discute e agita os ânimos como sendo um passo civilizacional de gigante... quantos passos atrás constitui então tapar ou esconder as referidas obras de arte?

    E, falando de livros, nossa paixão, para mim, traça dos livros e barrão ignorante, quando me sugeriram de uma editora que eliminasse certas passagens de um romance que submeti à análise, e me dizem que as descrições de caçadas ou de lides tauromáquicas poderiam ferir sensibilidades, sem sequer mencionarem as descrições de batalhas, disseram tudo: Há uma tentativa de censura, pseudo-bem-pensante!

    Portanto apoio e louvo essa iniciativa que acima referem, a bem da arte, da humanidade e da liberdade!
    Liberdade não é libertinagem, nem é impor aos outros a nossa mas sim respeitar a deles exigindo respeito pela nossa!

    Bom fim de semana, são os meus votos cá desde a Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  6. Certas obras artísticas em torno do sexual ou de nu explícito devem ser banidas a benefício da moral e dos bons costumes. Mas se a produção, artística ou não, beneficiar os negócios, nada a deve obstruir, nem mesmos nesses aspetos agora envolvidos em polémica. Defendia um economista americano já há muitos anos que se deve desligar a economia da moral.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas alguma vez a economia esteve ligada à moral, excepto quando à economia convinha?
      E o que é a moral e bons costumes? A que esconde quadros e prática a prostituição e comércio humanos? A que obriga a criança a casar com o seu violador?
      Há, no caso da arte ou "arte", a opção de não ver, de não comprar.
      Proibir é apenas outra forma de "pornografia".

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco18 de maio de 2018 às 06:34

      Aplaudo uma vez mais!!!!

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco18 de maio de 2018 às 06:39

      Tem toda a razão! A pornografia, possa ou não ser considerada arte - não é o que está em discussão - é isso mesmo, é fruto da economia... o sexo é transacionável, como o é o voyeurismo e portanto temos também a prostituição e por aí fora...
      Porém, nós amantes da literatura, não podemos esquecer que o tema e as prostitutas têm dado notáveis personagens e grandes obras literárias, será portanto a outra face da moeda?
      Ocorre-me de repente Jorge Amado ... só para falar de um caso Extraordinário, e a sua fabulosa Tereza Baptista Cansada de Guerra! Mas há tantos e tantos...

      Eliminar
    4. Madame Bovary, por exemplo, a burguesinha adúltera que sobreviveu ao seu criador, Gustave Flaubert, o qual, no leito da morte, exclamou: "Je me meurs, mais cette putain d'Emma vivra pour toujours!"
      Porém, de lá do outro lado do Atlântico, em terra de "Trumpalhões", velhacos disfarçados de puritanos, já nada me admira nem choca.
      Saudações de Portimão. .

      Eliminar
  7. Mesmo com atraso, também aplaudo a ideia feliz.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório