Humor e narcisismo

Apesar de andar nisto da edição há mais de trinta anos, verifico de repente que publiquei pouquíssimos livros com a tónica  do humor (nos últimos anos, apenas O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais, e uma reedição de A Demanda de D. Fuas Bragatela, de Paulo Moreiras, que é um romance pícaro). Em Portugal somos extremamente rápidos a inventar anedotas acerca de qualquer acontecimento, mas não somos especialmente vocacionados para literatura humorística – isto, claro, nos tempos mais recentes, pois já houve muitíssimos escritores de outros séculos de finíssimo humor. Vem isto a propósito do romance «policial» de um escritor francês chamado Laurent Binet e publicado pela Quetzal (agora ponho o nome da editora para ver se não me acusam outra vez de o omitir de propósito) – A Sétima Função da Linguagem, que parodia o meio literário e intelectual (no caso, o francês, mas há muitas coisas decerto universais quando se trata do ego dos escritores), usando o formato de uma investigação criminal. Ainda não li, mas tenho, obviamente, uma grande curiosidade, porque a revista L’Express designa o romance como «o mais insolente do ano» e o jornal Libération afirma que ele poderia ter sido escrito por um Houellebecq bem-disposto. Já li páginas muito boas sobre este mundo literário, por exemplo, em O Mundo, de Juan José Millás, e Dublinesca, de Vila-Matas. Mas, mesmo que a literatura francesa tenha vindo a decair com o tempo, a obra de Laurent Binet não me escapará.

Comentários

  1. Não me parece que a literatura Francesa tenha decaído — recordo o acima indicado, Le Clezio, Modiani, tantos outros, bem acompanhados pelo interessante novo cinema Francês — cada vez mais pujante, interessante, alternativo ao muito de mau e repetitivo que se faz, tanto na escrita como na literatura em nome do comercial. Do mesmo modo como muita literatura Portuguesa não passa pelo circuito da edição, muitas vezes por falta de pachorra dos autores para se exporem a uma mole imensa de público formatada numa linguagem "oferecida", e a uma mole imensa de vontades imaturas de se ser escritor (como se o ser não exigisse tempo de comungo, confessionário, disciplina, tempo de prazer, e muita dor), induzindo a opções editoriais pelo constante e trivial, despido de conteúdo. Falta algo que nos surpreenda, que nos apaixone, penso, também, limitado por um olhar diminuído e circunscrito. Como dizia o Almada, uma geração que se faz representar pelo(s) Dantas é uma geração que nunca o foi. Uma afirmação de Almada que, obviamente, extravasou o domínio da justiça, cautela e do rigor, embarcando no preto e branco nacional, na tonitruante mensagem do superlativo absoluto simples de quem salta quase sempre, como coelhos tirados de cartolas, do oito ao oitenta: capacidade de arriscar, moleza, redução ao exagero, foram, serão sempre, características muito nacionais.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Afirmação do Almada, afinal, segundo os conhecedores, muito injusta!

      Eliminar
  2. De facto, é uma verdade que já comentei diversas vezes (a da falta de humor e ironia na literatura portuguesa). Além dos nomes que refere e de clássicos como Eça, nos últimos anos conheço apenas um português que usa a ironia como sistema e não como recurso esporádico: João Reis. Creio que Maria do Rosário Pedreira terá lido o seu mais recente romance «A Avó e a Neve Russa», que tem um humor peculiar, entre o ingénuo-irónico e o sarcasmo, mas o seu livro anterior, «A noiva do tradutor», é uma obra intensa de ironia e humor refinado aplicado à crítica (do mundo geral e do mundo editorial).
    E Binet é um grande autor.

    ResponderEliminar
  3. Há dois campos onde a literatura portuguesa não singra ou o faz com dificuldade ou raramente: no uso do humor e no confronto de duas personagens. O tom fino de "Os Maias", "A Ilustre Casa de Ramires", por exemplo, a intensidade dramática de "Frei Luis de Sousa" onde os voltamos a ter?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco17 de abril de 2017 às 05:48

      O subtil e fino humor, a ironia, de Eça! Em Camilo (apesar de uma certa tendência para o drama de faca e alguidar), Júlio Dinis e Aquilino também consigo ver a pujante alegria da vida!

      Eliminar
  4. António Luiz Pacheco17 de abril de 2017 às 05:14

    Vou dizer asneira, por certo... mas correrei o risco e apelo à vossa complacência para com esta traça dos livros.
    É que a mim, parece-me, que entre nós portugueses e sobretudo entre as pessoas da cultura, o humor é sinónimo de pirosice, de "pimba" e portanto coisa mais própria da "gentinha"! Veja-se a postura e como se apresentam os nossos escritores... alguém os imagina a escrever uma coisa alegre, cómica?
    Falo na generalidade, porque o Paulo Moreiras que não conheço pessoalmente me parece uma pessoa bem-disposta, assim como bem-disposta é a Cristina Carvalho, mas Escritores, como o Mário Zambujal, são raros... nem sei de onde apareceu o João Rebocho Pais e é pena se esgotou a veia satírica!
    Interrogo-me porque será assim, de temos uma escola no teatro de revista, e na rádio... José de Oliveira Cosme, os irmãos Andrade, Rolo Duarte, Bernardo Brito e Cunha, quem não se lembra da Miscelânea Radiofónica, dos Parodiantes de Lisboa, do Pão com Manteiga!
    Pena que não lhes desse para o romance, salvo o Mário Zambujal.

