Domínio público espanhol
Todos os anos entram no domínio público as obras de um certo número de escritores. Que quer isto dizer? Que, decorridos 70 anos sobre a morte de um autor, os direitos deixam de ser devidos aos herdeiros, e qualquer editor em qualquer parte do mundo pode publicar a obra livre deste encargo (podem até publicá-la vários editores ao mesmo tempo, como acontece, por exemplo, com O Principezinho, de Saint-Exupéry, com várias edições portuguesas desde que entrou no domínio público). Ora, ao que leio num blogue, em Espanha estes 70 anos só vigoram para autores que morreram depois de 1987, mantendo-se para os que perderam a vida antes disso o período de 80 anos antes estabelecido. Razão pela qual este ano de 2017, no país vizinho, entra no domínio público a obra dos escritores mortos em 1936 – e não em 1946, como acontece em Portugal. E, porém, se este atraso de dez anos parecia uma desvantagem, não o é realmente. Porquê? Porque 1936 é o ano em que começa a Guerra Civil de Espanha e, como toda a gente sabe, esta provocou, sobretudo entre os intelectuais, muitíssimas vítimas e mortes violentas (ocorre-me desde logo García Lorca, que morreu justamente neste ano). A Biblioteca Nacional de Espanha disponibiliza uma lista com mais de 300 nomes e 77 páginas! Nela, descubro Miguel de Unamuno e Ramón del Valle-Inclán, por exemplo, outros dois nomes importantes. Mas muitos mais haverá nessa lista ceifados pelo franquismo. Para quem a queira «folhear», deixo o link.
http://www.bne.es/webdocs/Servicios/Informacion_bibliografica/autores-dominio-publico-2017.pdf
Obrigado.
ResponderEliminarSerá que o grande livro sobre a Guerra Civil de Espanha, ainda terá sido escrito por algum dos nomes desta lista?
ResponderEliminar"Os Soldados de Salamina" do Cercas e "O Lápiz do Carpinteiro" do Rivas podem entrar nessa categoria.
EliminarOs Soldados de Salamina vai ser reeditado na nova coleção Miniatura por 8,80€.
Eliminarhttps://www.wook.pt/livro/soldados-de-salamina-javier-cercas/18911701
Grande livro !
EliminarPorque será que lemos tão pouco os clássicos espanhóis ? Com a provável exceção de Cervantes, quem sabe quem foi ou lê o Eça castelhano ? Ou serei só eu que tem esse lapso ? Compro tudo do Vila-Matas e leio com prazer o Mendonza, o Marias, o Reverte, a Montero, o Pinzón, o Cercas, o Fajardo, todos escritores contemporâneos, e nada sei ou li do Valle-Inclán e de todos os outros escritores anteriores a Lorca, com a exceção do autor do Quijote. Parece-me que nunca ninguém promoveu seriamente entre nós a história da literatura espanhola, como têm sido promovidas a francesa e a inglesa, apesar de nós e eles ocuparmos a mesma península. Queixemo-nos ao Instituto Cervantes ?
ResponderEliminarBem pensado. Não sei quem conheço dos clássicos espanhóis além de Cervantes, é provável que ninguém. A divulgação e publicação em bom português talvez fosse boa ideia.
EliminarFalando por mim, primeiro alguém tem que me entusiasmar sobre a escrita de autores clássicos espanhóis para eu ir à procura dos seus livros. Por exemplo como fez Muñoz Molina para os espanhóis, um homem que adora Portugal e Lisboa, e que eu me esqueci de incluir na lista de autores espanhóis atuais que gosto de ler, no que respeita a Eça de Queiroz num belíssimo ensaio curto publicado no Babélia (suplemento literário do El País, acessível na net) de sábado passado e com o título "La risa de Eça de Queiroz". Estou de acordo com o Molina: Eça é melhor do que Zola ou Flaubert ! E por causa desse texto do Molina, estou a reler "A Cidade e as Serras", o primeiro dos romances do Eça que li na minha adolescência.
EliminarHummm...também creio que foi o primeiro que li dele e gostei bastante. Depois, a contas com uma doença e no espírito subversivo e meio malandro de enganar as freirinhas do internato, li O crime do padre Amaro e O primo Basílio. Que foram uma surpresa boa. Sem saber, Eça ensinou-me a pensar, ou melhor, a entender mais um bocadinho do bicho homem. Nesse tempo, a qualidade da prosa ainda não era objecto específico da minha análise.
EliminarCreio que, na verdade nos faz falta quem dinamize a divulgação dos escritores castelhanos de sempre. Como fez esse senhor em relação a Eça.
A todos esses que o Artur menciona eu juntaria o Gonzalo Torrente Ballester - gostei de tudo o que li dele.
EliminarAntonieta
Que esquecimento o meu. Ballester, claro ! Sempre me pareceu o"primo" do Saramago, o que na minha boca é o maior dos elogios.
EliminarEm Espanha tem feito um enorme sucesso o livro Patria de Fernando Aramburu sobre uma família basca e a divisão criada pela ETA. Em quatro meses vendeu 100.000 exemplares, vai na 8ª edição e já foi anunciada a sua adaptação a série. Por cá pouco ou nada se ouviu falar, apesar de versar sobre acontecimentos históricos recentes e que são do comum conhecimento dos portugueses. É uma pena vivermos de costas voltadas e alheados do que culturalmente se passa aqui tão perto.
ResponderEliminarEu comprei o livro na livraria La Central em Madrid que tão bem me foi dada a conhecer neste magnífico blogue. Bem-haja MRP, que para além de outras qualidades, muito tem feito para nos dar a conhecer a cultura além-fronteiras.
Bem lembrado ! Gosto dos artigos do Aramburu na Babélia do El País mas confesso que nunca li nenhum livro dele. Talvez venha a ser este.
EliminarParece-me que efectivamente se viveu sempre de costas viradas a Espanha... uma inimizade de estimação de que me recordo ser incutida nos bancos da escola! Salazarismo e anteriores assim foram sempre... em compensação a adoração e o seguidismo por tudo que viesse da França e da Inglaterra era absolutamente bacôco!
ResponderEliminarTalvez por ser desalinhado, sempre me senti em consonância com espanhóis, e até considero que conheço algo da cultura espanhola pois viajei bastante por lá, fiz negócios, cacei, bebi copas e mantive amizades
por lá. Porém também reconheço que não conheço os clássicos espanhóis, tirando o Cervantes... na verdade a nossa leitura foi sempre virada para os Haggard e os Dumas, pelo que nem sei se há equivalentes em Espanha. Mas fica a sugestão: vou procurar!
Mais um Extraordinário post, este!
Bom fim-de-semana, eu tinha planeado largar hoje ao fim da tarde rumo a uma pescaria no Sul, mas já me estragaram tudo com uma reunião importante amanhã ... é a vida!
Saudações esforçadamente laborais cá da Cidade Morena.