O fascínio dos nomes
Há uns anos, mandaram um fotógrafo do jornal Público para me fotografar (já nem me recordo bem a que propósito) e, quando lhe perguntei como se chamava, respondeu-me: Miguel Manso. Pensei logo que fosse o poeta Miguel Manso, mas ele explicou-me que os confundiam constantemente, mas que não eram sequer parentes. Um dia destes, no suplemento «Ípsilon», havia um grande artigo sobre o poeta e o seu último livro (Rosto, Clareira e Desmaio, publicado pela Douda Correria) e a fotografia que o acompanhava era do outro Miguel Manso; um Miguel Manso a fotografar um Miguel Manso tem a sua graça... Também já me aconteceu na Feira do Livro de Lisboa uma jovem chamada Rosário Pedreira vir pedir um autógrafo a esta Maria do Rosário Pedreira e eu pensar que era uma brincadeira… Há uma história deliciosa que Manuela Goucha Soares publicou recentemente no Expresso e se prende com o cantor Olavo Bilac, que tem este nome porque o herdou do seu pai, um senhor que viveu em Macau e foi depois bancário em Moçambique. Este segundo Olavo Bilac foi assim baptizado por causa do príncipe dos poetas brasileiros, o Olavo Bilac original, que terá passado por Cabo Verde em 1916, terra onde vivia Cristina Maria, avó do cantor. Não só, na altura, o poeta tinha uma grande popularidade em Portugal e era referido com parangonas por toda a imprensa, como se sabia que combatia o racismo, e talvez tenha sido essa a razão que fez com que Cristina Maria desse o seu nome ao filho que viria a ter. A única coisa estranha é que o cantor Olavo Bilac, apesar desta história, confessou ao jornal nunca ter lido o poeta que está na origem do seu nome. O fascinante artigo pode ser lido aqui:
A vida e a literatura estão cheias de coincidências extraordinárias. É por isso que a vida é a minha esposa e a literatura a minha amante.
ResponderEliminarInteressante, também, seria conhecer as leituras do cantor Olavo Bilac. Para se poder tirar ilações.
Creio que é comum, em todo o Mundo, dar-se ao filho o nome de alguém que nos impressione ou influencie de algum modo.
ResponderEliminarTambém é vulgar o nascituro receber nome do padrinho, de país ou acontecimento notável nessa época.
E depois há coincidências... como parece esta entre poeta e fotógrafo ou entre as duas Rosário...
Mas a origem de nomes dados a propósito, é no mínimo fascinante!
Tive uma empregada cuja sobrinha e afilhada se chamava Marilina!
Havia uma senhora amiga da família, uma daquelas solteironas que no fundo fazia parte dela e era carinhosamente conhecida por Tia Abeca, aliás por mim baptizada mal comecei a falar, que se chamava Maria América, nome dado pelo pai que era um grande admirador dos EUA.
Por cá, Nelson Mandela é comum...
Os nomes de personagem de telenovela são um manancial inesgotável...
Lembro-me de uma anedota reaccionária que já tem barbas:
Dizia um comunista ferrenho, que ia ser pai - Se for menina chama-se Catarina Eufémia!
Atão e se for menino?
Ora, é Catarino Eumacho!
Ahahah!
Saudações e sudações cá da Cidade Morena onde uma praga de "ferro em brasa" nos inferniza!
Há curiosidades giras.
ResponderEliminarNão me surpreende que o Olavo Bilac nunca tenha lido nada do poeta (embora, até pela sua actividade, se adivinhasse algum apego às poesias...).
Ainda ontem ao falar com uma amiga, referimos o facto de muitos filhos e netos de escritores passarem ao lado da obra dos pais e do avós... por um caso particular, que contraria esta tese (e há muitos mais felizmente...), o de João Vasco, neto de Romeu Correia, conhecedor e empenhado na divulgação da obra do avô, neste ano do seu centenário...
Tal como o Luís, também não me surpreendeu nada que o Olavo Bilac nunca tenha lido nada do poeta. Uma explicação pode ser um mecanismo psicológico muito comum, muitas vezes, de forma inconsciente. Acontece que o facto de levarmos um nome de alguém que os nossos pais muito admiram, ou admiravam, pode funcionar como uma espécie de fardo, embora a intenção seja honrar-nos. Na verdade, há, em cada um de nós, a vontade de ser único, porque qualquer ser humano é sempre único. Ser nomeado, tendo outra pessoa em mente, pode causar problemas, pois é raro alguém gostar de ser confundido, comparado ou identificado com outrém, ainda que com um génio. É, por isso, bem possível que este Olavo Bilac, ainda que inconscientemente, tudo faça para não ser identificado com o seu homónimo, o que também passa por se afastar da obra deste.
EliminarCom em tudo na vida, há exceções, claro, só referi uma possibilidade.
Que o digam os Vítor Hugos e os Julios César deste mundo, bem como as Ana Belas e as Purezas.
EliminarE o Declínio do Amaral Junior também não deve ter tido uma vida fácil!!!
Bem, quando um nome se torna frequente, como Júlio César, ainda por cima, tendo por referência alguém que já morreu há muito tempo, penso que o "fardo" não será tão pesado ;-)
Eliminar... para já não falar do Eduardo Lembrança de Aliás.
EliminarConheci um senhor de uma localidade perto de Alcanena que se fartara de ver dar às meninas que nasciam o nome de Maria de Fátima. Quando lhe nasceu a primeira filha virou as costas a Fátima, olhou em frente e disse: vai chamar-se Maria de Santarém.
ResponderEliminarMas como é que nunca se pode ter lido isto? Só pode ser um imensa falta de atenção ao mundo de que se faz parte ou uma grande arrogância.
ResponderEliminarLÍNGUA PORTUGUESA (Olavo Bilac, o Grande)
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo esplendor e sepultura,
Ouro nativo que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Era um mimo esse primeiro Olavo Bilac e diria minha avó,"um palminho de cara incapaz de cavar uma leira de batata. E tinha até sua fragilidade e delicadeza como compete a poeta de princípio de século. Depois de Lisboa, sentiu-se precisado de um descanso no Estoril e cancelou a ida a Coimbra. O pobre não aguentou a super efusão portuguesa.
ResponderEliminarE poemava.
O Bilac do nosso tempo deve alguma coisa à curiosidade.
Quando era novo sempre ouvi contar esta história como verdadeira: Um dia um aldeão lá das berças dirige-se ao Registo Civil para registar a sua filha recém nascida. Pergunta-lho o oficial: então qual é o nome? Diz o pai: Atão prantelhe-ana(ponha-lhe Ana). E não é que ficou Prantelhana para toda a vida?!
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