O Estado e a arte
A história é conhecida, mas cito-a de cor por preguiça de ir à fonte: um general perguntou a Churchill porque gastava dinheiro com a cultura quando todo o dinheiro era necessário para o esforço de guerra; e ele respondeu-lhe que, se não fosse pela cultura, nem valeria a pena fazer a guerra. Lembrei-me desta frase a respeito de um interessante artigo do cineasta Luís Filipe Rocha no Público de 2 de Maio (leiam-no!) que falava da distância que houve sempre entre os artistas e o Estado em Portugal. Mas retive desse artigo uma história deliciosa que não conhecia sobre Beethoven e Goethe, que tinham uma grande admiração um pelo outro. Ao que parece, porém, só estiveram juntos e ao vivo durante meia dúzia de dias; e, ao passearem ambos de braço dado pelos jardins de Teplitz, cruzaram-se certa tarde com a imperatriz e vários outros membros da corte. Apesar de o compositor ter pedido ao escritor que se mantivessem de braço dado e seguissem caminho, pois os que aí vinham é que deviam desviar-se para os deixar passar, Goethe largou-lhe o braço e não resistiu a afastar-se para o lado, tirar o chapéu e fazer vénia. Beethoven, por seu turno, passou pelos príncipes sem lhes dar qualquer importância, tocando apenas no chapéu ao de leve, e esperou que o amigo terminasse os salamaleques para lhe dizer: “Esperei porque vos honro e prezo como mereceis: mas vós deste-lhes demasiadas honras.” Depois disso, Beethoven escreveu durante dezassete anos ao amigo, mas Goethe nunca lhe respondeu... A ligação entre artistas e governantes foi sempre complexa.
Todo o regime e potencial ditador anseia ter os "seus" artistas, os artistas do regime.
ResponderEliminarAssim como a grande maioria dos artistas não resiste a tentar de algum modo aproveitar o regime, seja pondo-se a favor, seja pondo-se contra, para obter ganhos em notoriedade ou apoio financeiro.
É bem sabido e todos já assistimos a isso, por vezes de forma até abjecta!
Porém, aos artistas (quase) tudo se perdoa... porque são artistas e nos deleitam com as suas obras, se bem que tantas vezes nos agridem com as suas opiniões ou actos.
Os exemplos do que digo têm sido tratados em tanta obra literária (a nossa paixão) e todos os conhecemos, ficcionados ou não.
Beethoven terá sido um génio rebelde... como Goethe terá sido submisso.
Não louvo nem critico a um nem a outro, quero lá saber do carácter, o que me importa é a sua arte... ou se assim não fosse estaria impedido de ler obras, apreciar telas ou ouvir música, de autores que não pensem como eu.
Para mim a arte e o génio imperam.
Saudações diletantes cá da Cidade Morena.
Li essa história numa das obras de Milan Kundera (não me lembro de qual), no estilo que ele usa de as inserir na narrativa aparentemente sem motivo para tal. Na altura tomei-a como ficção.
ResponderEliminarDe facto, a verdade que nos resume. Quando somos Alguma Coisa. Se não tivermos por que lutar, que valor terão as nossas lutas, que motivação teremos para as fazer? Se não lutamos por aquilo que nos identifica, o que somos senão mercenários de uma identidade alheia?
ResponderEliminarBoa tarde e um bem-haja,
Gosto bastante de ler sobre amizades célebres. E nem me interessa quem é forte ou quem é submisso ou se nenhum dos elementos tem qualquer dessas características. O que não entendo é como é que alguém, sendo amigo de outra pessoa, não lhe responde às missivas durante dezassete anos. Dá que pensar.
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