    Saudações divertidas cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco17 de abril de 2017 às 05:46

      Esquecia-me das Memórias de Manel Loendrêro, publicadas em crónica no jornal de Moura, e dos seus compadres Zéi Alicrau, Abel Tengerina e Cara-de-Cinoira, da autoria do meu amigo Luis Santa-Maria, e depois por ele coligidas e publicadas em livro... dei muitas e boas gargalhadas a lê-lo!

      Eliminar
  5. «É que a mim, parece-me, que entre nós portugueses e sobretudo entre as pessoas da cultura, o humor é sinónimo de pirosice, de "pimba" e portanto coisa mais própria da "gentinha"! »

    Concordo.
    Há muito boa gente (leitores, escritores, críticos, etc., etc.) que tem uma visão redutora do que é literatura, contaminada por preconceitos e gostos pessoais.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. ABC, não escrevem sátira por pensarem ser pirosice, ou será por incapacidade (talvez congénita)?! Nós portugueses não somos pessoas muito divertidas, receio mesmo que a resistência ao humor radique nessa inabilidade. Fazer rir ou sorrir é mais difícil que fazer chorar. É provável que na escrita aconteça algo parecido.

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco17 de abril de 2017 às 07:16

      Não somos divertidos? Discordo... quando estamos descontraídos, "ninguém está a ver" , quando somos nós-mesmos, acho que somos tão divertidos quanto quaisquer outros... mas o problema reside mesmo em sermos educados de forma a esconder que somos divertidos, pois sê-lo é sinónimo de ser "tolo", fica mal!
      Arvorar um ar sério, é que fica bem... mostra-se que se é responsável, maduro, respeitável... acho que isso é o maior responsável por essa incapacidade aparente de se escrever sátira ou similar. Um escritor que escreva temas de humor é mal-considerado, tido por menor.
      Terei razão?

      Eliminar
    3. Ó Pacheco, já leste "LISBOA EM CAMISA" do Gervásio Lobato, figura muito popular do meio literário lisboeta da segunda metade do século XX? Li-o há muitos anos e (na altura) fartei-me de rir.

      Recordo-me ainda de outro dos livros que então também me fez rir a valer: "O CHAPÉU DE TRÊS BICOS" do escritor espanhol Pedro António de Alarcón.

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco17 de abril de 2017 às 12:06

      Eheheh! Lisboa em Camisa - o dr. Formigal e o Conselheiro são personagens eternos - era o livro preferido da minha mãe, que ofereceu a cada um de nós uma edição reeditada (passe o pleonasmo) com uma dedicatória a cada um de nós três, seus filhos!

      Porém sou grande fã do José de Oliveira Cosme!

      Um abraço!

      Eliminar
    5. Beatriz, só agora li o seu comentário.
      Respondendo: uns não escrevem por acharem que não é literatura, e outros também não, por falta de capacidade. E ainda bem que reconhece que escrever sátira não é massa para todas as mãos. Humor é outra loiça: quebra-se facilmente quando é gratuito, meramente para divertimento, mas é uma arte quando, bem produzido, se transforma em arma de arremesso. E agora poderia referir-me à receção da literatura pícara e quejandos, mas fica para outra hora mais cedo.
      Boas leituras, sejam elas divertidas ou sérias.

      Eliminar
    6. Ainda penso que a ironia fina é muito inteligente e não me parece de acesso directo ao comum dos mortais.
      Não sei o que são temas de humor. O Ricardo Araújo Pereira escreve com humor sobre tudo. E bem, tem bom raciocínio e boa prosa. Não o considero menos croniqueiro que outro qualquer:) e julgo que seja apreciado por muita gente.

      Eliminar
  6. Concordo com muito do que foi escrito .
    O humor, do bom, das melhores procedências é difícil de encontrar e o que ainda é mais difícil é esse mesmo humor no feminino.
    Revirei para aqui a memória de tantos e tantas escritoras, e só me ficou a Isabel Allende, a bem da verdade, que não é uma escritora humorística - mas que tem boa disposição tem.
    Por isso não estranho que a MRP como editora não privilegie o género, não quero dizer com isto que não seja bem disposta, mas que talvez o mundo dos livros como tantos outros, ainda imponham um certo estar no feminino onde gargalhada pode rimar a fútil.
    No entanto aqui pelo blogue, pressinto um humor de filigrana na voz da Beatriz e claro a boa onda truanesca do Pacheco.
    Quanto a mim, como toda a gente sabe, prefiro os cilícios de boa qualidade, à falta deles fico-me pelas agulhas de acupuntura ;).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Julgo que o caso de Isabel Allende é congénito. A senhora parece ser bem disposta e muito imaginativa. O livro em que mais me divertiu - sobretudo naqueles em que fala de si tem quadros bastante pitorescos - foi, se é que ainda sei o título, Afrodite. É um suposto conjunto de receitas afrodisíacas e afinal basta-se como manual de boa disposição de que talvez ela, na altura, necessitasse mais que os leitores.
      O meu humor de filigrana, por ser assim em arabesco, às vezes estraçalha-se todo. Mas é bonita a imagem :). Obrigada.

      Eliminar
  7. Valeria Luiselli e A História dos Meus Dentes, de 2015 e para mim um dos livros mais inteligentes na provocação do riso.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário