O que ando a ler
Embora seja atípico, o que ando a ler neste momento não é um livro, mas muitos ao mesmo tempo; isto porque ando de volta de poemas que originaram fados e, como tal, não cesso de abrir poemários de tudo quanto é gente, desde cancioneiros a obras de autores muito recentes, como, por exemplo, Fernando Pinto do Amaral, que escreveu uns belíssimos fados. Mas, porque devo seleccionar alguma coisa para vos aconselhar, parece-me oportuno falar-vos de Carlos de Oliveira – um poeta que merece ser lido por todas as razões (e, se alguém não for leitor de poesia aqui no blogue, tem excelentes livros em prosa do autor a que deitar a mão, nomeadamente Finisterra, que é um dos meus preferidos). Carlos de Oliveira retirou da sua obra um lindíssimo poema dedicado à mulher e intitulado «Carta a Ângela» (que ideia estapafúrdia «apagar» um poema tão maravilhoso), que foi cantado em versão de fado por Carlos do Carmo. E esse poema vem bastante a propósito porque neste momento está patente no Museu do Neo-Realismo uma exposição dedicada justamente a Carlos de Oliveira, «Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg», com curadoria do professor de literatura da Universidade de Coimbra Osvaldo Silvestre, que ficará aberta até 29 de Outubro para quem a queira visitar e que tem uma choruda programação complementar a consultar no link abaixo. No âmbito dessa programação foi lançado há uns dias um livro chamado justamente Carta a Ângela, que vou seguramente espiolhar. Leiam Carlos de Oliveira – poesia ou romance – e não se arrependerão.
http://www.cm-vfxira.pt/frontoffice/pages/50?news_id=3254
Pois eu, chega daqui a pouco - vou buscar o meu colega e portador ao aeroporto às 10.45 - os Naufrágios de Camões, que vai ser a minha leitura e mal posso esperar!
ResponderEliminarFinisterra diz-me qualquer coisa e era capaz de jurar que o li... não é recente pois não? Vou investigar!
Saudações de um náufrago cá na Cidade Morena.
Caravelas, caravelas,
ResponderEliminarmortas sob as estrelas
como candeias sem luz.
E os padres da inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa cruz.
O que eu cantei isto, ao som do Trovante, sem saber que estava a cantar o poema "Xácara das
Bruxas Dançando" do Carlos de Oliveira.
Só conhecia o Carlos de Oliveira dos livros e dos filmes que passavam na tv.
Também quero espiolhar o Carta a Ângela.
Agora ando a ler as Cartas a Lucílio, do Séneca, que trouxe da biblioteca, e estou a adorar.
Antonieta.
E o poema é lindo!
EliminarTambém existe a versão cantada pelo Luís Cília.
Antonieta
Bom dia e boa semana para todos
EliminarÓ extraordinária Antonieta aqui há uns 3/4 anos requisitei, na (excelente) Biblioteca de Loulé, "Cartas a Lucílio" do Lúcio Aneu Séneca e apaixonei-me por ele.
Este é um livro que obrigatoriamente se tem de possuir, faz parte do ADN de qualquer leitor (viciado ou não), por isso o comprei na última Feira do Livro de Lisboa (uma excelente edição da Fundação Calouste Gulbenkian, por € 14,00). Todos os dias o olho, todos os dias o saboreio/cheiro/abraço/passeio de braço dado com ele, todos os dias o sublinho, é um livro que não se lê, porque cada linha é para desfrutar, beber, pensar, cismar, sei lá -de vez em quando até durmo com ele-!
Aos livros de Carlos Oliveira, de que adorei o "Uma Abelha na Chuva" (como gostei do filme do Fernando Lopes), aplica-se aquela máxima do Enrique Vila-Matas: só são interessantes os livros (e os filmes) de que nem tudo se percebe (mas cujo fascínio também está nisso). Tenho que voltar ao "Finisterra", que confesso não me ter deixado memória duradoura, como a de "Uma Abelha na Chuva". Obrigatório reler, depois da entusiástica recomendação da Maria do Rosário.
ResponderEliminarBom dia, Rosário!
ResponderEliminarA minha mãe, Natália Nunes, escreveu um longo ensaio sobre a obra de Carlos de Oliveira - de quem foi amiga - e que se chama a Ressurreição das Florestas, publicado em 1997 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda.
Este livro poderá ter interesse a alguém que se dedique ao estudo deste importantíssimo escritor português neo-realista.
Aqui está a sinopse :
Em A Ressurreição das Florestas, Natália Nunes analisa a dupla viragem que, quer no plano dos recursos estilísticos quer no do conteúdo, o romance Finisterra marca no conjunto da obra de Carlos de Oliveira. Através de uma "técnica narrativa polifónica ou polivalente, procurando criar no plano da expressão uma obra aberta a multímodas leituras", Carlos de Oliveira ultrapassa a simples história da decadência da família burguesa rural e o conflito entre proprietários fundiários e camponeses, pois "apesar da sua referencialidade cronológica sócio-histórica, o que Finisterra mais claramente representa na nossa história literária e na sociologia da literatura é, acima de tudo [?], um intenso drama cultural e humano". Natália Nunes nasceu em Lisboa, tendo-se licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras desta cidade. Posteriormente tirou, em Coimbra, o curso de Bibliotecário-Arquivista, actividade que exerceu até se aposentar. A par da carreira profissional desenvolve a sua vida literária, iniciada em Coimbra, em 1952, com Memórias da Infância, e que vem continuando ao longo de quarenta e cinco anos, com trabalhos publicados nos campos da ficção, ensaio, teatro, memórias, traduções e artigos na imprensa periódica.
