Viagem literária
É óbvio que só podemos visitar Avalon, Oz, a Atlântida ou Macondo através dos livros dos autores que criaram esses mundos, mas há bastante ficção à roda de lugares reais – e um dia destes, em conversa com amigos, decidimos que haveríamos de começar a visitar cidades, vilas e aldeias de que ouvimos falar desde sempre mas que, na verdade, não conhecemos senão dos títulos e enredos de certos romances. Por exemplo, eu não sabia onde ficava a Casa Grande de Romarigães (a do Aquilino, bem entendido) até ir ao Google e ver que era perto de Paredes de Coura (hei-de lá ir depois de ler o romance, o que ainda não fiz), nem que Prazins (a da Brasileira, de Camilo) pertencia ao concelho de Guimarães. Vai daí o Manel teve a ideia de irmos a Tormes (a Tormes do absolutamente notável A Cidade e as Serras), onde Eça de Queirós não chegou a viver (pernoitou apenas), mas que hoje alberga a Fundação com o seu nome, parte da sua biblioteca e os móveis que, depois da morte do escritor, vieram da sua residência em Paris. Além da visita guiada à casa, em que se fica a saber muita coisa sobre Eça e a família, existe um restaurante que serve os petiscos queirosianos, pelo que não falhámos a ementa que foi, pelos vistos, ali servida ao próprio Eça quando visitou Tormes: canja, frango alourado com arroz de favas e creme queimado. Estamos agora a pensar que lugar dos livros vamos visitar a seguir…
Interessante, saborear lugares e ementas de livros. Que deve haver muitos mais. Neste momento, ocorrem-me apenas Galveias e o palacete à beira mar para os lados de Setúbal de A Balada da praia dos cães. Ou talvez aquele outro que dizem ficar em Palmela (não sei se fica e é mesmo aquele no centro da vila, ali à dobra da estrada) e surge no romance O Esplendor de Portugal de António Lobo Antunes. Mas julgo que, ainda que venha a confirmar-se serem lugares de livro, com excepção de Galveias que é lugar aberto, não estão para visita. Em boa verdade, cada autor tem um ou mais lugares assinalados na sua obra.
ResponderEliminarGenerosa vossa atitude! Sofisticada (embora) relutante.
EliminarA doce Cláudia que eu raro entendo. Bom ano para si:)
EliminarE que tal fazer subida de burrico desde a estação de comboio junto ao rio até à quinta ? Isso é que era ! Estranhei a Maria do Rosário não fazer qualquer menção ao muito apurado verde branco de Tormes, uma grande e suave vinhaça.
ResponderEliminarA literatura portuguesa está repleta de magníficos exemplos, como os que deu. Aquilino, Eça, Camilo, Ferreira de Castro, Júlio Dinis, Miguel Torga, Saramago, etc., etc., etc. A lista é quase infindável, porque a literatura portuguesa é uma das mais antigas do Mundo. Basta os nove séculos de existência do nosso país, em que se faz boa literatura desde D. Dinis (para referir um nome que todos conhecem).
ResponderEliminarPermito-me dar 3 sugestões de locais onde já estive:
ResponderEliminar1- Vergílio Ferreira - Melo, onde nasceu e está sepultado; Biblioteca de Gouveia, onde está toda a sua biblioteca (a não perder); Seminário do Fundão onde estudou em criança e que serviu de inspiração ao livro Manhã Submersa.
2- José Régio - Casas Museu de Vila do Conde e de Portalegre, ambas muitíssimo interessantes.
3- Fernando Namora - Casa Museu em Condeixa e também a casa de Monsanto onde viveu quando dava consultas e que inspirou o livro Retalhos da Vida de um Médico.
Terras lindíssimas e onde se come muito bem.
Se não conhecem Monsanto não percam: é de cortar a respiração!
Talvez ainda cá volte com mais sugestões.
