Ignorância e cultura

Fui recentemente convidada para participar com duas outras pessoas – Carlos Mendes de Sousa, um professor especialista em Sophia de Mello Breyner, e Isabel Capeloa Gil, a reitora da Universidade Católica Portuguesa – naquele programa de televisão da autoria de Anabela Mota Ribeiro chamado Curso de Cultura Geral de que aqui falei e muitos dos Extraordinários viram e não gostaram (pelo menos, do primeiro «episódio»), mas, para o que aqui me traz hoje, tanto faz. O tema prendia-se com o que é hoje «ser culto» e, nos dias que decorreram entre o convite e a gravação, pensei muito no assunto e cheguei à conclusão de que, quanto mais cultos somos, maior é a noção que temos do que ainda nos falta saber. Por outras palavras: quanto mais coisas sabemos, mais ignorantes nos sentimos. Uns dias depois de o programa ter sido gravado (e como foi bom conhecer e ouvir os outros convidados, pessoas com tanto para dizer e tão interessantes!), li com curiosidade uma entrevista feita no site escritores.online a Bruno Vieira Amaral, o autor de As Pequenas Coisas (de que aqui já falei), romance galardoado com, entre outros, o mais recente Prémio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores. E, à pergunta sobre o que era para ele um bom livro, o escritor respondeu desta forma: «Qualquer um que nos revele a verdadeira dimensão da nossa ignorância.» Que bom que não seja só eu a pensá-lo. Para quem queira ler toda a entrevista, aqui vai o link:


 


http://escritores.online/entrevistas/bruno-vieira-amaral/


 

Comentários

  1. Mas que grande descoberta fez! Sócrates já o sabia, há mais de dois mil anos.

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    1. Amigo Filósofo,

      Eu estava aqui a dizer para com os meus botões se comentava ou não... Tiraste-me as palavras da boca. Mas onde é que está a novidade da MRP e do BVA ???

      Sócrates, que se saiba, foi o primeiro que o disse, não há dois mil, como arredondas, mas há dois mil e quinhentos anos...
      E de certeza que, antes deles, muitos o pensaram. E depois dele. E nós, que estudámos mais do que Sócrates mas provavelmente pensamos pior do que ele :).

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  2. Claro que não terá a ver com descoberta nem novidade, tem sim, penso eu, a ver com o campo da dimensão da nossa ignorância e essa, creio que, para todos, estará sempre, sempre a alargar-se (pelo menos para mim está).

    Curso de Cultura Geral-Vi e ouvi ontem com muito interesse o segundo episódio; e já se falou mais de livros (primordial, para mim, claro).

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    1. António Luiz Pacheco17 de janeiro de 2017 às 04:32

      Estaremos no bom caminho ó Severino? Não de desiludes tu... terás defeitos mas sempre te achei honesto!
      Abraço cá da Cidade Morena!

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    2. Obrigado Pacheco pelas tuas palavras (amigas).

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  3. Emílio Gouveia Miranda16 de janeiro de 2017 às 05:40

    A definição do Bruno Vieira Amaral é muito boa, mas peca por definitiva. Qualquer um que nos permita vislumbrar a verdadeira dimensão da nossa ignorância e que a preencha um pouco mais. Mas todo o livro que nos arranque exclamações de estupefacção é com certeza um bom livro...

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    1. e há múltiplas definições para o bom livro. A dele, a sua, a de cada um que pense nisso com seriedade.

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    2. Emílio Gouveia Miranda17 de janeiro de 2017 às 00:06

      Com certeza.

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  4. Tinha pensado não ver o "Curso de Cultura Geral" mas a falta de alternativas na TV e o repto que a Extraordinária Anfitriã fez no blogue levou-me a alterar a posição. Ainda bem que o fiz pois o programa melhorou substancialmente. Não obstante o figurino ter-se mantido foi inserida uma frase-chave sobre cada participante e foram mostradas muito a propósito imagens de pinturas de Mário Botas. Mas a maior melhoria veio dos intervenientes, não só pela sua qualidade intrínseca mas também pelas figuras e situações que souberam convocar para o programa, todas elas de elevadíssimo interesse cultural. E quando Jorge Silva Melo, talvez pela sua experiência teatral, toca em algo dá-se o milagre, ganha vida.

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  5. Já não assisti à biblioteca do Vale da Amoreira. Mas quem sabe conheci o Bruno Vieira Amaral criança. Bendita doença dos livros.

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  6. António Luiz Pacheco17 de janeiro de 2017 às 04:36

    Sócrates àparte (que se lixe o corrector) ... e para ser sincero acho pomposo e até snobismo definir assim um bom livro!
    Um bom livro para mim não tem necessáriamente de preencher a tal ignorância ou só lia manuais e compêndios! Um bom livro é um livro que me preenche, que me diz algo, me emociona me cria boas sensações no geral, é aquele de cujos personagens me despeço com pena me deixam saudades e passam a ser como conhecidos...

    Enfim, saudações de uma traça literária cá da Cidade Morena

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  7. A propósito cito a frase do Almada Negreiros, tirada da "Invenção do Dia Claro":"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido". Conclusão: teremos de ser selectivos nas nossas escolhas. As minhas balizas actuais são: 1- "La Biblioteque Idéale" de Bernard Pivot: abarca a história de todas as literaturas e todos os géneros desde o romance até á banda desenhada e gastronomia. É uma autêntica enciclopédia da literatura (além das sugestões e comentários sucintos dos 50 livros ideais de cada uma delas num total de 650 páginas;2-"Como Ler e Porquê"- Harold Bloom: Abrange ensaios sobre os melhores contos, a grande poesia, os romances universais e o teatro moderno;3- "O Cânone Ocidental"-Idem: Trata dos Grandes Livros e dos escritores essenciais de todos os tempos, onde inclui o nosso Fernando Pessoa;4-"Génio"-Idem: Uma forma original de recordar os 100 autores mais criativos da história da literatura, onde inclui Camões, Pessoa e Eça de Queiroz.

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  8. Um bom livro é um livro que nos ajuda a descobrir algo -- grande ou pequeno.

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