Beijinhos e muito obrigada! (aproveitei, indecentemente, este teu poste de hoje. Já sabes como eu sou...)
Cristina Carvalho
Finisterra é um grande romance. Em verso gosto muito do Micropaisagem.
ResponderEliminarAndo a Ler _ 53
ResponderEliminarPois como disse aqui no mês passado, despertou-me a curiosidade ao folhear, e trouxe comigo de Paris para ler com atenção, a edição francesa do livro “ C’est de l’eau “, de David Foster Wallace.
Como disse então, pareceu-me haver alguma confluência entre a metáfora das duas metades d’ ”O Visconde Cortado ao Meio” de I. Calvino – que andava a ler na(s) altura(s) – e a que julgo ser a ideia central deste texto de Wallace, que nos desafia a sairmos do nosso egocentrismo arrogante e competitivo, para nos abrirmos aos outros com humildade, tornando desse modo a nossa vida mais descontraída e a dos outros menos penosa.
Editado por “Au Diable Vauvert”, o livro começa por ser muito curioso: cada página contém apenas um (muitas vezes curto) parágrafo do texto, sendo que este se estende por umas boas 130 páginas/parágrafos. Desta forma o leitor é induzido a ter calma... pensar cada parágrafo... reflectir... enquanto muda de página...
Frases simples, aqui e ali temperadas com bom-humor, o texto é o discurso que Wallace proferiu em 2005, pausadamente, perante os jovens que, tendo concluído os estudos de Ciências Humanas na escola em que ele foi professor, iam entrar na vida adulta.
Lendo-o percebe-se – claro como água – que o que aqui está escrito é tudo o que aqueles jovens não encontraram nos teóricos livros de estudo de Ciências Humanas que leram na escola.
Claro como água, este texto sintetiza o que eles, os jovens – e nós todos – mais necessitamos de saber sobre nós próprios para que o rotineiro quotidiano da vida em sociedade deixe de ser um tormento diário.
O livro teve/tem um enorme sucesso em França. A ver se alguém decide editá-lo em Portugal.
Ando a ler "A América e os Americanos e outros textos" de John Steinbeck.
ResponderEliminarO registo de alguns acontecimentos que o mundo viveu e sofreu ao longo do século XX.
Um livro que retrata a memória biográfica do próprio Steinbeck e onde se faz sentir intensamente a sua trajectória política, que vai do grande romancista que tão bem descreveu a miséria e o êxodo de uma família de lavradores e de muitas outras (no pós crash de 1929) e que melhor relatou a piedade pelo sofrimento alheio, o protesto e a revolta perante as injustiças do mundo, até ao retrato do seu último percurso político em que se transformou num dos maiores defensores americanos da Guerra do Vietname, tão ou mais extremista que os defensores do contrário.
John Steinbeck foi um grande, imenso escritor, embora este livro seja, pelos temas tratados, um livro "datado".
Acabei de ler «Os Naufrágios de Camões» de Mário Cláudio
ResponderEliminarPáginas inesquecíveis quanto à arte da palavra.
No domínio de letras para fado vou sempre parar ao "Povo que Lavas no Rio". Sem dúvida pela voz da Amália mas também pelo tom geral que, nada tendo que ver com ruelas de Alfama, tascas da Mouraria ou casas típicas, sintetiza o próprio fado.
ResponderEliminarNão há muito tempo comecei a ler e gostei muito da autobiografia de Elias Canetti. O 1.º volume ("A Língua Posta a Salvo"), que foi o que li, tratava da infância e adolescência. Por isso agora estou a ler o mesmo tema por Graciliano Ramos ("Infância).
Ando a ler o teatro de Romeu Correia, neste ano do seu centenário ("Roberta" e "Cravo Espanhol").
ResponderEliminarAndo a ler um livro extraordinário, que não vou traduzir porque me faltam as "unhas", mas que não consigo largar. Chama-se Patria e o autor chama-se Fernando Aramburu. Lá se vai o ditado segundo o qual "De Espanha..." Este vento é arrebatador. E mais não digo.
ResponderEliminarBoa tarde. Obrigado. Tenho toda a obra do autor e, lamentavelmente, ainda não li nada dele. Censurável, não é?
ResponderEliminar"Uma abelha na chuva" foi-me livro de leitura obrigatória, talvez num ano propedêutico e talvez devesse relê-lo - deve estar em algum lado, lembro-me que o comprei. E já li alguns poemas de Carlos de Oliveira e de que também gostei, têm uma tonalidade muito própria. E a programação complementar, em Vila Franca de Xira, é aliciante.
ResponderEliminarAndo a deliciar-me com Máquina de Fazer Espanhóis, depois de um interregno de quase três meses sem ler ficção. Sentia-me à deriva. Uma espécie de bloqueio. Já passou. Felizmente. Hei de ler o Carlos de Oliveira, sim.
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