À segunda
Imagino que seja uma grande alegria para qualquer escritor alcançar o aplauso da crítica, prémios e o reconhecimento do público com a sua obra de estreia. Porém, ao mesmo tempo, deve ser absolutamente aterrador para um autor que acabou de começar criar expectativas demasiado altas nos leitores em relação ao que virá a seguir. Conheço até alguns casos em que o livro de estreia acabou por ser filho único – ou passaram muitos anos até que esse escritor se atrevesse de novo a publicar. Hoje, as coisas são, ainda por cima, mais complicadas, porque, se um escritor tem muito sucesso e notoriedade com um primeiro romance, logo lhe exigem que publique outro a correr – o que nem sempre (ou quase nunca) dá bons resultados. Mas, segundo leio no The Guardian, a história da literatura está cheia de segundos romances excepcionais, muitos dos quais, no conjunto da obra, foram considerados os melhores ou mais populares daquele autor. Desde logo, Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, ou Ulisses, de Joyce; mas também Tristram Shandy, de Laurence Sterne, ou Cem Anos de Solidão, de García Márquez, que são de facto os mais emblemáticos nas obras dos respectivos escritores. Eu acrescentaria, por exemplo, A Piada Infinita, de David Foster Wallace, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, e Margarita e o Mestre, de Bulgakov. À segunda, é de vez.
Pois... mas é como a fruta, ou o vinho... alguns queijos até, e o presunto... há que amadurecer!
ResponderEliminarEscritor de sucesso estrondoso na primeira obra, e que continue, tem de ser um génio - que os há, evidentemente.
Mas também me parece que a genialidade do autor, evolui, progride!
Saudações sudorosas cá da Cidade Morena, onde o fim do tempo da chuva está a ser penoso, com o alor e a humidade da transição para o tempo seco!
À segunda, à quinta, à décima... Ninguém devia fazer, sequer, menção de editar um livro se não tiver nas suas veias mais palavras que o sangue que o alimenta. O que é estranho no mundo da escrita é autores que escreveram mais de dez ou quinze livros ficarem no obscuro do seu prazer (salv, bibliotecas nacionais e municipais) enquanto outros escrevem um; e, puxados pela estranha for-ma de se ser Português, esta maldita omertà (humildade, pois claro) de sermos mais vizinhos do que amigos do invisível, o mérito, arrastarem-se entre o desejo e o hábito rasgado a cada esquina. Mas escrever com paixão e ardor é isto mesmo: manter o orgulho da escrita bem perto e a navegar em qualquer água, indiferente às ondas superficiais do mar que escondem escritas de mais salgadas e de águas mais profundas.
ResponderEliminarÉ verdade!
EliminarRazões que a economia explica aliás, tanto quanto a nossa tendência para a mafiosice (dito num sentido ligeiro, hein!).
"... se não tiver nas suas veias mais palavras que o sangue que o alimenta..."
EliminarOra aí está a explicação ( e que linda que é )!
E eu a pensar que isto do escrever era uma virose.
Também já me aconteceu ler segundos romances que considerei bastante inferiores aos primeiros, mas que foram apregoados pelas Editoras como sendo excepcionais. Numa evidente tentativa de condicionar a opinião do presumível leitor e eventual comprador. O facto mais estranho nem é esse: é o daqueles críticos que, parecendo que fazem um favor ao autor ou à Editora (coisa que pelos vistos parece acontecer neste pequeno mundo de favores) faz uma «grande» crítica, impulsionando desse modo as vendas...
ResponderEliminarSabe, é por isso que eu não levo em conta as críticas... leio-as, porque me interessa saber o que pensa o crítico, se bem que alguns em vez de criticar aquela obra pretendem sobretudo mostrar ilustração, com tantas referências que se perde o fio... mas quando compro ou leio, não o faço pela crítica.
EliminarQuantos bons romances li, que nem foram alvo de crítica... quantos romances muito alardeados pela crítica se me revelaram corriqueiros, e até alguns alvo de críticas severas, depois me agradaram.
Depois percebi que a crítica é quase sempre uma extensão da personalidade, da forma de ver e de como cada qual vive ou entende a vida... portanto, deixei de ligar à crítica, definitivamente, e me perdoem os críticos, mas é difícil achar um crítico isento e objectivo, pragmático.
No entanto, repito, leio críticas porque gosto de saber o que pensam, enfim alguns, críticos.
Estou de acordo quando diz que algumas críticas são uma extensão da personalidade do crítico, que procura impressionar com a sua (invulgar) clarividência...
EliminarInfelizmente, julgo que no mundo das artes em geral, isso acontece. Interpretar parece ser também uma capacidade de reescrever... em alguns casos, mais do que natural, extraordinária... Porque extraordinário se sente o crítico com o seu olhar clarividente...