Antonieta
Mas não leu ainda a Casa Grande de Romarigães, um dos doze livros mais importantes dos últimos 100 anos (1916.2016) segundo um júri convidado pela revista ESTANTE. Pois eu já li e reli várias vezes assim como A Brasileira do Camilo e as Cidades e as Serras do Eça. Em Abril de 2013 tive oportunidade de visitar as Terras do Demo, Soutosa, Sernancelhe, Santuário da Lapa etc. e também a Casa Grande no concelho de Paredes de Coura, onde estavam a viúva do filho de Aquilino, bem como as suas netas, tudo organizado pela Associação Portuguesa de Escritores.Estão no horizonte a casa de Camio em S. Miguel de Seide (Famalicão) e a Casa-Museu Guerra Junqueiro no Porto.
ResponderEliminarFolgamos em saber. Como se pode aderir a essas visitas tão interessantes?
EliminarTambém fiz esse roteiro das Terras do Demo do Aquilino. E o Anónimo já esteve em S. Leonardo da Galafura a ler o belo poema do Torga e a contemplar o Douro que tanto o inspirou? Já que não podemos marcar uma consulta para o Dr. Adolfo Rocha em Coimbra...
EliminarOu então ir ao Jardim Botânico do Porto e à Praia da Granja evocar Sophia.
Também já não se pode ir à Fundação Eugénio de Andrade na Foz (onde estive em 2001 com ele ainda vivo e muito bem disposto), mas é possível lembrá-lo na Póvoa de Atalaia, onde nasceu, bem perto do Fundão e onde se come muito bem.
Antonieta
Mas cuidado... não perder a noção da diferença entre real e literário... não vá a gente ir à procura do 202 dos Campos Elísios que... não existe.
ResponderEliminarMas o real tornou-se literário! A Casa de Tormes, sede actual da Fundação Eça de Queiroz, é um lugar mítico criado por Eça (A Cidade e as Serras ) e que veio substituir a original Quinta de Vila Nova, em Sta. Cruz do Douro e que sua mulher havia herdado.
EliminarSim, sei.
EliminarHá quem goste muito de tomar os lugares literários como motivação para viajar aos lugares reais que lhe estão por trás; eu prefiro permanecer 'dentro' do literário. Não há vale de Santarém real que me tire do das Viagens do Garrett.
O que primeiro me acudiu ao espírito foi A Ilustre Casa da Ramires, entre Cinfães e Resende, bem perto de Tormes na outra margem do Douro. Mas o que se impôs foi uma viagem cinéfila e não literária, ainda que o guião de Cerromaior tenha sido extraído de uma obra literária com o mesmo título, de Manuel da Fonseca.
ResponderEliminarEntrado no largo da vila imaginei-me a bordo da camioneta da carreira que transportava de Lisboa o menino Adrianinho, a férias em Portel. Percorri o largo, a camioneta parou, eu saí. Comecei a caminhar para casa, passei em frente da taberna (lá estava o banco de pedra no exterior, com os alentejanos a conversar como no filme), vi de frente o palacete ao fundo da praça com o alto muro da sua varanda guarnecida de uma balaustrada de ferro, preparei-me para entrar... Acabou a "viagem", a casa era privada.
Momento nada modesto: fiz há uns anos (largos) um curso de Verão em Tormes era eu uma jovem em início de doutoramento, com um percurso anglo-germânico e que precisava saber quem fora Eça e porque é que Eça é Eça. Devo ter gostado porque uns anos depois marquei uma visita privada para um grupo de amigos que conheci no Egipto, esse sobre o qual Eça escrevera... Tantas memórias...
ResponderEliminarHarold Bloom na sua obra "GÉNIO-Uma forma original de revelar os 100 autores mais criativos da História da Literatura" inclui os nossos Luís de Camões, Fernando Pessoa e Eça de Queiroz.
EliminarTambém eu sempre tive essa curiosidade por isso comecei também por ir a Tormes e a deliciar-me com a mesma ementa que Eça comeu quando ali pernoitou, gostei imenso e como grande admirador de Eça e de 'cidade e as serras' ainda mais.
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